A Primeira Fuga

Às três da manhã, tomei a pior decisão da minha vida, que era tecnicamente a segunda pior, porque a primeira havia sido sair para o jardim da festa sem avisar ninguém.

Fiquei deitada na cama por horas, olhando para o teto de madeira que rangia com o vento, calculando. Donovan havia dormido, e a porta do quarto dele estava fechada com silêncio lá dentro. A tranca da minha porta era simples, de girar para abrir, o que ele havia calculado errado ao deixar a chave do lado de fora, mas não havia calculado errado no resto: sem celular, sem chaves de carro, sem dinheiro, sem nada.

Mas, tinha uma estrada lá fora. E onde há estrada, há carros. E onde há carros, há pessoas. E pessoas eram o que eu precisava. Me levantei devagar, calquei as sandálias velhas de borracha que havia achado num canto do quarto, dois números maiores que o meu pé, e fui pela sala no escuro prestando atenção em cada tábua do assoalho.

Do lado de fora, o frio seco da madrugada do interior chegou sem aviso, e o céu estava cheio de estrelas de um jeito que me fez parar por dois segundos involuntários, porque em São Paulo você se esquece completamente que estrelas existem. O cerrado à frente era uma massa escura com a lua cortando pelas copas, e eu calculei: sol havia nascido à minha esquerda na viagem, então a estrada ficava à direita, uns duzentos metros no máximo.

Comecei a andar. E o cerrado à noite não é nada parecido com o cerrado de dia, que da varanda do rancho parecia apenas árvores e arbustos razoavelmente arrumados. À noite era um labirinto de galhos em ângulos impossíveis, raízes fora do lugar e arbustos com espinhos que as sandálias velhas não protegiam em nada. Depois de quinze minutos eu estava numa clareira que eu não havia planejado, com o joelho machucado de quando havia tropeçado numa raiz, sem saber se havia virado à direita ou à esquerda no ponto em que o caminho havia se dividido.

Foi quando ouvi as vozes.

Duas, masculinas, baixas, a uns vinte metros na minha frente. Parei completamente. Uma delas disse um número, placa ou coordenada, eu não soube distinguir, e a outra respondeu algo curto e afirmativo. Não era conversa de pessoas que estavam por acaso no cerrado de madrugada. Era conversa de trabalho noturno do tipo que prefere não ter testemunhas.

Dei um passo para trás.

A folha seca embaixo da minha sandália fez um estalo que pareceu enorme no silêncio.

As vozes pararam ao mesmo tempo.

Ouvi passos se organizando na minha direção e uma lanterna varreu entre as árvores a uns dez metros, projetando sombras compridas e finas por todo lado. Fiquei imóvel como o mato à minha volta e segurei a respiração.

Então, uma mão fechou no meu braço de um jeito que não era violento e ainda assim não me deixou nenhuma opção, e Donovan estava do meu lado, surgido do nada, me puxando para trás com passos que não faziam barulho nenhum no mesmo mato onde eu havia feito tanto. Ele sabia onde pisar. Sabia a topografia daquele lugar de um jeito que não é possível aprender em dois dias.

Me guiou de volta ao rancho sem soltar o braço, e na varanda finalmente me soltou.

Nos olhamos. A lua estava cheia e clara, e eu vi o rosto dele de uma forma que não havia conseguido antes, e o que estava lá não era a raiva que eu esperava, não era o cálculo frio de carcereiro recuperando a fugitiva. Era uma tensão nos ombros que parecia próxima demais do alívio para ser outra coisa.

Como se ele tivesse ficado com medo de chegar tarde.

"Quem são eles?" perguntei.

"Dorme."

"Donovan." Eu havia descoberto que usar o nome dele criava uma fresta. "Quem são esses homens no mato?"

Ele olhou para as árvores escuras por um momento, como se estivesse decidindo quanto me dar. Então me olhou de volta.

"Trabalham pro seu pai."

Eu processei a informação. "Meu pai mandou homens para me resgatar."

Donovan ficou quieto por um segundo que durou mais do que deveria.

"Seu pai não quer te resgatar, Isadora." Era a primeira vez que ele usava meu nome, e saiu diferente do que eu havia imaginado, sem ironia, quase com cuidado. "Quer te silenciar."

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