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Sofia

Logo depois que Bernardo acordou, ele parecia um bebê 100% renovado. Eu não preguei os olhos nem por segundo durante aquelas quase duas horas em que Bernardo dormiu. 

Achei assustador que durante todo aquele período em que estive ali, não ouvi um único barulho se quer. O som do silêncio parecia fazer mais barulho do que qualquer caixa de som poderia fazer.

Era um silêncio que parecia esfriar a minha alma.

Como poderia uma casa cheia de gente parecer tão vazia. 

Durante aquelas horas que estive sentada naquela poltrona, não pude deixar de pensar no pai de Bernardo. 

Eu nunca fui de pensar muito em homens no geral. Nunca tive muito tempo para namorar. Mesmo aos 25 anos de idade, eu tinha namorado somente uma vez. Meu ex-namorado era a único homem que eu já tinha olhado com outros olhos. Desde que terminamos há alguns anos atrás nunca mais quis me envolver com alguém. Eu não tinha tempo para isso. Mas não deveria estar pensando nada do tipo sobre o pai de Bernardo. Eu não tinha esse direito e nem era algo correto a se fazer, afinal, além de ser meu patrão, ele era comprometido. Mas acho que sonhar nunca seria demais, até porque um homem como ele jamais olharia para mim com outros olhos, somente me veria como funcionária. E de fato, era o que eu era. 

Mas.. sonhar não arrancaria pedaços.

Pensei na minha mãe também e no meu irmãozinho. Eu mal tinha saído de casa e já me sentia culpada por tê-los deixado, mesmo sabendo que seria o melhor para eles. Mesmo sem ser religiosa, rezei para que meu irmão mais velho permanecesse sem aparecer por lá. Minha mãe não precisava de mais essa preocupação. 

Assim que Bernardo despertou, solicitei o almoço dele. Já havia passado um pouco do horário que eu escolheria para ser o almoço dele. Mas parecia que ele estava tão confortável dormindo, que não quis acordá-lo. 

Não demorou muito para o almoço dele subir. Novamente a bandeja com os pratos de comida pareciam ter vindo diretamente de um restaurante. Não tive coragem de pedir algo para mim pelo interfone e quando a moça que era auxiliar da copa, subiu para deixar o almoço de Bernardo, eu perguntei. 

- Com licença.. - Falei sem jeito. 

A moça parecia ser mais nova do que eu. Era uma mocinha mais baixa do que eu. Tinha os cabelos longos enrolados em um coque bem preso. Vestia um uniforme que eu constatei como sendo o da copa. Até eu falar, a cabeça dela estava abaixada. Mas assim que ela ouviu minha voz e me olhou, foi a primeira pessoa dali que me fez uma expressão receptiva. 

- A senhora gostaria de algo para comer? - Ela falou. Tinha uma voz de menina.

- Por favor, não me chame de senhora, não quero acreditar que sou mais que 5 anos mais velha que você. Somos colegas de trabalho, não? - Falei para a moçinha. - Como é seu nome? 

- Dona Cláudia diz que as funcionárias aqui de cima estão acima do meu cargo e que eu deveria me referir a todos dessa forma.. meu nome é Paula. A senhora eu já sei que se chama Sofia. - Paula disse.

- Acho que as notícias correm rápido por aqui.. mas por favor, realmente não precisa me chamar de senhora. Muito prazer, Paula. - Sofia falou.

- O prazer é todo meu. Acho que a senhora gostaria de comer, né? -

- É.. gostaria sim. Mas não queria pedir pelo interfone e nem necessariamente gostaria que alguém me trouxesse comida aqui. Eu posso ir comer na copa. Como funcionam as refeições para os funcionários aqui? - Perguntei.

- Como a senhora.. você.. é a babá do Bernardo, o ideal é que você peça pelo interfone mesmo, nos momentos em que você solicitar que subam a comida dele. Todos os dias são feitas todas as refeições aqui, desde o café da manhã, lanches e até a ceia. Mesmo que na maioria das vezes sobre bastante comida, é assim todos os dias. Então, você pode pedir que a sua comida vem junto com a do bebê. - Paula falou.

- Mas aqui os funcionários comem da mesma comida que.. os patrões? - Perguntei porque desde o momento em que fui entrevistada para trabalhar como babá de Bernardo, senti que seria tratada como a ralé.

- Sim.. é uma das vantagens de estar aqui. A comida é muito boa e como trabalhamos sem intervalos, acho que eles consideram que é mais rápido dessa forma e também porque eles não permitem que os funcionários entrem na casa com absolutamente nada , somente com o que é extritamente necessário, como documentos e nossos celulares. Mas se eu puder lhe dar um conselho.. posso? - Paula falou.

- Claro. - Respondi.

- Eles dizem que podemos comer o horário que quisermos e no seu caso, que trabalha aqui em cima, onde quiser também, mas sempre prefira comer aqui no quarto de Bernardo e coma rápido.. Eles não gostam de nos ver fazendo outra coisa que não seja trabalhando. - Paula falou baixinho. 

- Entendi. Obrigada pelo conselho, Paula. Eu farei isso. - Falei realmente me sentindo agradecida por ter recebido essas informações.

- Eu já vou trazer o almoço de hoje. Só um momento. - Paula falou já se retirando.

Não tive tempo de agradecer. 

Assim que Paula saiu o silêncio retornou e só foi quebrado porque Bernardo já estava impaciente querendo sua comida. 

Dei o almoço de Bernardo e fiquei impressionada por ele já ter uma certa autonomia em comer algumas coisas sozinho. Pensei que sendo filho de pessoas tão ricas, eles não permitissem que ele fizesse nada sozinho, recebendo tudo, literalmente, na boca.

Uns 5 minutos depois, Paula subiu com um prato de comida. Me deu um sorriso. Eu agradeci e comecei a comer.

Eu estava morrendo de fome. Ainda não tinha comido nada naquele dia. Estava somente com a água que tomei naquela padaria. 

Terminamos de almoçar e eu ajeitei tudo dentro da bandeja da melhor forma que consegui. 

Mesmo com tantos brinquedos no quarto, Bernardo não parecia muito interessado em nenhum deles. E como estava um dia bonito lá fora, resolvi leva-lo para o jardim. Pegar um solzinho iria fazer bem para ele e eu poderia também conhecer um pouco mais da propriedade, já que ainda não tinha tido a oportunidade de fazer isso.

No final das contas, aquela seria também a minha nova "casa". 

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