15: Jantar de noivado

Capítulo 15

Os dias seguintes ao anúncio do noivado foram um borrão de olhares calculistas e sussurros nas costas. A mansão, que antes parecia um mausoléu vazio, agora fervilhava com capangas de terno, contadores curvados sobre laptops e homens de olhos duros que me mediam como se eu fosse um cavalo sendo avaliado em um leilão.

Dominic cumpriu a palavra dele. Não me trancava mais no quarto. Não limitava meus passos. Lilian e eu passeávamos pelos jardins, tomávamos café na varanda dos fundos, e eu até conseguia ler na biblioteca sem sentir que alguém ia pular de trás de uma estante para me estrangular.

Mas a liberdade tinha um preço.

— Luísa, a senhora precisa ficar atenta à postura — disse Valesca, a governanta, enquanto me ajudava a vestir um dos muitos vestidos que Dominic havia comprado. Era azul-marinho, discreto, mas cortado sob medida para abraçar cada curva. — Futura Donna Rossi não anda com os ombros caídos.

— Eu não pedi para ser futura nada — murmurei, mas endireitei as costas mesmo assim.

Valesca apenas sorriu, um sorriso enigmático de quem sabia mais do que deixava transparecer.

— O destino raramente pergunta o que queremos, menina. A questão é o que fazemos com o que nos é dado.

Desci as escadas e encontrei Dominic esperando no hall de entrada. Ele usava um terno cinza-escuro, o cabelo penteado para trás, e parecia ter saído de uma propaganda de relógios suíços caros. O olhar dele percorreu meu corpo do decote à barra do vestido, e algo quente se aqueceu no meu peito.

— Você está bonita — ele disse. Apenas isso. Mas o jeito como ele disse fez parecer uma declaração de guerra.

— Você parece um agente funerário — respondi, pegando a bolsa que Valesca me estendeu. — A que horas é o evento?

— Às oito. Um jantar na casa do conselheiro Mancini. Ele vai anunciar oficialmente o noivado para as famílias.

— E se eu errar algum protocolo? Falar o nome errado? Derramar vinho na roupa de alguém?

Dominic caminhou até mim e prendeu uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. O gesto foi tão íntimo, tão natural, que esqueci por um segundo que era tudo uma encenação.

— Então você vai ser a noiva temperamental que o pobre Dominic Rossi aturou por amor — ele disse, os lábios curvados em um sorriso de canto. — Os velhos vão adorar. Vão dizer que você tem personalidade.

— E você?

— Eu vou fingir que estou envergonhado. Mas todo mundo vai saber que eu adoro quando você me desafia.

Ele ofereceu o braço. Eu olhei para aquela extensão de tecido cinza, para a mão forte que descansava em cima, para as veias saltadas que eu havia segurado na noite do ataque.

— Isso é loucura — sussurrei, enlaçando meu braço no dele.

— Completamente — ele concordou, guiando-me em direção ao carro blindado. — Mas loucura combinada com a gente, não acha?

O jantar na mansão de Mancini foi um exercício de resistência. Lustres de cristal, pratarias reluzentes, e um salão cheio de homens de sobretudo escuro e mulheres de joias tão pesadas que pareciam estar usando armaduras. Cada olhar em minha direção era uma faca. Cada sorriso, uma máscara.

— Esta é a famosa Luísa — disse uma mulher de cabelos grisalhos e olhos de águia, aproximando-se com uma taça de champanhe. Ela me avaliou do alto do seu salto de quinze centímetros, e concluiu, em voz alta: — Menos do que eu esperava.

— Desculpe decepcionar — respondi, antes que Dominic pudesse falar. — Na próxima vida, prometo nascer com pernas mais longas e um dote maior.

A mulher piscou, claramente não acostumada a ser respondida à altura. Do meu lado, Dominic tossiu para disfarçar um riso.

— Donna Valentina, esta é Luísa — ele interveio, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Ela tem a língua tão afiada quanto eu. Por isso combinamos tanto.

Donna Valentina bufou, mas se afastou, derrotada.

— Você não ia me deixar me defender sozinha? — perguntei, quando estávamos a sós novamente.

— Eu ia, mas você não precisou. — Dominic pegou minha mão e a levou aos lábios, num gesto que fez as velhas damas à nossa volta suspirarem. — Estou começando a achar que o perigo não são os russos. É você.

— Ainda bem que você descobriu antes do casamento.

Ele riu, e o som foi tão genuíno que algumas pessoas à nossa volta se viraram, surpresas. Dominic Rossi não ria. Pelo menos não era o que diziam.

No meio da noite, Mancini nos chamou ao centro do salão. Ele era um homem baixo, de barriga proeminente e dedos cobertos de anéis, mas seus olhos negros tinham a agudeza de um falcão.

— Senhoras e senhores — ele anunciou, batendo a taça com uma colher. — É com grande prazer que anuncio o noivado do meu velho amigo Dominic Rossi com a encantadora Luísa Campos.

As palmas foram educadas, mas os olhares eram tudo, menos calorosos.

— Um brinde aos noivos — Mancini ergueu a taça. — Que este matrimônio seja o início de uma era de prosperidade para nossa comunidade.

