Mundo de ficçãoIniciar sessãoA manhã seguinte ao evento no clube trouxe uma atmosfera diferente. A mansão não parecia mais apenas uma prisão, mas um quartel-general. O "noivado" havia colocado um alvo ainda maior nas minhas costas, e Dante não era o tipo de homem que confiava a segurança apenas em muros e guardas.
Encontrei-o no jardim dos fundos, em uma área isolada por altos muros de concreto. Ele não estava de terno. Vestia uma regata preta que deixava à mostra a musculatura tensa e as cicatrizes nos ombros. Sobre uma mesa de metal, repousavam várias armas desmontadas. — O que é isso? — perguntei, aproximando-me com cautela. — Sua nova rotina — Dante respondeu, sem desviar os olhos de uma pequena pistola que ele limpava. — Ontem você provou que tem língua afiada. Hoje, vamos garantir que suas mãos sejam igualmente letais. — Você quer que eu aprenda a atirar? Dante, eu nunca segurei nada mais perigoso que um cortador de papel. — Então é bom aprender rápido. Os russos não usam papel, Elena. Eles usam chumbo. Ele se levantou e parou atrás de mim. A proximidade era perturbadora. Ele colocou a pistola fria na minha mão direita e envolveu meus dedos com os dele, guiando meu braço para cima, em direção ao alvo de papel a dez metros de distância. — Sinta o peso. Não lute contra ele. Torne-se parte dele. O calor do corpo de Dante contra minhas costas era uma distração perigosa. Eu conseguia sentir sua respiração perto do meu pescoço, o cheiro de óleo de arma e aquele perfume amadeirado que agora eu associava ao perigo. — Encaixe a base da mão aqui — ele sussurrou, ajustando minha postura. Suas mãos desceram para a minha cintura, corrigindo o alinhamento do meu corpo. — Pernas levemente afastadas. Mantenha o foco no centro do alvo. Imagine que é o rosto de quem tentou te levar no baile. — Eu não sou como você, Dante. Não busco sangue. — Mas o sangue busca você. E quando ele chegar, você vai preferir estar com o dedo no gatilho do que de joelhos rezando. Dante soltou meu corpo, mas permaneceu ao meu lado. — Atire. Eu respirei fundo, apertei os olhos por um segundo e puxei o gatilho. O coice da arma me pegou de surpresa, empurrando meu ombro para trás. O som estalou no ar, e a bala atingiu o canto da estrutura de madeira, longe do centro. — De novo — ordenou ele, sem emoção. — Foi quase! — "Quase" é o que se diz no velório de quem errou o tiro. De novo. Passei as duas horas seguintes sob o comando implacável dele. Meus braços começaram a tremer e o cheiro de pólvora impregnou minha pele. Dante não facilitava. Ele me corrigia com toques firmes, às vezes segurando meus pulsos com força até que eu parasse de hesitar. — Por que você está fazendo isso? — perguntei, ofegante, após finalmente acertar o círculo central. — Você disse que me protegeria. Ele tirou a arma da minha mão e a travou. Seus olhos cinzas me perfuraram, carregados de uma intensidade que não era apenas profissional. — Eu vou te proteger, Elena. Mas haverá momentos em que eu estarei ocupado matando por você. Nesses momentos, eu preciso saber que você é capaz de manter a si mesma viva até que eu volte para limpar o chão. Ele deu um passo à frente, limpando uma mancha de fuligem da minha bochecha com o polegar. Por um momento, o mestre implacável desapareceu, dando lugar ao homem que me segurou no bunker. — Você aprende rápido — ele admitiu, a voz baixando de tom. — O que é perigoso. Mulheres bonitas com armas costumam causar estragos que nem eu consigo consertar. — Talvez eu comece por você — provoquei, um sorriso desafiador surgindo nos meus lábios pela primeira vez. Dante soltou um riso curto e sombrio. — Eu ficaria honrado em ser sua primeira vítima, piccola. Mas, por enquanto, vamos focar em quem realmente merece. Ele se afastou, deixando-me ali com a arma na mão e a estranha percepção de que, naquele mundo de sombras, ele estava me dando a única coisa que meu pai sempre me negou: o poder de não ser uma vítima.






