Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Já fazia dois dias desde que eu havia sido levada para o castelo do Supremo. Dois dias de silêncio, confusão e uma dor que eu escondia de todos. Meu corpo se recuperava lentamente do ataque, mas as feridas da minha alma eram muito mais profundas do que qualquer machucado visível. Depois do que aconteceu fora da alcateia — naquela noite terrível em que tudo desmoronou — Aiden me trouxe para cá, para o castelo que sempre pertenceu apenas à família do Supremo. Para mim, aquele lugar parecia outro mundo. Frio. Distante. O castelo era enorme, imponente, com corredores largos e gelados que não lembravam em nada a casa simples e aconchegante onde cresci. No coração do território da alcateia, nosso pequeno lar sempre foi cheio de amor. Aquilo... Aquilo parecia uma linda prisão. Eu sempre pertenci à alcateia. Sempre. Mas nunca havia vivido sob o teto do Supremo. E isso ficava evidente. Durante aqueles dois dias, quase não vi ninguém. Apenas alguns funcionários discretos que abaixavam a cabeça respeitosamente sempre que cruzavam comigo, como se eu fosse alguém importante. Mas eu não me sentia importante. Eu me sentia perdida. Sozinha. Inquieta, comecei a caminhar pelos intermináveis corredores, procurando algum lugar onde pudesse respirar em paz. Foi então que ouvi vozes. Vozes baixas, sérias, vindas de uma porta que estava entreaberta. Parei imediatamente. Era Aiden. E Victor. Movida pela curiosidade — e por um certo receio — aproximei-me apenas o suficiente para conseguir ouvir. — Houve outro ataque contra a alcateia — disse Aiden, com a voz baixa e carregada por uma raiva que mal conseguia conter. — Desta vez... eles deixaram uma marca. — Que marca? — perguntou Victor, cauteloso. O silêncio se instalou. Então Aiden voltou a falar. Sua voz estava mais pesada. Mais sombria. — Eu a reconheci. Outra pausa. — É a marca dele. Meu estômago se revirou. Dele? Quem? Então veio a resposta. — É a marca de Kalel. Meu coração disparou. Kalel? O irmão de Aiden? Aquele nome era quase proibido. Um fantasma sussurrado apenas em conversas discretas. Tudo o que eu sabia eram pedaços de histórias, meias verdades e avisos. Todos acreditavam que Kalel estava morto. — Kalel está vivo? — Victor perguntou, completamente chocado. — Tem certeza? Aiden não hesitou. — Eu senti. Eu vi. É ele. Victor respirou fundo, claramente abalado. — Então... quer que eu esconda Aurora? Que a mantenha protegida? Meu coração falhou uma batida. Me esconder? Como se eu fosse um segredo? O silêncio voltou a dominar o ambiente. Pesado. Sufocante. Imaginei Aiden lutando contra algo dentro de si. Algo que parecia impossível colocar em palavras. Então ele falou. E sua voz soou quebrada de uma maneira que eu jamais havia ouvido. — Não. Outra pausa. — Eu não consigo mais ficar longe dela. Sua respiração vacilou antes de completar: — Nem mesmo para protegê-la. Aquelas palavras cortaram o ar. Cruas. Dolorosas. Como se também estivessem sangrando. Cambaleei para trás, completamente atordoada. Todo esse tempo... Eu pensei que ele tivesse me rejeitado porque não me queria. Porque eu não era suficiente. Porque nunca seria. Jamais imaginei que ele também estivesse sofrendo. Enquanto recuava, meu cotovelo esbarrou em uma pequena mesa ao lado da porta. Um vaso caiu. E se despedaçou no chão. O estrondo ecoou pelo corredor como um trovão. A porta do escritório se abriu imediatamente. E então eu o vi. Aiden. Seus olhos encontraram os meus. E todo o resto deixou de existir. Ele me olhava como se eu fosse algo extremamente frágil. Como se já tivesse me perdido uma vez... E não suportasse a ideia de me perder novamente. E eu... Eu apenas permaneci ali, imóvel. Afundando em tudo o que ainda não conseguia compreender. A rejeição. A dor. A solidão. Todas as lágrimas que derramei acreditando que ele simplesmente não me queria. Sem dizer uma única palavra, Aiden deu um passo em minha direção. Mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer, uma nova voz rompeu o silêncio. — Aurora! Minha mãe. Ela veio correndo pelo corredor, os cabelos desalinhados e os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. — Aurora... minha filha... — soluçou, envolvendo-me em um abraço apertado. — Eu pensei que tivesse perdido você... Agarrei-me a ela com toda a força que tinha, permitindo que as lágrimas que eu vinha segurando finalmente caíssem. Por um instante... Éramos apenas nós duas. Eu... E minha mãe. Era como voltar para casa. Atrás de nós, Aiden permaneceu parado. Em silêncio. E foi nos braços da minha mãe que percebi que, por mais que tentasse negar... Meu coração ainda se partia por ele. Pelo garoto que me afastou para me proteger. E pelo homem que já não conseguia mais me deixar partir.






