10

Sofia

Saí do quarto com Bernardo no colo e não podia ouvir absolutamente nada nesse andar. Segui para a escada e desci. Era tanto o silêncio que eu tinha medo até de respirar alto.

Eu não sabia qual era o caminho que tinha que fazer para ir para o jardim que ficava atrás da mansão. Mas não tardaria a descobrir.

Assim que coloquei meus pés no primeiro andar, ouvi uma voz vindo do lado da escada:

- Onde você pensa que vai? - Jisele falou, parecendo estar camuflada no meio das tantas estátuas que haviam ali. Imaginei que deveriam ser muito caras. Pensava que esse tipo de coisa só existia em museus.

Bernardo também se assustou e ameaçou chorar, mas eu logo o acalmei. Assim que ele viu que era Jisele, ele começou a sorrir para ela também. Com certeza se assustou com a repentina voz que apareceu em um momento que não esperava. Mas ele não estranharia Jisele. Ele a via todos os dias desde que havia nascido. 

No susto eu acabei gaguejando um pouco para falar. 

- Vamos, menina, eu não mordo. - Jisele falou.

Eu achei que ela era bem capaz de morder sim.

- Eu.. é.. Bernardo cochilou e assim que acordou eu dei o seu almoço. E estávamos brincando, mas ele parecia um pouco inquieto. Achei que ele poderia se animar indo dar um passeio pelo jardim. Começou a fazer um dia tão bonito lá fora após a chuva..

Jisele me deu aquela olhada levantando uma sobrancelha só e disse:

- Verdade. Um pouco de sol nunca matou ninguém. - Ela falou seguindo em direção para um dos corredos laterais à escada e eu entendi que deveria segui-la.

Haviam muitas janelas naquela casa, mas não entrava luz natural. A maioria delas estava completamente fechada pelas grandes cortinas e algumas outras ficavam entreabertas.. mais fechadas do que abertas.

Pelo corredor em que fomos seguindo, pude ver a copa. Vi minha nova colega de trabalho no seu posto de trabalho original e ela estava tão concentrada cortando algum legume, que não pareceu ouvir quando passamos na frente da cozinha. 

No corredor contrário, a frente da cozinha, ficava uma linda e magnífica sala de jantar. Tinha uma mesa enorme e muitas cadeiras. Parecia tão vazia.. acho que ainda esperava por um dia conseguir ver todas as cadeiras da mesa ocupadas.

Nas paredes haviam muitos quadros. Eu supus que fossem de artistas famosos. Estranhei o fato de não ter visto uma foto se quer de família entre eles. Apenas quando fomos chegando próximo ao final do corredor, onde ambos os corredores se encontravam e uma luz forte começava a invadir aquela parte da casa, foi que eu vi em uma mesa de canto, algumas fotos em pequenos porta-retratos. A maior das fotos era de um senhor, que na foto, parecia ter uns 50 e poucos anos de idade, com um largo sorriso na boca. Pela forma como estava vestido era perceptível que era alguém bem importante. Ele estava com um dos braços por cima do ombro de um rapaz, que parecia muito com ele mesmo, mas talvez uns 20 ou 25 anos mais novo do que ele. Pareciam ser a cópia um do outro. 

Por um momento estranhei aquela foto, porque nenhum dos dois parecia em nada com o pai de Bernardo e nem mesmo com a senhora Catarina. 

Os dois eram brancos, mas tinham os cabelos bem pretos, quase parecendo que eram pintados, e também parecia ser bem mais altos e esguios que o senhor William.

Em outro porta retrato, bem menor que esse, que estava ao lado, identifiquei o senhor William e a senhora Catarina, abraçados, e ao lado deles, o senhor e o rapaz da foto, e um outro rapaz que parecia ter a mesma idade do outro. Parecia até uma foto ensaiada. As poses, as expressões, o ambiente.. Entendi que deveria ser a família Said. 

Em um quadro ao lado, maior do que esse da família, mas um pouco menor do que o primeiro, havia uma foto de Bernardo. Era uma foto inteira somente dele e haviam outros porta retratos menores compondo aquela mesa, e todas as outras fotos, sem exceção, eram de Bernardo. 

Não percebi que havia parado no meio do caminho para olhar aquelas fotos. Jisele notou e falou mesmo que eu não houvesse perguntado:

- A família Said não é muito adepta a fotografias, mas abriram uma exceção para Bernardo. Muitos anos sem nenhum novo integrante direto da família, e as novas tecnologias, os animaram para fazer os ensaios fotográficos mensais. 

Até me assustei com a quantidade de palavras que saíram expontaneamente da boca de Jisele. Talvez ela tivesse aquela pose de durona pelo trabalho que ela tinha de exercer, mas talvez ela fosse um ser humano normal. 

- Muito bonita.. as fotos. Esse aqui é o esposo de dona Catarina? - Perguntei, apontando com a cabeça para o porta retrato grande.

- Sim, esse é o senhor Valentim e ao lado dele é Benício, um dos caçulas da família. - Falou Jisele.

- Um dos..? - Perguntei.

- Sim, este outro aqui é Hugo, seu irmão gêmeo. - Jisele falou.

- São bem diferentes do senhor William, não é? - Disse, mas logo em seguida me arrependi de ter falado alguma coisa, porque quando falei o nome do senhor William, saiu de uma forma que eu acho que não deveria ter saído.

Jisele demorou para me responder alguns minutos a mais e totalmente diferente da forma como estava falando antes, se resumiu a falar somente:

- Sim. - E abriu a porta do jardim.

Bom, não seria no primeiro dia naquela casa que eu iria descobrir tudo o que acontecia ali dentro, o que incluia, saber o porque do humor de Jisele mudar de forma tão repentina. 

Quando aquelas duas grandes portas de vidro se abriram, era possível sentir o cheiro de flores, ouvir o som dos passarinhos e até o som de uma corrente de água. Se eu havia achado todo aquele lugar enorme na parte da frente, a parte de trás conseguia ser maior ainda. Não poderia chamar aquilo de jardim. Era enorme, parecia ter um bosque ali dentro. 

Fiquei abismada e ficou bem claro no meu rosto.

Bernardo parecia bem animado e começou até a bater palminha quando saímos. 

Parece que eu tinha tirado um peso do meu peito quando saí por aquela porta. Sentir o calor do sol na minha pele e o cheiro de grama verde, ouvir sons, me aliviaram o peso de estar dentro daquela casa.

Jisele veio nos acompanhando conforme eu olhava tudo como se fosse uma criança. 

Andando alguns poucos metros era possível ver uma piscina enorme, que tinha até um bar dentro dela. E próximo da piscina havia um parquinho, que eu acreditei ter sido feito todo somente para Bernardo, porque parecia que todos aqueles brinquedos haviam saído da loja no mesmo dia. Impecável.

Em um dos bancos, ao lado da piscina, vi um rapaz fumando seu cigarro, olhando para seu celular.

Era Benício. E ele não parecia ter envelhecido um só dia desde aquela foto naquele porta retrato.  

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