Mundo de ficçãoIniciar sessãoO som do avião tocando o solo me fez apertar ainda mais a bolsa contra o peito. Meus dedos tremiam levemente, e eu respirei fundo, tentando me convencer de que aquilo era real. Eu, Isabella, uma garota que nunca tinha saído da minha cidade, estava desembarcando na Espanha. O oceano Atlântico agora ficava para trás, e com ele, toda a segurança do que eu conhecia.
O coração batia acelerado enquanto eu caminhava pelo corredor do aeroporto, seguindo o fluxo de passageiros. As luzes brilhantes e o burburinho de vozes em línguas estrangeiras me deixavam ainda mais nervosa. Apertei a bolsa com mais força, como se ela fosse meu único elo com o mundo que eu deixara para trás. Dentro dela, estavam minhas coisas mais preciosas: uma foto da minha família, um terço que minha avó me dera e um caderno onde eu anotava meus sonhos. "Respira, Isa," eu me disse, baixinho. "Você conseguiu chegar até aqui. Agora é só seguir em frente." Mas o medo insistia em não me abandonar. E se eu não fosse boa o suficiente? E se eles não gostassem de mim? E se... Minhas preocupações foram interrompidas quando meus olhos pousaram em uma cena que parecia saída de um filme. Uma garotinha de cachos loiros, vestindo um vestido azul-claro, dava pulinhos de empolgação enquanto segurava um cartaz colorido. Nele, escrito em letras grandes e cheias de cor, estava meu nome: "Isabella". Por um momento, o medo se esvaiu. Um sorriso involuntário surgiu nos meus lábios ao ver a alegria estampada no rosto daquela menina. Mas então, meus olhos se desviaram para o homem parado atrás dela. Ele era alto — muito alto —, com cabelos e barba castanhos que já mostravam alguns fios grisalhos. Seus olhos verdes eram penetrantes, como se conseguissem ver tudo o que eu tentava esconder. A camisa social cinza que ele vestia delineava com perfeição os músculos dos seus braços, e eu senti um calor subir ao meu rosto. Ele parecia sério, quase austero, mas havia algo em seu olhar que me fez sentir... segura? Não, não era isso. Era algo mais complexo, algo que eu não conseguia nomear. Ele deveria ser o pai, ou como devo chamá-lo: Senhor Benites, meu chefe. Antes que eu pudesse pensar melhor, a garotinha me viu e começou a acenar freneticamente. — Isabella! Isabella! — ela gritou, correndo em minha direção. Eu me agachei para ficar no nível dela, e ela me abraçou com uma força que eu não esperava de alguém tão pequena. — Olá! — eu disse, tentando disfarçar a emoção na voz. — Você deve ser a Giulia, não é? Ela soltou um riso musical e assentiu com a cabeça. — Sim! Eu fiz o cartaz para você! Gostou? — Adorei! — eu respondi, olhando para as cores vibrantes e os desenhos que ela tinha feito. — É o cartaz mais bonito que já vi. Giulia sorriu, orgulhosa, e então olhou para trás, chamando o homem que estava parado a alguns passos de distância. — Pai, vem cá! Ele se aproximou com passos firmes, e eu me levantei, sentindo-me de repente muito pequena. Seus olhos verdes me estudaram por um momento, e eu tive que me esforçar para não desviar o olhar. — Isabella, eu presumo — ele disse, com uma voz grave que parecia ecoar no meu peito. — Sim, senhor — eu respondi, tentando manter a calma. — Muito prazer. — Miguel Benites — ele se apresentou, com um aceno de cabeça. — Bem-vinda à Espanha. — Obrigada — eu disse, sentindo um nó na garganta. Miguel estendeu a mão em direção à minha mala, e por um instante, eu hesitei. Não estava acostumada a alguém fazendo algo por mim, muito menos um homem como ele — alto, imponente, com aqueles olhos verdes que pareciam ver tudo. — Deixe-me levar isso para você — ele disse, com uma voz suave, mas firme. — Obrigada — eu murmurei, soltando a alça da mala e sentindo um leve arrepio ao nossos dedos se tocarem brevemente. Giulia, por sua vez, agarrou minha mão e começou a puxar-me para frente, tagarelando animadamente. — Eu fiz o cartaz sozinha, sabia? — ela disse, com um sorriso que parecia iluminar todo o aeroporto. — Escolhi todas as cores! O azul é a minha favorita, mas eu também gosto de rosa e amarelo. O papai ajudou um pouco, mas foi quase tudo eu! Eu sorri, sentindo um pouco da tensão se dissipar com a energia contagiante da menina. — Ficou lindo, Giulia. Você é muito talentosa! — Eu sei! — ela respondeu, rindo. — Eu também gosto de desenhar. Um dia, vou ser artista, igual à minha mãe. A menção da mãe dela fez meu coração apertar, mas antes que eu pudesse dizer algo, Giulia já estava falando de outra coisa. — Você gosta de bolo de chocolate? Porque a Maria fez um pra você! — Adoro bolo de chocolate — eu respondi, rindo. — E mal posso esperar para experimentar o da Maria. Chegamos ao carro, um SUV preto e imponente que parecia combinar perfeitamente com Miguel. Ele abriu a porta traseira e ajudou Giulia a subir, prendendo-a cuidadosamente na cadeirinha. — Pronta, princesa? — Pronta! — Giulia respondeu, balançando as pernas para frente e para trás. Miguel fechou a porta com cuidado e então se virou para mim, abrindo a porta do passageiro. — Depois de você — ele disse, com um gesto educado. — Obrigada. Ele fechou a porta e caminhou até o lado do motorista, o motor roncou suavemente, e ele ajustou o retrovisor, olhando brevemente para mim antes de começar a dirigir. — Então, como foi a viagem? — Foi boa, obrigada. — Foi minha primeira vez em um avião, então foi... uma experiência. — Imagino. Mas você parece ter lidado bem com isso. — Tentei — eu admiti, sentindo-me um pouco mais à vontade. — Mas confesso que estava nervosa. — É natural. Eu pensei em continuar a conversa, porém Miguel parecia sério demais para desejar ter qualquer tipo de assunto. Seu semblante se fechou ao focar no transito, então me recolhi e decidi manter a conversa com Giulia, que continou a tagarelar sobre seus desenhos e eu me obriguei a prestar atenção e ignorar o medo. Ele não é meu padrasto...






