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Capítulo 11: Primeiro Dia - Isabella Viana

O despertador do meu celular berrou no meio da madrugada, e eu quase morri.

— Ai, meu Deus do céu... — grunhi, atacando o botão de soneca como se fosse uma cobra.

Na tela, a mensagem do Senhor Benites piscava com a delicadeza de um bilhete de sequestro:

"Giulia acorda às 6h30. Uniforme no armário. Use o carro da garagem."

Nem um "por favor", nem um "bom dia". Só ordens, como se eu fosse a Alexa de pelúcia dele.

— Tá bom, chefe — cuspi no travesseiro antes de me arrastar para o banheiro.

Se ao menos ele tivesse aparecido para a tal reunião da noite passada, em vez de evaporar assim que Giulia pegou no sono. Mas não. Miguel Benites, campeão mundial de fugir de conversas que não sejam sobre o clima.

O quarto de Giulia parecia a cena de um crime. A mini diva estava enrolada no cobertor como um taquito de cabelos loiros, abraçada ao Sr. Bolhas — o urso que, segundo ela, "só mente para adultos".

— Bom dia, princesa... — sacudi seu ombro.

Ela abriu um olho, puxou o cobertor até o nariz e anunciou:

— Estou oficialmente morta.

— Ah, é? E quem vai assinar seu boletim então? O fantasma do Sr. Bolhas?

Giulia sentou de golpe, com os olhos arregalados:

— Ele não tem dedo pra assinar nada!

Ri baixinho. Pela primeira vez desde que desembarquei na Espanha, algo dentro de mim se ajeitou.

Depois de convencer Giulia de que sim, escovar os dentes era "lei universal", e não, o uniforme escolar não combinava com suas luvas de princesa, descemos para a cozinha. Maria nos esperava com o café da manhã servido na bancada da cozinha. Levaria muito tempo para me acostumar com as comodidades dessa casa, incluindo ter alguém cozinhando refeições fartas de hora em hora.

— Na minha escola a gente comia pão com mortadela — soltei, olhando aquela torre de açúcar com culpa.

Giulia congelou com o churro a meio caminho da boca:

— O que é mortadela?

— É... o presunto que chora no banho.

Ela fez cara de nojo, mas depois inclinou a cabeça:

— Quero provar.

Maria riu, limpando as mãos no avental:

— O senhor Bnites deixou o Audi na garagem para você, Isabella.

— O quê?! — engasguei. — Ele quer que eu dirija seu carro?

— Você não sabe? — Giulia arregalou os olhos como se eu tivesse confessado não saber respirar.

— Sei, anjinho! Só não quero arranhar o carro do seu pai e acabar num caixão.

Tomamos café conversando sobre o dia e aproveitei para coletar algumas informações da rotina dela. Giulia tinha tantas atividades extracurriculares que me perguntei em qual momento sobrava tempo para ela exercer seu papel como uma criança de dois anos. A lista incluia aulas de ballet, piano, inglês e defesa pessoa.

Ela só tem cinco anos. 

Ajudei a fechar a bolsa e pentear os cabelos, antes de descernos para a garagem.

A garagem era maior que o bairro onde eu cresci.

E lá estava ele: um Audi tão polido que dava pra ver meu reflexo fazendo o sinal da cruz no capô.

— Misericórdia — murmurei, tocando na maçaneta como se fosse um artefato sagrado.

Giulia já escalava para a cadeirinha como um macaquinho em crise:

— Vamos, Isa! Eu ensino a ligar o rádio!

Antes que eu pudesse lembrar onde ficava o freio, ela já apertava todos os botões do painel.

— Giulia, espera! Eu preciso...

— Pisa nisso aqui! — ela gritou, chutando o banco da frente.

O motor rugiu. O GPS em espanhol berrou: "Gire a la derecha en 200 metros." 

— Isa... — Giulia sussurrou, séria de repente.

— O que foi, flor?

— Você tá na contramão.

— AI MEU DEUS...

Um caminhão buzinou. Giulia gargalhou como uma hiena. E assim começou meu batismo de fogo como babá em Sevilha: perdida no trânsito, com uma pirralha rindo da minha desgraça, e o carro de um bilionário nas mãos de uma brasileira que nem carteira europeia tinha.

— Seu pai vai me matar...

Quando o Audi parou em frente ao colégio, meu queixo caiu.

Aquilo não era uma escola. Era um shopping center disfarçado de instituição de ensino – colunas de mármore, jardins impecáveis e até uma fonte no meio do pátio, como se as crianças precisassem de um oásis entre as aulas de matemática.

— É aqui? – perguntei, meio sem ar.

Giulia, já soltando o cinto, respondeu como se eu fosse burra:

— Claro! Todo mundo sabe onde fica a escola.

Todo mundo menos eu, aparentemente.

Desci do carro sentindo o peso dos olhares. As mães pareciam saídas de uma revista – saltos altos, bolsas de couro e sorrisos perfeitos. Até as babás estavam impecáveis, de uniformes engomados e coques impecáveis.

E eu? Legging preta, tênis surrado e uma camiseta.

— Vamos, Isa! – Giulia puxou minha mão, me arrastando para o portão.

Tentei me encolher, mas era impossível passar despercebida. Algumas mães cochichavam, outras franziam a testa, como se eu fosse uma intrusa que invadiu o clube delas.

— Tchau, Isa! – Giulia soltou minha mão e correu para um grupinho de crianças, abraçando uma amiguinha loira como se fossem irmãs.

— Tchau, princesa! – gritei, tentando disfarçar o aperto no peito. — Te busco depois, combinado?

Ela nem ouviu, já mergulhada em risadas infantis.

Fiquei parada ali, observando o mundo dela – tão diferente do meu. Será que ela sabe como é sortuda?

Quando virei para voltar ao carro, uma das mães – loira, esguia, com um vestido que custava mais que meu aluguel anual – me encarou com um sorriso falso.

— Você é nova, não é? – ela perguntou, em um espanhol carregado de sotaque aristocrático.

— Sou. – respondi, seca.

Ela olhou meu tênis, depois meu rosto, e soltou um "ah" que dizia mais que mil palavras.

— Boa sorte.

Comédia.

Sorri, fingindo não entender a indireta, e voltei para o Audi, sentindo o coração bater mais rápido.

Miguel Benites, você não me avisou que eu ia ter que enfrentar a alta sociedade espanhola.

E o pior?

O dia mal tinha começado.

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