Eu levantei minha taça automaticamente, mas antes que pudesse beber, os dedos de Dominic pressionaram meu pulso.

— Só um gole — ele sussurrou, sem mover os lábios. — O champanhe pode estar batizado.

Meu sangue gelou. Deixei o líquido tocar meus lábios, mas não engoli. Dominic fez o mesmo, e então colocou a taça em cima da mesa de um garçom que passava.

— Veneno? — perguntei, quando ele me guiou para um canto mais afastado.

— Impossível saber sem testar. Mas Valentina é conhecida por... temperar as bebidas de quem ela não aprova.

— E por que ela não aprova a mim?

Dominic me puxou para perto, uma mão descendo para minha cintura enquanto a outra subia para o meu rosto, como se estivesse me acariciando. Em qualquer outro contexto, o gesto seria romântico. No meio daquela sala cheia de cobras vestidas de renda, era uma demonstração de propriedade.

— Porque ela queria que o filho dela se casasse comigo — ele respondeu, os lábios roçando minha orelha. — E você atrapalhou os planos dela.

— Que filho? Aquele que está me encarando como se eu fosse um pedaço de carne?

Sem virar a cabeça, eu sabia que ele estava lá. Um homem jovem, de feições bonitas demais para ser honesto, cujo olhar não saía de mim desde que eu entrara no salão.

— Enzo Mancini. Traficante de mulheres e outras coisas piores — Dominic sibilou. — Se ele chegar perto de você hoje, me chame.

— Eu posso me defender.

— Eu sei. Mas eu quero o prazer de quebrar a cara dele se ele te ofender.

O resto da noite foi uma dança tensa entre aparências e ameaças veladas. Enzo não se aproximou, mas seus olhos me seguiram por todos os cantos do salão. Quando finalmente nos despedimos, já passava da meia-noite, e eu estava exausta de sorrir falsamente.

No carro, a caminho de casa, Dominic segurou minha mão sobre o banco de couro. O silêncio era pesado, mas não desconfortável.

— Você foi incrível hoje — ele disse, a voz baixa como se fosse um segredo.

— Incrívelmente desajeitada? Tropecei duas vezes.

— Incrivelmente corajosa. Ninguém enfrenta a Valentina Mancini no primeiro jantar e sai viva.

— Ainda não saí. Ela pode ter colocado veneno na minha bolsa.

Dominic riu, e no meio da risada, ele me puxou para um beijo. Foi rápido, leve, mas deixou um rastro de calor nos meus lábios.

— Você está começando a gostar de mim — eu acusei, sem fôlego.

— Estou começando a achar que você gosta de mim — ele rebateu.

— Gosto de como você me beija. São coisas diferentes.

— Por enquanto.

Ele apertou minha mão e não a soltou pelo resto do caminho. E eu, apesar de mim mesma, não queria que ele soltasse.

A mansão estava escura quando chegamos, exceto por uma única luz acesa na sala de estar. Gonçalo nos esperava, com uma expressão que não prometia nada bom.

— Chefe, temos um problema — ele disse, entregando um envelope pardo a Dominic. — Chegou há uma hora. Sem remetente, sem impressão digital. Mas o conteúdo... é melhor o senhor ver.

Dominic rasgou o envelope e puxou uma fotografia. Seu rosto, que momentos antes estava relaxado, se fechou como uma armadilha.

— O que é? — perguntei, tentando olhar.

Ele me mostrou a foto. Meu corpo congelou.

Era uma imagem minha, tirada naquela mesma noite, saindo do carro de Dominic para entrar na mansão de Mancini. O ângulo era alto, vindo de um prédio em frente. Alguém tinha me vigiado o tempo todo.

No verso da foto, uma mensagem escrita à mão: "Ela é linda, Rossi. Seria uma pena se algo acontecesse antes do casamento."

— Russos — Gonçalo disse, mas parecia uma pergunta.

— Pior — Dominic respondeu, amassando a foto com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. — Alguém de dentro. Alguém que sabia que eu estaria naquele evento. Alguém que conhece minha rota de saída.

Ele se virou para mim, e o Lobo que eu conhecia estava de volta. Mas seus olhos haviam mudado. Não era mais fúria predatória. Era um medo frio, calculista, que me gelou a espinha.

— De agora em diante, você não sai do meu lado — ele ordenou, a voz um rosnado. — Nem para ir ao banheiro. Até eu descobrir quem está nos traindo, Luísa, você e eu vamos estar colados como pele e osso.

— Isso é romântico — tentei brincar, mas minha voz falhou.

— Não é brincadeira — ele segurou meu queixo com força, forçando-me a encará-lo. — Você viu a foto. Eles te seguiram. Eles sabem onde você dorme, o que você veste, o caminho que você faz para entrar nos lugares. Até eu descobrir quem é o traidor, você vai viver dentro da minha sombra. É a única maneira de mantê-la viva.

Ele me soltou e se afastou, ordenando que Gonçalo dobrasse a segurança e revisse todos os protocolos.

Eu fiquei ali, no meio do hall, segurando o pedaço amassado da fotografia.

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