Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Depois da conversa na biblioteca, fiquei sozinha por alguns minutos, mesmo depois que Aiden foi embora. As palavras dele ainda ecoavam dentro do meu peito. "Eu vou proteger você, aconteça o que acontecer." Havia tanta firmeza em sua voz que aquilo me abalou mais do que eu gostaria de admitir. Conversamos mais um pouco antes de cada um seguir para o próprio quarto. Apesar de tudo o que havia acontecido entre nós, ainda não dividíamos a mesma cama. Eu ainda não havia sido oficialmente apresentada como Luna. As pessoas comentavam. Sussurravam pelos corredores quando eu passava. Mas ninguém dizia nada na minha frente. Era como viver presa entre o quase e o talvez. Fechei a porta do meu quarto e comecei a me preparar para dormir. Diante do espelho, retirei a maquiagem devagar, passando o algodão delicadamente sobre a pele. Observei meu próprio reflexo, tentando reconhecer quem eu era agora. Foi então que as lembranças voltaram. Como um sussurro. Como um arrepio percorrendo minha espinha. A noite do acidente. O gosto do álcool ainda parecia vivo na minha boca. A tontura. Os faróis de um carro vindo na minha direção. O mundo girando. Os sons abafados, como se eu estivesse debaixo d'água. Então... O impacto. Violento. Brusco. Meu corpo sendo lançado para trás. O ar escapando dos meus pulmões. Engoli em seco. Apoiei as duas mãos na pia e respirei fundo. Acabou, tentei convencer a mim mesma. Já passou. Três batidas suaves na porta interromperam meus pensamentos. — Senhorita Aurora? — reconheci a voz delicada de Lia, uma das empregadas do castelo. — Vim trazer água para a senhora. Abri a porta e sorri ao vê-la. Sempre gostei de Lia. Ela tinha um jeito gentil. Natural. Nunca parecia estar fingindo simpatia. Ela entrou carregando uma bandeja com uma jarra de vidro e um copo. — Vou deixar aqui no criado-mudo. — disse, caminhando até a cama. Sentei-me na beirada do colchão. — Obrigada, Lia. Ela fez um pequeno aceno, mas demorou alguns segundos antes de sair. — Como foi seu dia? — perguntei, tentando manter uma conversa leve e afastar os fantasmas que insistiam em voltar. Ela sorriu. — Corrido, como sempre. Mas tudo parece mais leve desde que você chegou ao castelo. Sorri de volta. Peguei o copo e servi um pouco de água. Minha garganta estava seca. Bebi devagar enquanto Lia organizava a bandeja. — Espero que tenha uma boa noite de descanso, senhorita. Ela já caminhava em direção à porta. — Pode me chamar só de Aurora. Ela sorriu outra vez. — Claro. Fez um pequeno aceno com a cabeça. — Boa noite, Aurora. Assim que a porta se fechou, permaneci sentada por alguns instantes, observando o copo entre minhas mãos. Depois o coloquei novamente sobre o criado-mudo. --- Do lado de fora do quarto... Lia caminhava pelos corredores escuros do castelo. Seus passos eram silenciosos sobre os tapetes. Os olhos permaneciam baixos. Mas sua mente estava longe dali. Ela se lembrava perfeitamente do momento em que Giovana a procurou. Da maneira calma como havia falado. Calma demais para a proposta que estava fazendo. — É um veneno de ação lenta. A voz de Giovana ainda ecoava em sua memória. — Ninguém vai desconfiar. Ela vai enfraquecendo aos poucos. Basta colocar uma dose na água dela todos os dias. Não vai causar dor imediata. Não fará barulho. E ninguém jamais vai descobrir que foi você. Um arrepio percorreu o corpo de Lia. Mesmo assim... Ela não hesitou. Pensou na irmã doente. Na promessa que Giovana havia feito. Ela não queria machucar Aurora. Nunca quis. Mas queria salvar a única pessoa que ainda tinha na vida. E, naquela noite... Assim como nas noites anteriores... O veneno já estava dissolvido no copo de água que eu havia acabado de beber.






