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Sofia

Não senti dificuldades para carregar Bernardo. Conseguia facilmente carrega-lo até com um braço só. Sei que quando me viram, magra e pequena, deviam ter imaginado que eu não teria forças para carregar nem um único graveto. Mas eu cresci precisando fazer força para carregar sacolas de mercado, botijas de gás e galões de água. Não tinhamos ninguém que fizesse isso para nós e minha mãe sempre teve uma saúde um tanto quanto delicada. Eu sempre me esforcei ao máximo para conseguir ajuda-la e aliviar um pouco o fardo dela.

Eu tinha um irmão mais velho, Júlio, que poderia nos ajudar nesse quesito. infelizmente meu irmão se perdeu para as drogas quando adolescente. Já faziam meses que não o víamos. Quando ele aparecia era atrás de dinheiro, mesmo sabendo que não tínhamos nem para nós. Via como minha mãe sofria pelo filho e como, apesar de tudo, o perdoaria por tudo de ruim que ele já nos tinha feito e sonhava com o dia que ele voltaria para casa livre das drogas.

Interfonei para a copa e pedi o café da manhã de Bernardo. Eu não sabia bem o que falar, mas Jisele estava ao meu lado e acenava com a cabeça como sinal de confirmação. Entendi que estava fazendo o correto.

Enquanto esperávamos, Bernardo parecia ter se encantado comigo. Não sei bem se ele me olhava tanto porque eu era completamente diferente de todos que ele já havia visto, ou se era porque realmente havia gostado de mim. Não conseguimos saber muito sobre o que os bebês pensam ou sentem. Eu o olhava e ele sorria, eu sorria de volta. Que criança linda e perfeita. O abraçei e começei a brincar com ele nos meus braços.

O quarto de Bernardo era enorme. Como todos os cômodos daquele lugar deveriam ser. Um cômodo somente era maior do que a casa que eu tinha morado a minha vida inteira.

Parecia ser um quarto de criança perfeito. Muitos brinquedos e um closet com tantas roupas, que nem se eu colocasse 3 pares de roupas diferentes todos os dias em Bernardo, ele seria capaz de usar tudo aquilo.

Tinham utensílios ali dentro que eu nem sabia que existiam e fazia menos ideia ainda de como se usavam. Mas preferi não perguntar no primeiro dia. Meu foco nesse dia era me conectar com Bernardo. Achei que essa seria a parte difícil, mas foi a mais fácil do meu dia.

Jisele continuava me olhando parada ao lado da porta como se fosse uma estátua. Ela nem se mexia. Algumas vezes me perguntei se ela realmente era humana. Não parecia nem que ela piscava em alguns momentos.

Não demorou muito o café de Bernardo chegou.

Dentro do quarto havia uma mesa para refeições e uma cadeirinha de alimentação de bebê. A auxiliar da copa colocou a bandeja com algumas frutas cortadas, um mingau que eu supus ser de aveia e uma panqueca pequena que não consegui identificar do que era feita, mas tudo parecia muito gostoso.

- Bernardo não come no mesmo local que seu pai e seus avós? - Perguntei de Jisele.

- Os Said não tem tempo para fazer suas refeições juntos. Cada um tem suas responsabilidades e horários. É costume cada um realizar suas refeições no cômodo que eles estiverem. - Jisele falou.

Sentei Bernardo na cadeira de alimentação. E comecei a dar seu café da manhã.

Lembro de ter pensado que esse era realmente um costume muito diferente do meu. Nós sempre fomos pobres, mas sempre fazíamos as refeições juntos. Até mesmo quando só o que tinhamos para comer era arroz ou ovo.

Bernardo comia com bastante gosto. Era uma criança muito inteligente para sua idade. Já falava algumas palavrinhas e já estava começando a tentar andar. O sorriso dele iluminava aquela casa, que mesmo tão grande, parecia tão fria e solitária.

Jisele pareceu entender que eu realmente tinha jeito com criança e viu que Bernardo estava bem a vontade comigo.

- Hoje ele acordou mais tarde que o habitual, mas antes do almoço, ele faz um lanche. Toda a alimentação dele você pode solicitar pelo interfone. E se quiser comer algo durante as refeições dele, você pode solicitar a copa também. Daqui a alguns minutos a faxineira responsável por esse andar vem retirar a bandeja. - Jisele falou e logo em seguida deu as costas e saiu do quarto.

Bernardo ainda parecia estar com um pouco de sono. Quando bocejou, vi que sua gengiva estava bem inchada. Por isso estava tão choroso antes, deveria estar sentindo muitas dores por causa dos dentinhos novos.

Quando ele terminou de comer, eu o retirei da cadeirinha de alimentação e o levei para o banheiro para limpá-lo. Tentei deixa-lo no berço para dormir, mas ele ameaçou chorar. Então me sentei com ele no colo na poltrona de amamentação, que ainda parecia estar intocável. Supus que nunca tivesse sido usada.. comecei a cantar baixinho, olhando nos olhos dele, nos balançando na poltrona.

Nunca tinha sentado em uma poltrona tão confortável. Eu facilmente dormiria ali todos os dias.

"é, amigo, é, o passarinho que vem te acordar e vem te avisar que a noite já passou, que amanheceu uma estrela no jardim brilhou e é o sol, amigo é. Está lá fora só pra lhe lembrar, que o dia que começa um novo amigo é e é uma chance de recomeçar..." Antes que eu terminasse a primeira parte da música, Bernardo dormiu profundamente no meu colo.

Senti uma paz tão grande naquele momento e fiquei me perguntando o porquê de Núbia ter achado impossível ficar naquele lugar. Não nos tratavam como iguais e isso já ficou muito claro desde o inicio, mas fora cuidar de Bernardo, não tinhamos que fazer mais nada. A única parte ruim disso até então, era que eu tinha de ficar longe de minha mãe.

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