Secretária Moreno Vamos Nos Casar!

Secretária Moreno Vamos Nos Casar!PT

Romance
Última atualização: 2026-04-16
Aruana Smmith   Atualizado agora
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Resumo
Índice

Luciana “Luci” Moreno sempre acreditou que o amor era um luxo, algo reservado a quem não precisava lutar para sobreviver.  Desde que sua filha, Sofía, nasceu, ela tem vivido um dia de cada vez, equilibrando o emprego de secretária e as longas noites em claro ao lado da menina, que sofre de uma doença rara e debilitante. A cada consulta, o diagnóstico parece mais cruel:  O tratamento é caro, inacessível, e o tempo de Sofía está se esgotando. Do outro lado desse abismo de desespero está Leonardo “Leo” Gutiérrez, um empresário frio e calculista, herdeiro de um império financeiro construído sobre o sacrifício e as aparências.  Apesar da reputação de homem implacável, Leo vive aprisionado por um avô autoritário:  Don Eduardo, cuja última vontade é ver o bisneto antes de morrer. Para manter a herança e cumprir o desejo do velho, Leo precisa se casar e aparentar estabilidade. Mas o amor nunca fez parte dos planos. Quando o destino entrelaça suas vidas, Leo enxerga em Luci a solução perfeita:  Uma mulher discreta, sem ambições materiais, e com algo que o toca profundamente, a luta silenciosa por sua filha.  Ele  propõe um contrato de casamento por dois anos.  Em troca, ele custeará o tratamento de Sofía e garantirá segurança total para ambas. Mas Luci impõe uma condição:  Nada físico. Por trás desse pedido, há um segredo que jamais contou a ninguém, um passado de dor e violência, que a deixou incapaz de suportar toques ou aproximações. O casamento, se torna um campo de batalha emocional.  Leo, se vê diante de uma mulher que desperta nele sentimentos que não sabe lidar: Ternura, respeito e uma estranha necessidade de proteger. Já Luci, começa a se ver dividida entre a desconfiança e o desejo de acreditar que desta vez, alguém possa amá-la sem destruí-la.

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Capítulo 1

SOMBRAS E SILÊNCIOS

Luciana Moreno

Às vezes, o silêncio é mais barulhento do que qualquer grito.

É nele que eu escuto o som dos meus medos, a tosse de Sofía, o bip do monitor no hospital, o eco dos passos apressados dos médicos que passam sem me olhar nos olhos.

Faz quatro dias que não durmo direito.

Quatro dias vendo minha menina definhar entre tubos e palavras frias que eu mal compreendo.

A médica diz que o tratamento está funcionando, mas que precisamos continuar com o protocolo completo.

É uma boa notícia, e ainda assim, dói.

Porque o tratamento custa mais do que eu jamais poderei pagar.

Não existe boa notícia quando ela vem acompanhada de uma conta impossível.

Sofía dorme.

O rostinho pálido contrasta com os fios escuros de cabelo grudados na testa suada.

A respiração dela é leve, quase um sopro, e toda vez que o peito se ergue, eu agradeço.

Agradeço a Deus, a quem quiser ouvir.

Eu faria qualquer coisa por ela.

Qualquer coisa!

Abro o envelope que deixaram na recepção do hospital, a nova fatura.

O papel é fino, mas pesa como chumbo.

Meus dedos tremem.

É o tipo de número que não cabe na minha vida, nem no meu salário.

Sou secretária executiva na Gutiérrez Corp, uma empresa grande, sólida, onde as pessoas andam com a cabeça erguida e o coração blindado.

Eu sou a exceção.

Sempre fui.

Trabalho diretamente com Leonardo Gutiérrez, o herdeiro e diretor executivo.

Um homem que não sorri, não hesita, não se atrasa.

O tipo de pessoa que parece feita de mármore.

Bonito, frio e impossível de alcançar.

Ele fala e todos obedecem.

E eu…

Eu apenas me encolho.

Não porque ele me trate mal, mas porque há algo nele que me deixa desconfortável.

O jeito como observa tudo, como se enxergasse além das palavras.

E eu não quero ser enxergada. Não de verdade!

Guardo o envelope na bolsa e respiro fundo.

Não posso chorar aqui.

Não na frente de Sofía.

Ela detesta quando me vê chorando.

Diz que as lágrimas deixam o mundo triste, e que se o mundo ficar triste, o sol demora mais a aparecer.

Ela tem quatro anos e fala como se entendesse as engrenagens da vida.

Talvez entenda mais do que eu.

Quando a enfermeira entra, aviso que vou sair por alguns minutos.

Ela acena, compreensiva.

Desço até a lanchonete do hospital, mas o café tem gosto de ferro e desespero.

O dinheiro que me resta na carteira é suficiente apenas para uma semana de transporte.

Tudo o que eu tenho, tudo o que sou gira em torno de manter minha filha viva.

Enquanto espero o ônibus, o vento da tarde me corta o rosto.

As pessoas passam apressadas, com sacolas, celulares, vidas inteiras que não se cruzam com a minha.

Pego o telefone e abro o aplicativo do banco.

Saldo: R$ 217,94.

Fecho os olhos. Quase consigo rir. Quase!

O barulho do motor do ônibus me arranca dos pensamentos.

Entro, sento no canto de sempre, perto da janela rachada.

E é ali, com a cabeça encostada no vidro, que me pergunto o que fiz de errado.

