Mundo ficciónIniciar sesiónAo meio-dia, o carro de João já estava estacionado em frente à escola de Amanda. O sol iluminava a fachada do colégio, e grupos de alunos começavam a sair, conversando e rindo, livres da rotina das aulas.
Dentro do carro, o clima era outro.
Clara cruzava os braços no banco do passageiro, visivelmente incomodada.
— João, por que a Amanda não vai de táxi? — reclamou, olhando o relógio. — Agora temos que ficar aqui esperando…
João manteve os olhos fixos no portão da escola, sem demonstrar irritação.
— Não posso fazer isso. Meu irmão ficaria chateado — respondeu, com firmeza contida.
Clara soltou um suspiro exagerado.
— Sempre o José faz tudo o que a Amanda quer… isso é injusto.
João não respondeu. Sabia que discutir com Clara só prolongaria algo que nunca chegava a lugar algum.
Mas ela continuou.
— Quero ver quando o José casar… ela vai perder todas essas regalias.
João virou o rosto levemente na direção dela.
— Tem minha mãe, Clara…
Clara soltou uma risada curta, carregada de ironia.
— Mas ela não é da famí—
Clara não terminou a frase.
Seus olhos se voltaram para o portão, onde Amanda surgia acompanhada de seus amigos.
Amanda vinha conversando animadamente com Beatriz, enquanto Daniel e Guilherme caminhavam ao lado. Apesar do riso leve, sua postura era firme, elegante, quase como se carregasse uma barreira invisível entre ela e o mundo.
Guilherme segurava o material dela com naturalidade e, em um gesto íntimo, bebia café no mesmo copo que Amanda. Aquela proximidade não passou despercebida.
João apertou levemente o volante.
Um incômodo silencioso tomou conta dele, algo que ele não nomeava, mas que crescia sempre que via Amanda fora do controle do ambiente familiar.
Clara percebeu.
Seus olhos se estreitaram ao notar a forma como João observava Amanda. Aquilo a incomodou mais do que gostaria de admitir.
— Interessante… — murmurou, quase inaudível.
Do lado de fora, Amanda e seus amigos se aproximavam do carro.
— Cuidado, viu? — disse Beatriz, com seu jeito direto, olhando para Amanda. — Pra você não ser envenenada aí dentro.
Amanda soltou uma risada curta.
Beatriz não tinha trava na língua — e muito menos paciência para Clara.
Clara fingiu não ouvir, mas seu maxilar travou levemente.
— Linda, até amanhã — disse Guilherme, com um sorriso descontraído.
Amanda sorriu de volta, mais suave, quase diferente de como era dentro de casa.
— Até — respondeu ela.
Antes que o clima se prolongasse, a voz de João cortou o momento.
— Vamos logo, Amanda. Tenho que voltar para a empresa… e você tem trabalho em casa.
O tom dele era firme, direto, sem espaço para discussão.
Amanda o encarou por um segundo. Seus olhos carregavam algo entre irritação e desafio.
Sem dizer nada, abriu a porta do carro e entrou, fechando-a com força.
O som ecoou mais do que deveria.
Clara arqueou uma sobrancelha, observando a cena com certo prazer disfarçado.
O carro ficou em silêncio por alguns segundos.
Um silêncio pesado.
Amanda olhava pela janela, evitando qualquer contato. Seu reflexo no vidro mostrava mais do que ela gostaria: a irritação, o cansaço… e algo mais profundo, difícil de explicar.
João ligou o carro, mantendo a expressão séria.
Mas por dentro, algo havia se deslocado.
A imagem de Amanda rindo com os amigos, sendo leve… sendo livre… contrastava com a Amanda que ele conhecia dentro de casa — controlada, defensiva, sempre pronta para se proteger.
E isso o incomodava.
Clara, por outro lado, observava tudo em silêncio agora.
Mas seus pensamentos não paravam.
“Ela não pertence aqui… e mesmo assim, ocupa espaços que nunca foram dela.”
O carro seguiu pela estrada.
Três pessoas.
Três silêncios diferentes.
E uma tensão que, aos poucos, deixava de ser invisível.







