Mundo de ficçãoIniciar sessãoNão dormi depois disso, claro que não.
Fiquei na cama com os olhos no teto e aquela frase girando dentro do peito como uma roupa na máquina que não para: quer te silenciar. Quer te silenciar. Quer te silenciar.
Me recusei a acreditar. Organizei as razões uma por uma, com a disciplina mental que meu pai havia me ensinado para qualquer problema que precisasse ser resolvido: Donovan era um fugitivo com arma na cintura que me havia sequestrado do meu próprio noivado, e era óbvio que ele diria qualquer coisa para me fazer duvidar do meu pai, para me deixar dependente e confusa e sem vontade de fugir de novo. Era uma tática clássica de manipulação, eu havia visto documentários sobre isso.
Mas, então, havia o rádio AM e a voz pastosa do locutor anunciando que eu havia viajado por motivos pessoais.
Meu pai tinha o número direto de todo delegado do estado. Meu pai tinha segurança particular, contatos no governo federal, a capacidade de travar um aeroporto com um telefonema se precisasse. Se ele quisesse me encontrar em seis horas, me encontraria. Se ele quisesse acionar a polícia, a polícia estaria acionada. Se ele quisesse transformar o meu desaparecimento no maior escândalo do ano, o escândalo estaria nas manchetes da manhã.
E ele havia ligado para a assessoria de imprensa.
Fiquei repassando isso até o sol entrar pela fresta da veneziana, e junto com o sol vieram outras memórias que eu havia guardado sem perceber que estava guardando, o tipo de coisa que a gente arquiva como irrelevante na época e só recupera quando alguma coisa muda o ângulo de onde você está olhando.
O Sebastião, por exemplo. Vinte anos trabalhando na mansão, o homem que me ensinou a montar em bicicleta e que fazia brigadeiro toda sexta-feira, e numa quinta-feira sumiu depois de uma ligação que meu pai atendeu na varanda e encerrou abruptamente quando eu me aproximei. Eu tinha treze anos e meu pai disse que ele havia pedido demissão, e eu aceitei sem questionar porque meu pai era a régua de verdade do meu mundo e as réguas não mentem.
A pasta de documentos na gaveta do escritório, que eu havia pego sem querer procurando uma caneta, e que meu pai havia retirado das minhas mãos com uma calma tão absoluta que até hoje me arrepiava, a calma de quem pratica o controle como exercício diário.
As ligações encerradas quando eu entrava na sala. Sem pressa, sem desculpas, com um método que era só dele.
Às oito da manhã levantei e fui até a varanda.
Donovan estava lá com um copo de café, de costas para a porta, olhando o pátio seco com aquela quietude que eu havia aprendido a reconhecer como o estado natural dele, não ausência de pensamento, mas pensamento que não precisa de palavras para existir. Não se virou quando eu saí, mas eu sabia que havia ouvido.
"Me conta," eu disse.
Ele ficou quieto por um momento que me fez pensar que ia recusar. Então foi até a cadeira e sentou, e colocou o copo na madeira da varanda com uma deliberação que parecia a de alguém que está escolhendo as palavras antes de abrir a boca.
"Seu pai comprou terras no interior do Piauí há doze anos." A voz saiu diferente do de sempre, mais devagar, sem a dureza. Como quem repete algo que organizou durante tempo demais. "Não comprou, tomou. Com documentos falsificados, com pressão sobre cartórios, com juízes que ele tinha na mão. As famílias foram forçadas a ir embora. A minha foi uma delas."
Fiquei encostada na parede da varanda olhando para o pátio seco enquanto ele falava, sem acredita re, ao mesmo tempo, achando aquilo muito possível.
"Meu pai tentou contestar na justiça," ele continuou. "Reuniu documentos, contratou um advogado, foi atrás de tudo que podia. E então alguém plantou provas, um incêndio criminoso, duas pessoas mortas, e o nome nos papéis era o meu."
"Você estava lá?"
"Não importa onde eu estava." Ele me olhou de frente pela primeira vez desde que eu havia saído. "Importa o que os documentos diziam. E os documentos diziam que eu havia ateado fogo no balcão. Então, eu fugi."
Eu abri a boca, tentei encaixar aquilo na imagem que eu tinha do meu pai, o homem de terno branco que me ensinava a jogar xadrez aos domingos, que aparecia em fotos de campanha abraçado a crianças de escolas públicas, que era tratado por todo mundo como sinônimo de seriedade e de palavra.
"Eu não acredito em você," eu disse. Porque precisava dizer aquilo em voz alta, precisava ouvir saindo da minha própria boca.
"Eu sei," ele disse, sem raiva, sem surpresa. "Mas você também não acredita mais completamente no seu pai. Senão você não estaria com essa cara agora."
Não respondi. Porque ele não estava errado, e as duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo, e aquilo era o que me deixava mais desconfortável.
À tarde, o céu ficou verde do jeito específico do interior antes de tempestade, aquele verde que não existe em nenhuma cidade grande e que os mais velhos dizem que é o sinal de que a chuva vai ser de verdade. Donovan foi buscar baldes para a goteira no telhado, e eu fechei as venezianas enquanto o vento dobrava as árvores do cerrado numa curva lenta e inevitável.
A energia foi às seis. Uma piscada da lâmpada e depois escuridão total.
Ele achou duas velas grossas na gaveta da cozinha e as colocou na mesa da sala, acendendo com um isqueiro de metal que abriu e fechou com o mesmo gesto automático do chapéu na entrada, os gestos de um homem que havia vivido naquele lugar tempo suficiente para ter rituais. A chuva batia pesado no telhado num barulho contínuo, e o trovão vinha em intervalos curtos, e a luz das velas fazia as sombras na parede de reboco velho se moverem como coisas vivas.
Sentamos dos dois lados da mesa. Tinha pão, tinha carne seca que ele havia preparado antes da chuva chegar, tinha café que ele fez no fogão a gás quando a energia foi. Comemos sem falar muito, e a chuva preencheu o silêncio de uma forma que era diferente dos dois dias anteriores, não o silêncio tenso de inimigos medindo distância, mas algo mais próximo de trégua, o silêncio de duas pessoas que ainda não decidiram o que são uma para a outra.
"Se eu tivesse ficado no mato essa madrugada," eu disse, depois de um tempo. "Se os homens do meu pai tivessem me encontrado antes de você."
Donovan esperou, o pão caindo da mão de volta à superfície da mesa.
"O que eles fariam?"
"Depende do que seu pai precisasse que acontecesse."
Fiquei com aquilo por um momento. O trovão veio mais perto, sacudindo as paredes finas do rancho, e a vela entre nós bamboleou antes de se firmar.
"Você seria capaz de me machucar?" perguntei. "De verdade, se fosse necessário."
Ele levantou os olhos da mesa e a luz de vela estava na face dele de baixo para cima, aquela luz que faz qualquer rosto parecer mais honesto do que de dia, sem sombra nos lugares certos para esconder nada.
"Você é a única Monteverde que eu não posso tocar," ele disse.
O trovão chegou logo depois, longo e baixo, sacudindo o telhado.
E eu ouvi a minha própria voz saindo antes de qualquer decisão consciente, antes que a parte de mim que havia aprendido coluna reta e sorriso certo tivesse a chance de intervir.
"Eu quero que toque."







