Mundo de ficçãoIniciar sessãoDentro do carro, Amanda mexia no celular, tentando ignorar o ambiente pesado. O silêncio era quase incômodo. Em um gesto automático, levantou os olhos para o retrovisor… e encontrou o olhar de João.
Por um segundo, o tempo pareceu parar.
Ela desviou rapidamente, bufando.
— Que idiota… — murmurou baixo. — Vai se ferrar.
João fingiu não ouvir, mas apertou levemente o volante.
Amanda voltou os olhos para o celular, mas sua mente já não estava mais ali.
As lembranças vieram.
Era um dia de frio intenso no país M. A neve cobria o chão da imponente fazenda Volchya Dolina. O carro havia acabado de parar em frente à casa principal.
Ana Duarte desceu primeiro, com Amanda ainda pequena no colo. Augusto vinha logo atrás.
Ana olhou para a menina com ternura.
— Filha, essa casa será sua… e aqui é a sua família.
A porta se abriu, e José, ainda com seus 14 anos, desceu as escadas correndo, com um sorriso aberto.
— Ela é a nossa irmã, mamãe? — perguntou, com entusiasmo.
Ana sorriu.
— Sim, ela agora é sua irmã.
José se aproximou, olhando Amanda com cuidado e carinho.
— Eu vou cuidar dela para sempre.
Mas nem todos reagiram da mesma forma.
Na porta, João — então com 10 anos — observava tudo em silêncio. O rosto fechado, o olhar distante.
Quando Amanda passou por ele no colo de Ana, João apenas mostrou a língua, em um gesto infantil de rejeição, e saiu correndo escada acima, desaparecendo em seu quarto.
Desde o começo, havia algo quebrado ali.
Amanda piscou, voltando ao presente.
Antes que pudesse se recompor, o carro freou bruscamente.
Seu corpo foi lançado para frente, e ela bateu levemente a cabeça no banco.
— Você é idiota?! — gritou, levando a mão à testa.
João virou-se, irritado.
— Idiota é você!
— Você dirige igual um louco!
— Queria que eu passasse por cima do cachorro?! — retrucou ele, com o tom elevado.
O silêncio voltou por um instante… mas não era mais um silêncio neutro.
Era carregado.
O restante do caminho foi feito em meio a olhares atravessados e respirações pesadas.
Assim que o carro parou na frente da fazenda, Amanda abriu a porta com força e desceu sem esperar.
João fez o mesmo.
Os dois entraram na casa discutindo.
— Você sempre acha que está certa! — disse João, tentando manter o controle, mas já alterado.
— E você sempre age como se fosse dono de tudo! — rebateu Amanda, sem recuar.
A discussão ecoou pela casa.
Na sala, Ana se levantou, surpresa com o tom dos filhos.
— O que está acontecendo aqui?
Antes que qualquer um respondesse, Clara apareceu, como quem já esperava aquele momento.
— Foi a Amanda, tia — disse, com falsa calma. — Ela é sempre assim… manhosa e mesquinha.
Amanda virou-se rapidamente.
— Cala a boca, Clara!
Mas Ana levantou a mão, tentando conter a situação.
João, por um instante, perdeu completamente a postura firme que mantinha fora de casa. Sua respiração estava pesada, e seus olhos fixos em Amanda mostravam algo além da irritação.
Amanda o desestabilizava.
Sempre desestabilizou.
E isso o incomodava mais do que qualquer discussão.
Clara observava tudo em silêncio agora.
Mas por dentro, algo queimava.
Ela era apaixonada por João.
E ver aquele tipo de intensidade entre ele e Amanda — mesmo que em forma de conflito — a consumia.
Porque, no fundo, Clara sabia:
João nunca reagia assim com ninguém.
Só com Amanda.
E talvez fosse exatamente isso que mais a assustava.







