4: Ida no Shopping

Eu ainda estava sentada na cama, encarando o vazio, quando a porta se abriu sem aviso.

— Adivinha? — Lilian entrou saltitante, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e um sorriso que parecia brilhar mais que a luz da manhã. Ela balançava um cartão preto entre os dedos como se fosse a chave para o paraíso.

— O quê? — perguntei, minha voz saindo rouca e sem vida.

— Dominic acabou de me dar o cartão dele para nós fazermos compras! Ele disse que você precisa de um guarda-roupa completo. "Nada de trapos" — foram as palavras exatas dele.

Senti um misto de náusea e um lampejo de esperança.

— Espera… nós podemos sair? De verdade? — Meus pés tocaram o chão frio e, pela primeira vez em 24 horas, meus pulmões pareceram buscar ar com vontade.

Lilian soltou uma risadinha, mas seus olhos denunciaram a realidade logo em seguida.

— Claro! Com alguns seguranças nos controlando até o pescoço, mas podemos sair sim. Vamos, Luísa! É melhor do que mofar entre essas quatro paredes. Use isso como uma pequena vitória.

Vesti a melhor roupa que Lilian havia me emprestado no dia anterior e descemos. No hall de entrada, a "liberdade" mostrou sua verdadeira face. Gonçalo estava parado junto à porta principal, ajustando o paletó escuro. O volume da arma no coldre era evidente. Ao lado dele, outros dois homens de feições fechadas montavam guarda.

— Sem paradas não autorizadas, Lilian. Direto para o shopping, direto para as lojas da lista e direto para casa — a voz de Gonçalo era um trovão seco. — Entendido, Luísa?

Eu não respondi. Apenas caminhei em direção ao carro blindado, sentindo o peso dos olhares sobre mim. Eu não era uma cliente indo às compras; era uma carga valiosa sendo escoltada.

O shopping de luxo era um universo paralelo. O ar-condicionado gelado, o cheiro de perfumes caros e o som suave de música ambiente tentavam me convencer de que o mundo ainda era normal. Mas cada vez que eu olhava para trás, via Gonçalo a dois metros de distância, os olhos varrendo o ambiente como um predador.

Lilian me arrastava de loja em loja. Gucci, Prada, Chanel. Pilhas de vestidos de seda, conjuntos de alfaiataria e lingeries que custavam mais do que meu pai ganhou em um ano inteiro de trabalho.

— Este vermelho vai ficar perfeito em você. Dominic gosta de cores fortes — Lilian comentou, colocando um vestido de cetim contra o meu corpo.

— Eu não me importo com o que ele gosta — rebati, mas minha voz falhou.

Cada vez que o cartão preto passava pela máquina, eu sentia uma parte de mim sumindo. Eu estava sendo vestida, embalada e etiquetada. Dominic estava comprando a moldura da sua nova "propriedade".

No meio da tarde, a opressão me venceu.

— Preciso ir ao banheiro — anunciei para Lilian, mas olhando para Gonçalo.

— Eu acompanho vocês até a porta — disse Gonçalo, inflexível.

Dentro do banheiro luxuoso, procurei desesperadamente por uma saída. Uma janela, uma porta de serviço… qualquer coisa. Mas só havia mármore e espelhos que refletiam uma garota pálida e assustada. Quando saí, Gonçalo me aguardava com uma expressão de quem sabia exatamente o que eu estava procurando.

— O perímetro é meu, Luísa. Não tente — ele sussurrou, apenas para eu ouvir.

Voltamos para a mansão ao entardecer. Dezenas de sacolas foram carregadas pelos seguranças para o meu quarto. Eu estava exausta, os pés latejando e a alma ainda mais estilhaçada do que quando saí.

Subi as escadas devagar e parei abruptamente. Dominic estava parado no topo da escadaria, com um copo de cristal na mão e a camisa levemente aberta no peito. Ele observava a procissão de sacolas com um olhar cínico.

Quando passei por ele, ele segurou meu braço. Não com força, mas com uma possessividade que me fez arrepiar.

— Espero que tenha comprado algo que valha o preço que eu paguei por você, Luísa — ele disse, a voz vibrando perto do meu ouvido.

— O seu dinheiro não pode comprar o que você realmente quer de mim, Dominic — respondi, encarando aqueles olhos cinza.

Ele deu um sorriso de canto, aquele sorriso que prometia tempestades.

— Veremos. Use o vestido preto para o jantar. Quero ver se o meu investimento tem o caimento correto.

Ele se afastou, deixando-me ali, no meio do corredor.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App