Mundo de ficçãoIniciar sessãoKalel
A noite tinha caído pesada sobre a floresta do norte. As árvores gigantes escondiam segredos antigos, e as sombras pareciam ganhar vida própria enquanto deslizavam entre os troncos. O vento atravessava os galhos sem descanso, frio e cortante, como se anunciasse que algo sombrio estava prestes a acontecer. E, no meio de toda aquela escuridão... Eu caminhava. Vestia roupas negras, e o longo manto arrastava-se pelo caminho coberto de folhas secas. Meus passos eram calmos. Precisos. Eu sabia exatamente para onde estava indo. Estava prestes a fechar um acordo capaz de mudar o rumo daquela guerra. Um acordo construído sobre a traição. No fim da trilha, entre ruínas cobertas de musgo e pedras quebradas pelo tempo, erguia-se o antigo templo dos Arkhadyan. Anos atrás, aquele lugar havia sido o lar de uma antiga linhagem de vampiros, expulsa do território da alcateia décadas antes. Uma história que poucos ainda se lembravam. Antes da guerra... Lobos e vampiros viviam na mesma terra. Não eram aliados. Mas respeitavam seus limites. Essa paz frágil acabou quando um dos anciões vampiros tentou escravizar os lobos. Foi então que a Deusa da Lua concedeu um enorme poder a uma família de lobos. Essa família tornou-se a Linhagem Suprema. Foi ela quem liderou a batalha que expulsou os vampiros de uma vez por todas. Subi os degraus rachados do templo e observei tudo ao meu redor. Eu podia sentir. Não estava sozinho. — Eu sei que vocês ainda estão aqui. Minha voz ecoou entre as ruínas. — Apareçam. Por alguns segundos... Houve apenas silêncio. Então, pares de olhos brilhantes começaram a surgir entre as colunas destruídas. Os vampiros me cercaram lentamente. Mas apenas uma figura deu um passo à frente. Era alta. Os cabelos eram negros como a noite. A pele, branca como neve. O manto vermelho ondulava atrás dela enquanto caminhava com elegância. Seus olhos azuis, frios como gelo, prenderam-se aos meus com uma curiosidade perigosa. — Kalel... o covarde. O desprezo em sua voz era evidente. — O lobo que fingiu a própria morte. Ela cruzou os braços. — O que você quer desta vez? Não hesitei. — Uma aliança. Ela soltou uma risada baixa. Aquela era Myrra Arkhadyan. A última sobrevivente de sua linhagem. Ela escapara do massacre. Orgulhosa. Perigosa. E alimentava um ódio antigo contra minha espécie. — Um lobo pedindo ajuda justamente para aqueles que sua família destruiu? Ela inclinou a cabeça. — Por que eu deveria sequer ouvir você? Dei mais um passo em sua direção. — Nem todos os lobos são meus aliados. Mantive meu olhar preso ao dela. — A alcateia segue Aiden... meu irmão. E Leonel, meu pai, continua preso a um sistema falho. Respirei fundo antes de continuar. — Existe uma híbrida ao lado deles. Aurora. Ela é o elo mais forte entre os dois. Se eliminarmos os três... Todo o resto desmorona. Vi um brilho de interesse surgir em seus olhos. — Em troca, ofereço parte do território. A Floresta Alta voltará a pertencer aos vampiros. Sem submissão. Sem acordos. Vocês terão controle absoluto sobre aquelas terras. Myrra arqueou uma sobrancelha. — E por que não faz isso sozinho? Sorri de canto. — Porque eles ainda hesitam quando se trata de mim. E eu não posso desperdiçar essa vantagem. Olhei para os vampiros atrás dela. — Mas o seu exército... Esquecido. Faminto. Pronto para atacar. Voltei a encará-la. — Estou oferecendo meu sangue em troca da sua vingança. Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes. Então perguntou: — Está disposto a selar esse acordo com sangue? Sem responder, puxei da cintura uma adaga feita de prata negra. Passei a lâmina pela palma da minha mão. Nem sequer pisquei. O sangue escorreu lentamente. Myrra fez o mesmo. Quando nossas mãos se tocaram... O pacto foi selado. Soltei sua mão e me virei para partir. Antes que eu desse o primeiro passo, sua voz voltou a ecoar atrás de mim. — E a mulher que está ao seu lado? Continuei caminhando. — Giovana. Ela é quem está tentando envenenar Aurora, não é? Não olhei para trás. — Ela não sabe. Nem vai saber. Ouvi uma risada baixa. Satisfeita. — Como desejar. Continuei caminhando até desaparecer entre as sombras da floresta. Para trás, deixei o sangue derramado. E um novo aliado disposto a iniciar um massacre. A guerra estava apenas começando. E Aurora... Agora uma híbrida poderosa... Era o principal alvo. Enquanto Giovana ainda acreditava na minha lealdade... Eu já havia fechado um acordo muito mais perigoso. Em segredo. A escuridão estava se espalhando. E, quando tudo acabasse... Ninguém sairia dessa guerra sem cicatrizes.






