Mundo de ficçãoIniciar sessãoJá fazia dez dias desde que José havia viajado com Sofia. A casa parecia diferente sem ele — mais silenciosa em alguns momentos e, em outros, estranhamente pesada.
Era final de semana, e os afazeres da fazenda estavam em ordem. As documentações estavam organizadas, os funcionários cumpriam suas funções, e tudo parecia sob controle.
Talvez por isso, Amanda decidiu respirar um pouco.
Convidou seus amigos para passarem o final de semana na fazenda.
Como na casa estavam apenas sua mãe, Ana Duarte, sua tia Carla — mãe de Clara — e seu irmão João, ela não viu problema. Seu pai e seu tio Carlos só retornariam de viagem dali a um mês.
Naquela tarde, após o almoço, o clima parecia leve.
Ao redor da piscina, Amanda estava com Guilherme, Daniel e Beatriz. Risadas ecoavam pelo espaço aberto, contrastando com o verde da fazenda e o céu claro.
Mais afastados, em outro espaço, João, Clara, sua tia Carla, Ana Duarte e uma amiga de Clara conversavam.
À primeira vista, tudo parecia harmonioso.
Mas nem sempre o que parece… é.
— Vem cá! — disse Guilherme, puxando Amanda de repente.
Ela nem teve tempo de reagir.
Foi abraçada por ele e, em um movimento rápido, jogada na piscina.
— Guilherme! — gritou, já rindo, enquanto caía na água.
Logo em seguida, Daniel pulou também, seguido por Beatriz.
A piscina virou cenário de risadas, respingos e provocações.
— Amanda, boba! — disse Beatriz, rindo. — Você tem que beijar muito!
— Ah, é? — respondeu Amanda, jogando água nela.
Daniel, namorado de Beatriz, entrou na brincadeira.
— Então quer dizer que você já beijou muito, né?
— Muito mais que você imagina! — rebateu Beatriz, arrancando gargalhadas.
As brincadeiras iam e vinham, leves, descontraídas… quase como se, por algumas horas, Amanda pudesse simplesmente ser uma jovem comum.
Sem peso.
Sem cobrança.
Sem precisar provar nada.
Do outro lado, João observava.
Em silêncio.
Seus olhos, vez ou outra, desviavam para Amanda.
Molhada, rindo, livre.
Aquilo o incomodava mais do que ele gostaria de admitir.
Clara percebeu.
Sempre percebia.
E, naquele momento, algo dentro dela se moveu.
— Meninos, vamos almoçar! — chamou Ana Duarte, com a voz firme, interrompendo o momento.
As empregadas já haviam preparado a mesa.
Aos poucos, todos começaram a sair da piscina, ainda rindo, pegando toalhas, comentando as brincadeiras.
Amanda foi a última a sair.
Enrolou-se na toalha e decidiu cortar caminho pelo jardim das orquídeas — um dos lugares mais silenciosos da casa.
Era um espaço bonito.
Mas, naquele momento, se tornaria outra coisa.
Enquanto caminhava, um som chamou sua atenção.
Um movimento.
Um sussurro.
Ela parou.
Olhou discretamente para dentro do espaço mais reservado do jardim.
E viu.
João.
E Clara.
Aos beijos.
O tempo não parou.
Mas algo dentro dela… sim.
Seu olhar ficou fixo por um segundo a mais do que deveria.
Não era surpresa.
Não era exatamente dor.
Mas também não era indiferença.
Era algo mais profundo.
Mais silencioso.
Algo que nem ela mesma queria nomear.
Amanda não fez barulho.
Não chamou.
Não reagiu.
Apenas virou o rosto.
E seguiu.
Passos firmes.
Respiração controlada.
Como se não tivesse visto nada.
Como se aquilo não tivesse atravessado nada dentro dela.
Mas atravessou.
E muito.
Porque, no fundo, Amanda sabia:
O que mais doía… nem sempre era o que acontecia.
Mas o que aquilo despertava.







