Mundo ficciónIniciar sesiónAmanda subiu as escadas com passos firmes, quase pesados, carregando a raiva no corpo inteiro. A porta do quarto se fechou com força, ecoando pela casa.
Na sala, o silêncio ficou denso.
Ana respirou fundo, tentando conter a mistura de preocupação e irritação que tomava conta dela.
— João, venha até o escritório — disse, em um tom calmo, mas firme.
Minutos depois, já dentro do escritório, Ana fechou a porta atrás deles. O som do clique pareceu marcar o início de algo mais sério.
Ela se virou lentamente para o filho.
— O que está acontecendo aqui, João? — perguntou, controlando a voz. — Um único dia… e vocês dois parecem dois cachorros brigando.
João passou a mão pelo rosto, visivelmente tenso.
— Mãe… — começou, com a voz baixa, carregada. — Eu e a Amanda nunca nos entendemos. Ela usurpa tudo… tudo é pra ela, tudo do jeito dela. Eu não suporto isso.
Ana deu um passo à frente, mantendo a calma.
— Não é assim, João. Ela é apenas uma adolescente de 16 anos. E você é o irmão dela.
João levantou o olhar, firme.
— Ela não é minha irmã… — disse, pausadamente. — Ela não tem o meu sangue.
O silêncio caiu pesado no ambiente.
Ana abriu a boca para responder… mas seus olhos desviaram para a porta.
João percebeu.
Virou-se lentamente.
Amanda estava ali.
Parada.
Imóvel.
Com os olhos fixos neles.
Não havia grito. Não havia reação impulsiva.
Apenas um olhar.
E, naquele olhar, algo se partia em silêncio.
— Amanda… eu… — João tentou falar, mas as palavras não saíam.
Ela não respondeu de imediato.
Entrou alguns passos no escritório, segurando alguns papéis.
Sua postura era firme… mas seus olhos já não eram os mesmos.
— Mamãe… aqui estão os documentos do rendimento da fazenda. Eu terminei ontem à noite — disse, com a voz controlada. — Só vim entregar.
Colocou os papéis sobre a mesa.
— Já estou indo para o escritório.
Ana tentou suavizar o momento.
— Amanda, vamos almoçar…
Amanda olhou para os dois.
Primeiro para Ana.
Depois para João.
O silêncio entre eles dizia mais do que qualquer discussão.
— Não estou com fome… eu comi na escola — respondeu, sem emoção.
E saiu.
Sem dar tempo para insistirem.
A porta se fechou.
Mais uma vez.
Ana permaneceu parada por alguns segundos, olhando para o vazio que Amanda havia deixado.
Depois, lentamente, virou-se para João.
Mas não disse nada.
Porque, naquele momento, qualquer palavra parecia pequena diante do que tinha acabado de acontecer.
Do lado de fora, na grande varanda da casa, Amanda parou.
Respirou fundo.
O ar parecia mais pesado do que antes.
Ela olhou para frente, tentando manter a postura firme.
Mas sua voz saiu baixa, quase um sussurro para si mesma:
— José… meu irmão… como você está me fazendo falta…
Uma lágrima escapou.
Silenciosa.
Rápida.
Ela a enxugou com o dorso da mão, como quem não se permite sentir por muito tempo.
Endireitou os ombros.
E seguiu.
Passo firme.
Direta para o escritório da fazenda.
Porque, no mundo dela, parar para sentir… sempre pareceu um risco maior do que continuar andando.
Dentro da casa, Ana ainda estava no escritório.
Seus olhos voltaram para a porta por onde Amanda havia saído.
E então, quase em um suspiro, disse:
— Vocês não conseguem viver no mesmo espaço…
Não era apenas uma constatação.
Era um cansaço.
Um medo.
E, no fundo, a sensação de que aquilo ainda estava longe de acabar.







