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Sofia

Nunca tinha visto um homem tão bonito. A forma como ele se portava era como se ele fosse invencível e intocável. Fiquei com vergonha de encara-lo, mas aqueles olhos claros me pegaram de surpresa. Queria não tê-lo olhado tanto. Será que perceberam? Será que o encarei demais?

Dona Catarina parecia confiar muito em Jisele. Não a questionou quando ela me apresentou e tratou logo de me explicar como seria o meu trabalho e o que eu poderia ou não fazer. Percebi que eles valorizavam bastante o silêncio e quanto menos eu falasse, melhor seria. Me contentaria dizendo somente "sim, senhora" ou fazendo aquele aceno com a cabeça como sinal positivo. Eu não estava ali para fazer amigos. Estava ali para trabalhar e ficou muito claro a forma como eles tratavam seus funcionários. Eu era só mais uma funcionária, mas estaria cuidando da pessoa mais importante e delicada que vivia naquele momento naquela mansão. O bebê Bernardo.

Se algumas das duas perceberam o meu olhar para o senhor William eu não sei, porque não me falaram nada. Dona Catarina saiu andando na frente, Jisele atrás e eu atrás das duas, subindo a escada. Estavavam me levando em direção ao quarto do bebê Bernardo.

- Jisele me informou que você ficará no casebre que temos no nosso terreno. Ele fica ao lado da copa e assim que possível, ela lhe levará até lá. Alguma pergunta até aqui? - Dona Catarina perguntou.

Eu somente fiz que "não" com a cabeça.

Ela me olhou levantando uma das sobrancelhas.

Dona Catarina era uma mulher que já deveria estar na casa dos 50 anos de idade, mas não aparentava em nada ter essa idade. Só vim descobrir a idade real dela tempos depois.

Era uma senhora esbelta, com os cabelos pintados de loiro, nada chamativo, mas muito elegante. Alias, ela parecia ser a elegância em pessoa. A forma como falava e até andava. Seus cabelos eram curtos, bem curtos. Não estava acostumada a ver mulheres com cabelos curtos, mas nela parecia ornar perfeitamente. Suas roupas estavam impecáveis e com certeza eram mais caras do que até eu mesma deveria valer. Usava um conjunto branco com detalhes dourados e jóias douradas. Visivelmente era alguém que se importava muito com a sua aparência.

- Bernardo faz 1 ano daqui a dois meses, exatamente no dia 16 de agosto. E não gostaríamos de trocar novamente de babá, pois precisamos de alguém com quem ele se acostume. Por esssa razão aumentamos consideravelmente o valor do salário e estamos oferecendo outras regalias. Mas tudo isso tem um preço e o preço é que a sua prioridade a partir de hoje deve ser Bernardo. Entendido? - Dona Catarina falou.

Fiquei surpresa com a coincidência que acabara de descobrir. Meu aniversário era exatamente um dia depois do aniversário de Bernardo.

- SIm, senhora. - Respondi. Eu não seria capaz de responder outra coisa. Me senti completamente intimidada por aquela mulher. Eu nunca tive a personalidade muito forte. Sempre fui mais tímida e calada. E desde de que aceitei esse trabalho, entendi que eu deveria estar sempre de cabeça baixa. Precisava manter aquele emprego não importava o que me custaria.

- Olhe, Jisele, até gostei dessa menina. Parece saber bem o lugar de fala dela. - Dona Catarina falou de forma meio irônica.

Eu relevei, é claro.

Jisele somente deu um meio sorriso e fez que sim com a cabeça.

- Você folgará aos domingos, mas se for necessário trabalhar nesse dia, você trabalhará e irá tirar sua folga quando for possível. Vocë morará no casebre, mas aqui não é hotel, não permitimos a entrada de nenhum familiar, amigos ou namorados. Sempre que precisar de alguma orientação, pergunte a Jisele, que ela irá lhe responder.

Fiz que sim com a cabeça.

Do corredor do segundo andar já era possível ouvir uma criança chorando.

- Eu não sei o que esse menino quer! PARA DE CHOR..! - Liza parou de gritar no momento em que viu Dona Catarina entrar.

Dona Catarina não parecia ser muito afeiçoada à Liza. Olhou para ela e deu um sorriso que qualquer pessoa poderia detectar ser falso.

- Seu filho é um bebê Liza e bebês choram. - Falou Dona Catarina que já estava pegando Bernardo no colo, que continuava a chorar.

Liza estava colocando suas roupas e jóias no lugar, pois enquanto ela "tentava" acalmar Bernardo, ela ficou com as roupas meio amassadas e fora do lugar. Ela me olhou de baixo para cima.

Liza era uma mulher bonita, que parecia ser alguns poucos anos mais velha do que eu. Muito bem vestida e muito maquiada para aquele horário da manhã, percebi seu olhar com desdém.

- Quem é essa mulher? - Liza perguntou com uma certa repugnância.

- É a nova babá de Bernardo. Sofia. Ela ainda estará no período de experiência, mas já trabalhou com crianças da idade de Bernardo. - Jisele falou.

Liza soltou um resmungo.

- Você não parece ter experiências com crianças. - Liza falou me rodeando e fazendo eu me sentir como se fosse um animal dentro de uma jaula. - Não parece que vai conseguir carregar meu filho, que é um bebê bem grande para a sua idade. E ele gosta muito de colo.

- Vou fazer o possível para atingir a expectativa, senhora. - Falei em um tom que deveria ter saído alguns tons mais baixo.

- Você não tem que fazer o possível, tem simplesmente que fazer! Se não é melhor nem começar, garota. - Liza falou.

Dona Catarina interrompeu Liza logo em seguida.

- Não vamos querer espantar mais uma babá, não é mesmo, Liza querida? E lembre que quem contrata as babás somos nós.

Liza deu um sorriso para Dona Catarina e fez que sim com a cabeça. Seguiu para o corredor e era possível ouvir os saltos enormes dela descendo as escadas.

Foi possível ouvir Jisele dando um suspiro alto, como se estivesse aliviada que Liza tivesse saído do quarto.

Bernardo era realmente um bebê de 10 meses bem grande para sua idade. Era um bebê lindo e era a cópia de seu pai. Ele continuava choramingando nos braços da avó, mas já estava bem mais calmo do que quando estava com Liza.

- Esse é Bernardo, nosso diamante. Pegue-o. Ele realmente está bem pesado. - Dona Catarina estendeu Bernardo para as minhas mãos.

Já havia um pouco mais de um ano que eu não trabalhava com nenhuma criança. Precisei sair do trabalho de meio período na creche do meu bairro.

Eu gostava muito de estar lá e trabalhar com as crianças. Sempre as amei.

Bernardo me recebeu com um sorriso grande, o que me deixou surpresa. Naquele mundo de branquitude, imaginei que ele fosse estranhar quando me visse. Mas não, ele veio sem receio para o meu colo.

Dona Catarina e Jisele ficaram visivelmente admiradas, mas não disseram nada sobre.

- Ele precisa tomar café. Pode pedir para a copa trazer o café da manhã dele por esse interfone. - Jisele falou apontando para o lado da porta do quarto.

Dona Catarina já estava se retirando pela porta. Me olhou de soslaio e saiu.

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