Será que mereço isso?

Será que estou sendo punida por algo?

Não sei.

Só sei que estou cansada de ser forte.

O escritório da Gutiérrez Corp é o oposto da minha casa.

Impecável, silencioso, cheirando a poder e perfume caro.

As paredes de vidro parecem observar cada passo, como se até os segredos tivessem que ser transparentes ali dentro.

Chego atrasada dez minutos.

Dez minutos que me custaram o resto do dia.

— Moreno. A voz dele vem firme, baixa, e ainda assim parece uma ordem.

Paro, minha respiração fica presa.

— Desculpe, senhor, o trânsito estava...

— Não precisa se justificar.

Ele ergue o olhar do computador.

— Só não repita.

Assinto.

Engulo a resposta que me arde na garganta.

Ele me entrega uma pasta com relatórios, pede que eu marque uma reunião às quinze e revise os contratos da filial de Córdoba.

Trabalho. Sempre trabalho.

É a única coisa que ainda sei fazer sem desmoronar.

Mas hoje, algo nele parece diferente.

Quando me estendo para pegar a pasta, ele observa minhas mãos.

Talvez note o tremor.

Ou as olheiras.

Ou talvez não.

Ele é o tipo de homem que enxerga tudo, mas finge não ver nada.

Ainda assim, há uma pausa.

Um silêncio entre nós.

E no olhar dele, algo se move rápido, quase imperceptível.

— Está tudo bem? Pergunta, enfim.

Congelo.

Faz meses que trabalho aqui, e é a primeira vez que ele pergunta se estou bem.

Meu coração dispara.

Forço um sorriso que dói.

— Estou...

Minto

— Estou bem.

Ele apenas assente, e volta para o computador.

Mas o ar entre nós muda.

E, por um instante, penso que talvez ele saiba que estou mentindo.

Saio tarde. As luzes da cidade piscam lá fora, refletindo nos vidros altos da empresa.

Estou exausta, faminta, e com a alma em frangalhos.

Quando chego ao hospital, Sofía já dorme.

O som do monitor é o único que me faz companhia.

A médica deixa uma mensagem de voz dizendo que precisamos assinar novos papéis sobre o tratamento.

Traduzindo:

Mais custos. Mais impossibilidades.

Abro a janela do quarto e deixo o vento entrar.

As luzes da rua tremem lá fora, e penso em como o mundo segue indiferente ao sofrimento dos outros.

Penso em Leo.

No olhar dele hoje.

Na pergunta simples que me desmontou.

Talvez tenha sido só cortesia, mas em mim soou como piedade.

E piedade é a última coisa que suporto.

Deito na poltrona e fecho os olhos.

A lembrança vem sem pedir: mãos frias, o cheiro de álcool, o quarto escuro, o som que jamais consegui esquecer.

Meu corpo se enrijece. O coração dispara.

Não, Luci. Não agora!

Inspiro, conto até dez, tento me ancorar no presente.

Sofía. Ela é minha razão!

Ela é meu porto!

Ela é tudo!

Quando a madrugada chega, decido algo que me aterroriza.

Vou vender o carro.

Não vale muito, mas é o que resta, e ultimamente nem tem sobrado para abastecê-lo, são raras as vezes que o uso somente quando estou muito atrasada.

E talvez, só talvez, isso me dê mais algumas semanas de esperança.

Na manhã seguinte, chego à empresa antes de todos.

Preciso de adiantamento. Ou de um milagre.

Mas milagres não aparecem de terno e gravata.

Milagres não têm olhos tão escuros e frios.

Mesmo assim, quando Leo entra em minha sala, o coração falha um compasso.

Ele observa meu rosto, depois o envelope amassado sobre a mesa.

— Está acontecendo alguma coisa, Moreno? Pergunta.

Não respondo.

Não posso.

Se eu abrir a boca, vou desabar.

Ele se aproxima devagar, encostando as mãos na mesa.

A voz é firme, mas há um traço de curiosidade ou preocupação.

— Se precisar de ajuda, fale comigo.

O nó na minha garganta é quase insuportável.

Mas eu balanço a cabeça.

— Não é nada, senhor. Obrigada.

Ele me encara por longos segundos, depois se afasta.

Mas antes de sair, diz algo que me persegue o resto do dia:

—Nem tudo na vida precisa ser suportado sozinha, Moreno. Fala

Fico ali, imóvel, com as mãos geladas e o peito apertado.

As palavras dele me atingem de um jeito estranho, como se tivessem atravessado uma armadura que passei anos construindo.

E, pela primeira vez, eu me pergunto se um dia terei coragem de deixar alguém ver as cicatrizes que escondo.

Mais tarde, no hospital, Sofía desperta e sorri.

— Mamãe, hoje eu sonhei com um moço que tinha olhos tristes.

— É mesmo?

— É. Ele dava uma flor pra mim e dizia pra você não chorar.

Meu corpo inteiro arrepia.

Sofía ri, e o riso dela parece acender um canto escuro dentro de mim.

Beijo sua testa e sussurro:

— Talvez ele tenha razão, meu amor.

—Talvez eu não precise chorar sozinha.

Mas enquanto a observo voltar a dormir, algo dentro de mim muda, uma fagulha pequena, quase imperceptível.

Não sei ainda, mas o destino acabou de trançar o primeiro fio da armadilha que vai me prender ao homem de olhos tristes.

E ao amor que eu jurei nunca mais sentir.

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