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William

Tentava terminar de me arrumar enquanto ao mesmo tempo tentava dar atenção para Bernardo. O que era uma tarefa quase impossível.

Aqueles dias sem uma babá com ele estavam se tornando cada vez mais difíceis. Ninguém queria ficar naquele emprego e eu sabia o porquê. Liza não era uma mulher nada fácil e queria que as funcionárias fossem como cachorros adestrados. Muito bonita e elegante, mas só enquanto estava de boca fechada! Ao mesmo tempo que amava meu filho, sentia que poderia ter feito uma escolha melhor para quem fosse a mãe dele. E tinham tantas que pareciam ser mais fáceis...

Mas enfim, agora já era e por mais que eu tente adiar esse casamento, parece que ele vai sair mesmo sem ser a minha vontade. Pelo menos eu não preciso escolher nada, já que minha querida mãe Catarina, minha nada querida sogra Bianca e minha noiva Liza, fazem questão de escolher todos os mínimos detalhes desse enorme casamento.

Liza fala tanto que nunca percebeu que eu não suporto festas e só as frequento porque é o meu papel. Que odeio a idéia de ter um casamento enorme. Mas faço pelo futuro de nossa família. Ainda bem que engravidei uma herdeira também. Seremos todos de Pedigree, como meu pai costuma falar.

Me olhando no espelho fico feliz por ainda não ter a aparência de ser um pai. Nunca poderia me descuidar. Minha aparência é a cara dos negócios de nossa família. E como o filho mais velho, sou o primeiro herdeiro de meu pai. Valetim Said, filho de Gustav Said. Donos da maior petrolífera do nosso país e de mais várias petrolíferas espalhadas pelo mundo. No futuro será meu filho que governará tudo isso.

Amo esse menino, mas porque baba tanto..!?

- William, querido, você já está atrasado para o trabalho, não? - Liza, com aquela voz aguda e sempre escandalosa, veio me dar o seu bom dia.

Mesmo não morando na mesma casa, pois não concordei que ela se mudasse antes do casamento, ela passa mais tempo aqui do que eu mesmo.

Por questões pessoais ela sempre preferiu que Bernardo morasse integralmente conosco, algo que sempre me agradou, porque sempre quis ter meu filho por perto, mesmo que eu passasse a maior parte do dia trabalhando, sei que quando voltasse para casa, iria encontra-lo.

Liza também nunca quis amamentar, porque os seus preciosos seios siliconizados não poderiam dar a quantidade de leite necessária para a criança e ela também não gostaria de ter que refazer mais uma cirurgia plástica. Não tenho ideia do motivo que levou Liza a querer ser mãe, porque depois que me fez uma surpresa, como se fossêmos namorados de longas datas, para me contar que estava grávida. Tudo o que ela fazia era reclamar de como sua barriga estava crescendo e acabava fazendo tantos procedimentos estéticos durante a gestação que temi pela vida de meu filho.

Confesso que fiquei apavorado quando ela me disse, com aquela caixinha minima de sapato de criança, cheia de frufru, que "nós estávamos grávidos". Como podiam 3 saídas terem ocasionado uma gravidez não desejada.

É claro que eu sei o que aconteceu. E sei exatamente a noite que aconteceu, porque eu nunca sou descuidado. Não com isso. Mas Liza me pegou em um dia que a reunião não tinha sido fácil no trabalho. Chegou com aquela voz manhosa, o vestido colado no corpo, acentuando seu decote que sempre está bem avantajado. Levando minha cerveja preferida e me fazendo um agrado ali na minha sala mesmo. Confiei na palavra dela sobre o anticoncepcional. Mas não vou omitir a minha culpa. Fui tão irresponsável quanto ela.

Não me senti conectado com o bebê durante a gravidez. Não conseguia me conectar nem com a mãe que estava na minha frente, quem dirá com a criança que eu nem conseguia ver. Mas isso foi somente até Bernardo nascer.

Quando peguei meu filho no colo, foi a primeira vez na minha vida que parecia que o tempo tinha parado para mim. Não escutava mais nada que não fosse ele. E mesmo ele não tendo escutado minha voz tantas vezes durante a gravidez, parece que ele reconheceu minha voz instantâneamente. Ele não parece ter gostado tanto da voz da Liza, mas isso é realmente algo muito difícil de gostar nela, mas quando ouviu a minha, ele parou de chorar.

Minha querida mãe Catarina disse que eu não precisava ficar o tempo inteiro com o bebê, que meu papel como pai era somente prover. E eu sei, fui criado para isso. Mas não via em Liza uma mãe muito protetora. Ela estava mais preocupada em permitir que as esteticistas entrassem no apartamento do hospital, para que ela pudesse "voltar ao normal", como ela mesma dizia. E eu não queria ter deixado meu filho tão pequeno já nas mãos de babás. Mas isso não era algo que eu devia alimentar muito na minha cabeça. Não foi assim que fui criado. Meu pai sempre foi um grande homem e eu sempre o admirei muito, apesar de nunca ter passado tanto tempo com ele. Sempre entendi que a prioridade de um homem deveria ser, ter uma mulher obediente dentro de casa, filhos para o futuro da família, trazer quanto mais dinheiro fosse possível, para que a vida continuasse a ser confortável e manter o nome da família como um dos mais importantes na sociedade.

Nunca me achei o melhor pai do mundo. Por vezes sei que falho na questão da presença, mas preciso continuar a fazer o papel que fui criado para fazer. Preciso continuar o legado da minha família.

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