Mundo de ficçãoIniciar sessãoO rancho não tinha nome na porteira, o que já dizia muita coisa.
Tinha a porteira em si, de ferro enferrujado com uma corrente nova que não combinava em nada com o resto, como um curativo sobre algo que não queria ser visto. Além dela, um caminho de terra compactada ladeado por árvores tortas, e no fundo uma construção baixa de telhado colonial com varanda de madeira descascada que parecia cansada de existir.
Eu olhei para aquilo tudo e senti meu coração afundar de um jeito muito silencioso.
Donovan desceu para abrir, e eu aproveitei para checar o inventário do que tinha à disposição: nada. Sem celular, sem bolsa, sem nada. Até meu vestido não tinha bolso, porque vestidos de Valentino são criados partindo do princípio de que você tem uma assistente para carregar as suas coisas, e eu havia chegado àquela noite com assistente e havia saído sem.
Ele cortou a braçadeira dos meus pulsos com um canivete antes de me deixar descer, e eu massageei os pulsos sem agradecer porque não havia nada que merecesse agradecimento.
"Tem um banheiro lá dentro," ele disse, pegando a mochila do banco do passageiro. "Tem água fresca e tem comida básica."
Entrei atrás dele.
A sala era pequena, escura, com venezianas fechadas contra o calor do meio-dia, e cheirava a madeira velha e a um abandono específico que eu não havia cheirado antes. Um sofá puído que já havia sido marrom e agora era uma cor sem nome. Uma mesa de madeira com duas cadeiras. Uma prateleira com latas de conserva, alguns livros velhos e uma lamparina.
No meu apartamento em São Paulo eu tinha um closet maior do que aquela sala inteira, com iluminação embutida e divisórias de acrílico para os acessórios. Não era arrogância, era só um fato.
"Regras," Donovan disse, colocando a mochila numa das cadeiras. "Você não pode fugir. Você não vai tentar me enganar. Você não faz perguntas."
Eu olhei para ele. Olhei para a sala. Olhei para as minhas unhas que estavam começando a lascar e que eu havia feito na quinta-feira passada num salão que cobrava trezentos reais pela manutenção.
"O banheiro tem shampoo?" perguntei.
Uma pausa. "Tem sabão em barra."
"Sabão em barra." Repeti isso devagar, para garantir que havia entendido. "Para o cabelo."
"Para tudo."
Eu usei sabão em barra no cabelo pela última vez quando tinha seis anos e fui acampar com minha turma da escola, e minha mãe ainda estava viva para passar três horas desembaraçando o resultado depois. Aquilo havia deixado um trauma que eu carregava comigo até hoje.
"Certo," eu disse. "Entendi as regras."
Ele me olhou por um momento, aquele olhar que não dava abertura, mas que dessa vez tinha alguma coisa diferente, quase como se ele estivesse impedindo algo de aparecer na superfície. Então foi guardar as coisas da mochila de costas para mim.
Comecei a circular pelo espaço com aquela calma de quem está apenas curioso, não de quem está montando estratégia nenhuma. Sala, cozinha pequena com fogão a gás de dois boqueiros, corredor com três portas. Testei cada uma: banheiro com chuveiro elétrico e um sabão de barra cor de rosa que me encheu de desânimo, dois quartos.
A última porta estava apenas encostada.
Empurrei devagar.
Era um quarto menor, cama de solteiro com colcha militar dobrada no canto, um baú de madeira fechado, e numa prateleira sobre a cama, entre livros velhos e uma lanterna de pilha, um porta-retrato virado para frente.
Peguei.
A foto era antiga, coloração de laboratório dos anos noventa, levemente desbotada nas bordas. Uma mulher de cabelos escuros sorria para a câmera com uma leveza que parecia espontânea, genuína, o tipo de sorriso que você não pratica. No colo dela, uma criança de uns oito anos com o cabelo espetado e olhos sérios demais para a idade, usando uma camiseta com um cavalo desenhado na frente.
Eu reconheci os olhos na hora.
"Larga isso."
Me virei. Donovan estava no vão da porta, e pela primeira vez desde o jardim da mansão ele tinha uma expressão que eu conseguia ler de verdade, não o controle fechado de antes. Era algo tenso, branco, que existia antes da raiva escolher o que ia ser.
Coloquei o porta-retrato na prateleira com cuidado, sem tirar os olhos dele.
"Quem é ela?" perguntei em voz baixa.
Ele entrou no quarto, pegou o porta-retrato e virou para a parede sem responder, e ficamos a menos de um metro um do outro com o calor da tarde entre nós como uma terceira pessoa.
"Sai do meu quarto," ele disse.
Saí. Mas fui pensando na mulher de cabelos escuros e na criança de olhos sérios, e em como aquele rancho sem nome, com a prateleira de latas e a madeira descascada, não parecia a base de operações de nenhum criminoso que eu havia visto em filme ou série.
Parecia um lugar de onde alguém havia sido arrancado.







