Capitulo 15

Kalel

A noite tinha caído pesada sobre a floresta do norte.

As árvores gigantes escondiam segredos antigos, e as sombras pareciam ganhar vida própria enquanto deslizavam entre os troncos.

O vento atravessava os galhos sem descanso, frio e cortante, como se anunciasse que algo sombrio estava prestes a acontecer.

E, no meio de toda aquela escuridão...

Eu caminhava.

Vestia roupas negras, e o longo manto arrastava-se pelo caminho coberto de folhas secas.

Meus passos eram calmos.

Precisos.

Eu sabia exatamente para onde estava indo.

Estava prestes a fechar um acordo capaz de mudar o rumo daquela guerra.

Um acordo construído sobre a traição.

No fim da trilha, entre ruínas cobertas de musgo e pedras quebradas pelo tempo, erguia-se o antigo templo dos Arkhadyan.

Anos atrás, aquele lugar havia sido o lar de uma antiga linhagem de vampiros, expulsa do território da alcateia décadas antes.

Uma história que poucos ainda se lembravam.

Antes da guerra...

Lobos e vampiros viviam na mesma terra.

Não eram aliados.

Mas respeitavam seus limites.

Essa paz frágil acabou quando um dos anciões vampiros tentou escravizar os lobos.

Foi então que a Deusa da Lua concedeu um enorme poder a uma família de lobos.

Essa família tornou-se a Linhagem Suprema.

Foi ela quem liderou a batalha que expulsou os vampiros de uma vez por todas.

Subi os degraus rachados do templo e observei tudo ao meu redor.

Eu podia sentir.

Não estava sozinho.

— Eu sei que vocês ainda estão aqui.

Minha voz ecoou entre as ruínas.

— Apareçam.

Por alguns segundos...

Houve apenas silêncio.

Então, pares de olhos brilhantes começaram a surgir entre as colunas destruídas.

Os vampiros me cercaram lentamente.

Mas apenas uma figura deu um passo à frente.

Era alta.

Os cabelos eram negros como a noite.

A pele, branca como neve.

O manto vermelho ondulava atrás dela enquanto caminhava com elegância.

Seus olhos azuis, frios como gelo, prenderam-se aos meus com uma curiosidade perigosa.

— Kalel... o covarde.

O desprezo em sua voz era evidente.

— O lobo que fingiu a própria morte.

Ela cruzou os braços.

— O que você quer desta vez?

Não hesitei.

— Uma aliança.

Ela soltou uma risada baixa.

Aquela era Myrra Arkhadyan.

A última sobrevivente de sua linhagem.

Ela escapara do massacre.

Orgulhosa.

Perigosa.

E alimentava um ódio antigo contra minha espécie.

— Um lobo pedindo ajuda justamente para aqueles que sua família destruiu?

Ela inclinou a cabeça.

— Por que eu deveria sequer ouvir você?

Dei mais um passo em sua direção.

— Nem todos os lobos são meus aliados.

Mantive meu olhar preso ao dela.

— A alcateia segue Aiden... meu irmão.

E Leonel, meu pai, continua preso a um sistema falho.

Respirei fundo antes de continuar.

— Existe uma híbrida ao lado deles.

Aurora.

Ela é o elo mais forte entre os dois.

Se eliminarmos os três...

Todo o resto desmorona.

Vi um brilho de interesse surgir em seus olhos.

— Em troca, ofereço parte do território.

A Floresta Alta voltará a pertencer aos vampiros.

Sem submissão.

Sem acordos.

Vocês terão controle absoluto sobre aquelas terras.

Myrra arqueou uma sobrancelha.

— E por que não faz isso sozinho?

Sorri de canto.

— Porque eles ainda hesitam quando se trata de mim.

E eu não posso desperdiçar essa vantagem.

Olhei para os vampiros atrás dela.

— Mas o seu exército...

Esquecido.

Faminto.

Pronto para atacar.

Voltei a encará-la.

— Estou oferecendo meu sangue em troca da sua vingança.

Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Então perguntou:

— Está disposto a selar esse acordo com sangue?

Sem responder, puxei da cintura uma adaga feita de prata negra.

Passei a lâmina pela palma da minha mão.

Nem sequer pisquei.

O sangue escorreu lentamente.

Myrra fez o mesmo.

Quando nossas mãos se tocaram...

O pacto foi selado.

Soltei sua mão e me virei para partir.

Antes que eu desse o primeiro passo, sua voz voltou a ecoar atrás de mim.

— E a mulher que está ao seu lado?

Continuei caminhando.

— Giovana.

Ela é quem está tentando envenenar Aurora, não é?

Não olhei para trás.

— Ela não sabe.

Nem vai saber.

Ouvi uma risada baixa.

Satisfeita.

— Como desejar.

Continuei caminhando até desaparecer entre as sombras da floresta.

Para trás, deixei o sangue derramado.

E um novo aliado disposto a iniciar um massacre.

A guerra estava apenas começando.

E Aurora...

Agora uma híbrida poderosa...

Era o principal alvo.

Enquanto Giovana ainda acreditava na minha lealdade...

Eu já havia fechado um acordo muito mais perigoso.

Em segredo.

A escuridão estava se espalhando.

E, quando tudo acabasse...

Ninguém sairia dessa guerra sem cicatrizes.

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