Mundo de ficçãoIniciar sessãoSofia
Jisele era muito mais velha do que eu, mas tinha uma velocidade felina. Não havia percebido, mas ela já havia colocado uma nota de 100 reais na mesa, embaixo do pratinho de café dela, que ela não tomou nem metade. - Eu pago a sua água. - Jisele falou. Olhando para mim impaciente e fazendo um movimento com os olhos para que eu a seguisse. - Mas eu preciso pegar minhas.. - Não consegui terminar de falar. - Acredito que essa deva ser uma das suas melhores roupas. Apesar de ter um uniforme para você usar, morando nas depêndencias da família Said você deve se vestir a altura. Como uma boa funcionária, é claro. Todos os funcionários tem de passar boas impressões para os familiares, amigos e visitantes da casa dos Said. Já terão algumas peças de roupa lhe aguardando no seu novo casebre, que deve ser um palácio comparado de onde você vem. - Jisele falava sempre com um ar enorme de superioridade. Confesso que achei até engraçado, considerando que ela era somente uma governanta e era tão funcionária da casa quanto eu seria. Mas jamais responderia atravessado para ela. Naquele momento eu poderia beijar os pés dela se fosse preciso. - Vá para sua casa e pegue somente o que for necessário. E algumas poucas peças de roupa, porque você poderá renovar seu guarda roupa quando receber seu salário. - Jisele falou já entrando no carro, o qual a porta tinha sido aberta pelo motorista que a aguardava. Eu ainda não tinha tido tempo para respirar direito desde que ouvi o valor de 10 mil reais naquela padaria. Não tinha percebido que havia um motorista dentro do carro e que ele havia ficado dentro dele durante todo aquele período em que estivemos sentadas. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Jisele falou: - Esteja aqui em uma hora, que Francisco estará aqui no seu aguardo para lhe levar até a residência dos Said. Não se atrase! Eu só tive tempo de balançar a cabeça fazendo que sim. Fui correndo para o ponto de ônibus, torcendo para que meu ônibus ainda não tivesse passado, porque corria o risco de não conseguir voltar a tempo. E eu não podia me atrasar. Não poderia me dar o luxo de perder esse emprego antes mesmo de começar. Na verdade, eu não poderia me dar o luxo de perder esse emprego! Peguei o ônibus e praticamente tive que correr para dentro de casa. - O que foi, menina? Parece que viu um fantasma. Se bem que a senhora Jisele parece um mesmo. Como foi a entrevista? - Núbia disparou. Eu não tive tempo de explicar. Enquanto eu falava, recolhia algumas peças de roupas. Não que eu tivesse muitas. Tentava encontrar meu carregador, meus documentos pessoais, alguns livros. Eu não tinha muita coisa, então sabia que não demoraria tanto para arrumar. O que mais estava me consumindo era que eu não sabia como falaria aquilo para minha mãe. Recolhi minhas coisas, coloquei dentro da minha mochila, sentei ao lado da cama de minha mãe e segurei em sua mão. Núbia estava do outro lado da cama, sentada em uma cadeira. - Mãe, eu sei que talvez seja uma surpresa não muito boa para a senhora, mas acredite, vai ser sim. Eu consegui um emprego e a senhora terá plano de saúde! Eu vou poder comprar a comida que a senhora precisar e vou conseguir pagar todas as contas de casa. - Falei com lágrima nos olhos. - Vou poder ajudar com os custos do Luquinhas e a senhora não vai mais precisar se preocupar com nada. Não deixei minha mãe falar e já perguntei para Núbia, que me olhava com certa cara de surpresa. - Algo me diz que a sua proposta foi bem mais interessante que a minha, Sofia, mas eu fico feliz por isso e.. - tive que interromper Núbia porque não tinha muito tempo. - Núbia, se eu te pagar 2 salários mínimos, você cuida da mamãe pra mim? - Perguntei. Núbia arregalou os olhos e disse: - Eles realmente devem ter feito uma prosposta bem diferente para vocês, devem estar desesperados.. Mas é claro, menina. Será a melhor coisa poder ficar ao lado de minha amiga. Tem coisas que o dinheiro não compra e naquela casa eu não tinha paz. Espero que você tenha mais sorte do que eu... - Eu vou ficar lá mesmo que eu não tenha sorte, Núbia. Não tenho muitas opções. - Falei. Minha mãe finalmente conseguiu falar depois daquele enxurrada de informações. Minha mãe era uma pessoa muito calma. Falava de forma doce e como se tivesse todo o tempo do mundo. Era como se mesmo no meio de um furacão, ela ainda conseguisse transmitir paz só pela forma como ela falava e me olhava. Eu a amava demais e me apertava o coração ter que ficar longe dela. - Soso, só Deus sabe que eu nunca quis meus filhos longe de mim e eu não gostaria que você estivesse em um lugar ruim só para me sustentar. Eu já estou velha minha filha e sinto que meu tempo aqui, em breve vai acabar. Eu deixo minha vida nas mãos do nosso grande Pai. Mas eu sinto que isso é uma oportunidade para você que, talvez, seja única. Não tive condições de te dar a melhor educação e isso prejudicou todo o seu futuro, mas eu acredito em você e sei que você será capaz de crescer na vida. Não se preocupe com a sua velha. Só não se esqueça de mim... - Eu nunca vou deixar a senhora. Sempre que der eu virei aqui e diga ao Lucas para se comportar, que mesmo longe eu vou estar de olho. Vou ligar para vocês todos os dias. E todas as folgas eu venho para cá. E assim que for possível, mãe. Eu vou tirar vocês daqui. Eu prometo! - Eu disse tentando parecer forte. Mas eu nunca fui muito.. - Acredito em você, minha filha. Eu amo você. - Linda falou com a voz trêmula. A cada dia sua voz parecia que saía com mais dificuldade. No fundo, mesmo sabendo que iria sentir falta de sua filha todos os dias, ela sabia que aquela era uma oportunidade para Sofia conhecer um mundo que ela nunca tinha visto. E ela não queria que sua filha ficasse mofando, cuidando dela, sem conseguir viver a própria vida. Não era necessariamente pelo dinheiro. Uma só conseguia pensar no que seria melhor para a outra. Sofia saiu de casa e só quando chegou na rua principal foi que deixou as lágrimas caírem. Ela estava com medo, assustada e se sentia mais sozinha do que nunca. Ela não tinha ideia do que a esperava.






