Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Acordei de um sono profundo sentindo braços fortes me envolverem com cuidado. Quando abri os olhos, encontrei o olhar escuro de Aiden — ainda mais frio do que da última vez em que o havia visto. Sem dizer uma única palavra, ele me ergueu nos braços e me levou para fora do hospital sob os olhares tensos e respeitosos dos médicos e enfermeiros. Seu corpo irradiava uma tensão sufocante, como se estivesse à beira de perder o controle. Cada passo era firme, decidido, como se continuar caminhando fosse a única maneira de impedir que suas emoções o despedaçassem. Do hospital, seguimos diretamente para a casa principal da alcateia, o lugar reservado ao Supremo Alpha e à sua linhagem. O castelo de pedra cinzenta erguia-se imponente diante de nós, antigo e majestoso, refletindo o peso das tradições que Aiden carregava sobre os ombros. Durante todo o trajeto, ele não disse uma palavra. Seu silêncio era um muro impossível de atravessar. A caminhada pelos corredores da mansão aconteceu envolta em um silêncio pesado. Ele me carregava como se eu fosse feita de vidro. Mas seus olhos... Meu Deus... Seus olhos estavam tão frios, tão fechados para mim, que aquilo doía mais do que qualquer ferimento em meu corpo. Eu sabia. Podia sentir. Ele estava com raiva. Talvez de mim. Talvez por eu ser fraca. Talvez por eu não ser digna dele. Quando atravessamos os enormes portões da mansão, meu peito se apertou. Eu não pertencia àquele lugar. Era a garota que ele havia rejeitado. Uma intrusa carregando o peso da vergonha. As poucas pessoas que cruzaram nosso caminho apenas baixaram a cabeça. Não havia sorrisos. Nem palavras de boas-vindas. Apenas o peso esmagador da tradição... e do respeito. Aiden subiu as escadas comigo nos braços. O som de seus passos ecoava pelos corredores amplos até que ele parou diante de uma pesada porta de madeira. Empurrou-a com o ombro e entrou sem dizer nada. O quarto era enorme, decorado em tons claros e neutros. Havia uma cama grande, impecavelmente arrumada, pronta para me receber. Mas aquele lugar não transmitia calor algum. Apenas um vazio frio e silencioso. Com todo o cuidado, Aiden me colocou sobre a cama, ajeitou o travesseiro sob minha cabeça e imediatamente se afastou, como se até mesmo o simples toque em mim o machucasse. — Descanse. Sua voz era dura. Distante. A voz de um líder dando uma ordem a um soldado ferido. Tentei dizer alguma coisa. Talvez agradecê-lo. Mas a sombra em seus olhos sufocou qualquer palavra antes mesmo que ela deixasse meus lábios. Ele parecia carregar mil guerras dentro de si. Sua mandíbula estava rígida, travada. Sem esperar qualquer resposta, virou-se e saiu do quarto. A porta se fechou atrás dele com um clique suave... E definitivo. Fiquei ali, encarando o teto, lutando contra as lágrimas que insistiam em escapar. **Ele me odeia.** Aquela certeza afundou as garras no meu peito, destruindo o pouco de esperança que ainda restava dentro de mim. E, como se a dor já não fosse suficiente, minha mente trouxe de volta outra lembrança cruel. O dia em que ele me rejeitou. Longe dos olhos da alcateia. A voz fria. O olhar vazio. A sensação de ter sido descartada. De não valer nada. Agora tudo fazia sentido. Eu nunca fui suficiente para ele. Depois disso, o tempo perdeu o significado. Eu dormia e acordava sem saber se era dia ou noite. Sempre que precisava de alguma coisa, algum funcionário aparecia em silêncio para me ajudar. Nunca Aiden. Nunca seus olhos voltados para mim. Minha mente criava fantasias cruéis. Eu o imaginava ao lado de Giovana. Ou de alguma outra loba perfeita, digna de ocupar o lugar ao lado do Supremo Alpha. Imaginava seu olhar cheio de desprezo sempre que pensava em mim. E, bem no fundo da minha alma, uma voz pequena e quebrada continuava sussurrando: **Você nunca foi suficiente.** O que eu não sabia... Era que, durante as longas noites silenciosas, uma sombra permanecia sentada na poltrona ao lado da minha cama, observando cada uma das minhas respirações. Aiden. Ele só aparecia quando acreditava que eu estava profundamente adormecida. Silencioso como a própria noite, sentava-se ali... E apenas me observava. Naqueles momentos, seu olhar já não era frio. Nem distante. Era um olhar partido. Consumido pela dor. Como se cada batida do meu coração fosse uma batalha que ele não soubesse como vencer. Uma única vez consegui vê-lo. Eu estava entre o sono e a vigília quando percebi sua silhueta iluminada pela fraca luz que entrava pela janela. Seu rosto estava escondido entre as mãos. O corpo inteiro tão tenso que parecia sustentar o peso do mundo para impedir que tudo desmoronasse. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa... O cansaço me venceu outra vez. --- Giovana — Ele a levou para a casa principal. Cuspi aquelas palavras cheias de veneno enquanto atravessava os corredores escuros do prédio de treinamento. Kalel já estava ali. Encostado preguiçosamente na parede, de braços cruzados, exibindo a mesma mistura de arrogância e poder silencioso de sempre. Como se já soubesse o que eu iria dizer. Ou simplesmente não se importasse. Ninguém além de nós sabia que ele estava vivo. Para o mundo, Kalel estava morto. O irmão rebelde e perigoso do Supremo Alpha. Enterrado com honras silenciosas... Enquanto a verdadeira ameaça respirava nas sombras, preparando seu retorno. Quando contei a novidade, ele arqueou uma sobrancelha, demonstrando interesse. — Levou? — perguntou, em um tom lento e despreocupado. — Sim. Ela está instalada no quarto que deveria pertencer à futura Luna... Pronunciei a última palavra como se fosse puro veneno... Mas durante o dia ele nem olha para ela. Age como se ela nem existisse. Kalel soltou uma risada baixa e seca. Carregada de sarcasmo. E de diversão cruel. — Aiden nunca soube fingir muito bem — comentou, com os olhos brilhando de uma inteligência perversa. — Ele tenta agir como se ela não significasse nada... mas por dentro está queimando. Se consumindo vivo. Um sorriso lento e maligno surgiu em seus lábios. — E agora... — disse ele, afastando-se da parede com a calma de um predador prestes a atacar — agora eu sei exatamente onde devo atingir para destruir meu querido irmão de uma vez por todas. Seu olhar se perdeu na escuridão do corredor, como se já pudesse enxergar a queda de Aiden escrita nas estrelas. E, pela primeira vez... Um arrepio verdadeiro percorreu meu corpo. Porque Kalel não era o tipo de inimigo que fazia ameaças vazias. Quando ele decidia agir... A morte e o caos sempre vinham logo atrás.






