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Sofia

De um dos carros que estava estacionado nas vagas destinadas àquela padaria, saiu uma senhora muito bem vestida, em uma roupa que parecia ser um conjunto de material muito bom, muito melhor que o material da roupa a qual eu estava usando e isso porque era a minha melhor roupa. De primeira não pensei que fosse a senhora Jisele, pois aquele carro já estava estacionado naquele local quando eu cheguei. Mas era ela. Acredito que essa era a primeira análise que ela fazia. Antes mesmo de entrar no café, ela primeiro esperava a candidata aparecer e se julgasse que poderia ter algum futuro naquela entrevista, ela descia do carro para o encontro marcado.

Jisele era uma senhora que já estava na casa dos seus 60 anos de idade, mas aparentava ter uma saúde muito boa e uma disposição melhor ainda. O seu rosto era sério e sua feição não era amigável, confesso. No momento que eu a vi olhando para mim e analisando todos os detalhes da minha pessoa e das minhas roupas, me senti mínima. Me arrependi de ter ido com o meu vestido de frequentar a igreja, mas era o que melhor eu tinha. Era a roupa que menos estava gasta e era a roupa que eu menos usava. Nunca fui religiosa, mas minha mãe sempre foi uma católica muito fervorosa e eu sempre fazia questão de acompanha-la. Confesso que era um vestido antigo e tinha uma estampa florida de gosto duvidoso, mas era o que o meu dinheiro me permitia comprar em ocasiões extremamente especiais. E ir a igreja com a minha mãe era algo especial, porque a fazia muito bem e eu gostava de fazer a minha mãe se sentir bem. Lembro que comprei esse vestido porque não conseguia mais remendar o vestido antigo e minha mãe fez questão de ir comigo para comprar outro vestido. Como se eu ainda fosse uma menina nova, mas já tinha mais de 22 anos na época. Mesmo assim mamãe quis ir comigo. Nesse tempo ela ainda trabalhava como faxineira e mesmo o salário sendo baixo, sempre que podia ela me presenteava, mesmo eu dizendo que não precisava. Mamãe escolheu aquele vestido para mim e é claro que eu não a deixei pagar inteiro, mesmo que custasse só 30 reais.

Jisele me olhou de cima a baixo, entortou um pouco a boca como se não estivesse muito satisfeita com o que estava vendo, mas se sentou.

Eu tive a infeliz ideia de estender a mão para cumprimenta-la, mas não recebi a mão dela na minha. Fiquei alguns minutos com a mão estendida e com um sorriso de canto no rosto, até finalmente perceber que ela não iria apertar minha mão. Já sabia que se chegasse na entrevista final, eu jamais deveria estender a mão para nenhum dos meus futuros patrões.

- Você parece ter menos idade do que colocou no currículo que me enviaste pelo celular. - Jisele falou, enquanto levantava um dedo e chamava um garçom até a mesa.

Antes que eu pudesse falar obrigada, o garçom apareceu rapidamente ao lado de Jisele perguntando o que ela gostaria.

- Um café preto sem açúcar e uma água com gás! - Jisele falou.

O garçom sorridente acenou com a cabeça e saiu em disparada para repassar o seu pedido no sistema.

- Não temos o costume de contratar funcionários de cor, porque já tivemos problemas com alguns, mas o fato de você ter trabalhado com crianças e ser mais nova que a maioria das candidatas é um diferencial. Mas já vou avisando que você mora muito longe e o ideal era que você estivesse mais perto da casa, caso aconteça algum imprevisto ou emergência, o que acontece com certa frequência. - Jisele falava bem rápido e com um sotaque que eu não consegui identificar de onde vinha.

- Bom dia, senhora Jisele. Infelizmente eu não tenho como alocar outro endereço pois moro com minha mãe e ela precisa...

Antes que eu pudesse terminar de falar, Jisele me interrompeu, dizendo:

- Sofia, não é? Eu não tenho tempo e nem interesse de saber da sua vida pessoal. Só preciso saber se você está disponivel para trabalhar e se aceitará, já que não possui condições de morar em um local mais próximo, fixar residência na casa dos Said enquanto seus serviços forem necessários para a família. A casa da família conta com uma pequena casa de hóspedes ao lado da mansão principal. Ela será sua pelo tempo em que trabalhar para os Said.

Me senti tentada a me levantar no momento em que Jisele falou que eu teria que morar longe de minha mãe. Como eu cuidaria dela? Nunca havia ficado mais que alguns poucos dias longe dela. E principalmente agora, no momento que ela mais precisa de mim, como eu poderia deixa-la sozinha. Núbia não tinha me falado o valor do salário, só havia dito que era bom.

Jisele deve ter percebido o desespero no meu olhar e os olhos dela reviraram.

- É só porque eu achei você bem comportada que vou lhe dizer antes que você pergunte. Seu trabalho será de carteira assinada, você terá todos os direitos trabalhistas, férias e afins. Terá plano de saúde incluso para você e para seus dependentes. Além de ter disponível uma casa, mesmo que pequena só para você. E o salário bruto é de 10 mil reais. Mas já vou avisando que se você for dessas que gosta de levar homem para casa, lá não será esse lugar. Não serão aceitos terceiros nas dependências da casa dos Said. - Jisele falou como uma metralhadora.

No momento que eu ouvi Jisele falar o valor do salário eu fiquei tão abismada que minha boca quase ficou totalmente aberta. Nossa, aquela mulher devia ter me achado deprimente. Eu nunca havia visto e muito menos tocado nem na metada daquela quantidade de dinheiro. Fora o fato de ter disponível plano de saúde. Nunca tive na vida e ainda teria para minha mãe. Com o dinheiro do salário eu poderia pagar a Núbia para tomar conta de minha mãe. Ia poder pagar todas as contas da casa e ainda poderia comprar comidas boas para que minha mãe e meu irmãozinho pudessem se alimentar.

Não tive muito o que pensar. Mesmo morando na casa dos Said, eu poderia sustentar minha família.

Vendo a impaciência da Jisele, eu respondi:

- Aceito. Quando começo?

- Agora. - Jisele falou já se levantando da mesa.

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