Mundo de ficçãoIniciar sessãoWilliam
Milagrosamente Liza disse que ficaria com Bernardo para que eu não me atrasasse para o trabalho. Claro que ela não gostaria que eu me atrasasse, afinal, eu era a garantia de estabilidade financeira, poder e conforto para o resto de nossas vidas. Mas não pude deixar de notar o sorriso torto dela quando pegou Bernardo no colo e sentiu a baba nas mãos dele encostando no rosto dela. Nesses momentos eu gostava menos ainda dela. Eu também não gostava de sentir a baba dele em mim, mas eu não fazia careta por isso. Desci as escadas torcendo para que a nova babá fosse melhor que a anterior e durasse mais tempo. Fosse menos respondona também, porque Liza não aguentava lidar com alguém que não aceita suas críticas constantes. Bernardo não se afeiçoou de verdade a nenhuma também. Por vezes tentava evitar pensar que meu filho se sentia sozinho, mesmo ainda sendo um bebê. Lembrava de mim quando criança e de que tantas foram as vezes que eu me senti sozinho mesmo rodeado de tantas pessoas. Tive somente uma babá, quando era bem novo, que eu sentia que realmente estava ali porque gostava de mim. Chorei muito quando ela foi embora. Eu tinha quase 6 anos de idade quando ela nunca mais voltou. Pai Valetim Said disse que eu era homem e não deveria chorar por nada, principalmente por uma empregada. Mãe Catarina não gostou muito da falta que eu sentia dela. Mas nunca mais me senti tão acolhido quanto aquela mulher fazia com que eu me sentisse. Quando cheguei no pé da escada, ouvi a voz de minha mãe e segui pelo corredor até a sala onde ela estava e foi nesse momento que a vi. A primeira coisa que notei foi, com certeza, a cor de sua pele. A pele dela reluzia em negritude. A pele era lisa, como se ela fosse uma boneca. Ela era toda delicada, nada exagerada. Com certeza era toda natural. Completamente diferente de todas as mulheres que eu estava acostumado a ver no meu dia a dia. A delicadeza dela parecia que gritava e parecia que qualquer movimento brusco poderia machuca-la. Ao mesmo tempo em que me questionava o que ela fazia ali, eu queria vê-la inteira. Não pude deixar de pensar como ela seria sem aquelas roupas que a cobriam. Não percebi que eu quase estava babando. Até que ela olhou para cima e nossos olhos se encontraram.. Os olhos dela eram escuros como a noite, mas tinham um brilho que nem nos olhos mais claros eu conseguia ver. Parecia que existia um mundo dentro daqueles olhos. Sua boca era bem desenhada e os lábios mais grossos, mas ao mesmo tempo delicados, ornavam perfeitamente com o seu rosto, que tinha traços bem marcados, mas que em todos os detalhes demonstravam leveza. Ela me deu um sorriso tímido que logo se transformou em uma expressão de medo. Foi quando a expressão de medo apareceu nela, que eu percebi que estava paralisado à alguns minutos. Ouvi como se estivesse voltando do transe, minha mãe dizer que aquela era a nova babá de Bernardo. Fiquei tão paralisado que nem ao menos vi que dona Jisele estava parada na porta ao meu lado. Me olhando com aqueles olhos felinos e julgadores dela. Vish, aquela mulher sempre me deu medo. Eu rapidamente estendi a minha mão e aquela criatura me olhou como se eu fosse a coisa mais esquisita que ela já havia visto. Recuou como se tivesse medo que eu pudesse eletrocuta-la. Foi então que me lembrei que não era costume nosso apertar as mãos de funcionários. Retirei minha mão rapidamente. E para tentar quebrar o clima esquisito que passou a assombrar aquela sala. Me portei da voz mais máscula e séria que poderia fazer e falei: - Sou o William, pai de Bernardo. Ele está lá em cima com a mãe dele. Espero que ele goste mais de você do que das outras. Boa sorte. Me senti um completo idiota, mas aos poucos fui voltando ao meu eu normal. Como eu poderia achar uma funcionária bonita, principalmente ela, que estava vestida com a pior roupa que eu já tinha visto na vida. Ao mesmo tempo, como se um outro lado do meu cérebro tivesse vida própria. Ela ficava magnifica mesmo naquele vestido de estampa horrorosa. Ela com certeza ficaria mais bonita ainda sem roupa alguma. Quase precisei bater com minhas mãos na minha cabeça para que eu parasse de pensar naquela moça. Eu ia me casar e não poderia me envolver, principalmente com a babá do meu filho. Não que eu fosse o maior exemplo de fidelidade. Afinal, aprendi muito bem com meu pai que um homem precisa de várias mulheres para funções diferentes. Mas ele sempre foi muito cuidadoso para não misturar as coisas da rua, com os assuntos de casa. Meu pai sempre teve sucesso na vida dessa forma, então, eu também teria da mesma maneira. Entrei no meu carro. O único que não tinha motorista, porque se tem algo que sempre gostei de fazer e que não me foi negado, foi dirigir. Minha mãe dizia que eu não precisava passar pelos importúnios do trânsito, mas dirigir era meu hobbie. Principalmente um carro como o meu. Por mais que eu quisesse e tentasse pensar em qualquer outra coisa. Não consegui tirar aquela moça da minha cabeça. Não sabia se quer o seu nome e mesmo tendo acabado de sair de casa, só conseguia pensar se ela ainda estaria lá quando eu voltasse do trabalho. Nem todos os dias eu fazia hora extra e aquele dia, seria com certeza um desses dias.






