Capítulo 4

MÁRCIO DINIZ

O café ainda estava ali.

Não no terno — aquele eu já tinha pendurado no banheiro executivo como um corpo caro demais para ser salvo —, mas em mim. No cheiro que parecia impregnado na memória. Na irritação que não diminuía, mesmo depois do banho quente, da camisa nova e da gravata perfeitamente ajustada.

Eu odiava imprevistos.

E odiava ainda mais quando eles tinham rosto, nome… e um véu.

Encarei meu reflexo no espelho por alguns segundos além do necessário. O homem ali parecia o mesmo de sempre: postura firme, olhar calculado, expressão fechada. Mas algo estava fora do lugar. Não no rosto. Dentro.

— Inacreditável — murmurei.

O terno custava mais do que o aluguel mensal de muita gente. Mas nunca foi sobre dinheiro. Nunca é. É sobre controle. Sobre ordem. Sobre um dia que deveria ter seguido exatamente como eu planejei — e não ter sido sequestrado pelo tropeço de uma estagiária distraída vestida como se tivesse saído de outro século.

Maria Carolina Corrêa.

O nome surgiu sem convite, insistente. Não porque fosse bonito ou especial, mas porque era inadequado demais para aquele ambiente. Assim como ela.

Voltei para a sala com passos duros. A equipe estava reunida, silenciosa demais, concentrada demais — o tipo de concentração que só aparece quando algo deu errado e todos sabem disso. Todos tinham visto. Todos tinham ouvido. E todos sabiam que eu não estava de bom humor.

— Remarquem a reunião com Singapura — disse, seco, sem preâmbulos. — E alguém descubra quem achou que era uma boa ideia colocar uma noviça circulando com café quente no meu andar.

Minha assistente engoliu em seco.

— Senhor… ela faz parte do programa social aprovado pelo conselho.

Levantei os olhos devagar.

— Conselho não anda pelos corredores — respondi. — Pessoas atrapalhadas andam.

Sentei-me, passando a mão pelo rosto. A tela à minha frente mostrava gráficos, números, projeções. Tudo que eu entendia. Tudo que eu controlava. Mas, por mais que tentasse focar, a imagem voltava sem pedir permissão: o café se espalhando pelo tecido, o olhar assustado dela, a forma como pediu desculpas como se o mundo inteiro fosse culpa dela.

Aquilo deveria ter sido irrelevante.

Mas não foi.

Havia algo naquele olhar. Não fragilidade — isso eu reconhecia de longe. Era outra coisa. Uma firmeza silenciosa que não combinava com o pedido de desculpas. Como se ela estivesse acostumada a engolir o impacto e continuar em pé.

— Ótimo — resmunguei para mim mesmo. — Agora estou analisando trauma infantil em vez de balanço financeiro.

O mais irritante era admitir que eu tinha sido grosso. Não porque me arrependesse — eu não era pago para ser gentil —, mas porque não tinha sido necessário. Eu poderia ter dispensado a garota com uma frase curta, burocrática, impessoal.

Mas não.

Eu tinha ido além.

Talvez por causa da roupa.

Talvez por causa da fé estampada nela como um desafio silencioso.

Talvez porque pessoas assim sempre me incomodaram.

Pessoas que acreditam.

Fé é uma variável que não se mede, não se controla e não se corrige. E eu passei a vida inteira tentando eliminar variáveis.

Levantei-me e caminhei até a parede de vidro. Lá embaixo, a empresa pulsava como uma máquina perfeitamente ajustada. Pessoas entrando, saindo, cumprindo horários, obedecendo metas, respondendo a números.

Aquilo eu entendia.

O que eu não entendia era por que uma noviça bolsista de Harvard tinha conseguido bagunçar meu dia com um copo de café.

— “Quero ver que tipo de milagre você pode fazer aqui”… — repeti em voz baixa, lembrando do que disse a ela.

Por que eu disse aquilo?

Talvez porque, no fundo, eu quisesse provocá-la. Testar. Ver se aquela calma era real ou apenas um verniz religioso pronto para rachar ao primeiro impacto.

Meu celular vibrou. Uma mensagem do conselho perguntando se o programa de estágio estava correndo bem.

Sorri sem humor.

Um desastre, pensei.

Mas respondi apenas: “Sob controle.”

Mentira profissional. Das mais comuns.

Voltei à mesa e abri o dossiê dos estagiários. Rolei a tela até encontrar o nome que eu fingia não procurar.

Maria Carolina Corrêa.

Origem: orfanato.

Bolsa integral.

Desempenho acadêmico: impecável.

Observações: vocação religiosa, disciplina exemplar.

Fechei o arquivo com mais força do que o necessário.

Disciplina exemplar.

Claro que era.

Era sempre esse tipo de gente que desestabilizava quem acreditava ter tudo sob controle. Não gritava. Não enfrentava diretamente. Apenas existia — firme, silenciosa, incômoda.

A imagem dela ajeitando o véu com mãos levemente trêmulas voltou à minha mente.

E, contra minha vontade, algo parecido com desconforto se instalou no peito.

Não culpa e irritação fora do comum.

Porque eu sabia reconhecer quando algo pequeno tinha potencial de virar um problema grande.

E aquela noviça…

definitivamente não era apenas uma estagiária distraída.

Era uma variável.

E variáveis exigem atenção.

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