Capitulo 20

Giovana e Lia

A cozinha do castelo estava mergulhada em silêncio.

O único som que quebrava a calmaria era o leve tilintar das colheres contra as xícaras de porcelana.

Eu, Lia, caminhava com cuidado entre as bancadas, preparando a infusão de ervas que, dia após dia, servia para Aurora.

Além do chá, eu também colocava a mistura na jarra de água que Aurora costumava beber todas as noites antes de dormir.

O chá para acalmar a alma.

A água para trazer a destruição.

Meus dedos tremiam enquanto trabalhava.

Eu tentava esconder, mas a culpa consumia meus pensamentos.

Ainda assim, toda vez que eu hesitava, a imagem do rosto pálido e frágil de Amelia surgia diante de meus olhos.

Minha irmã...

O motivo de tudo...

Amelia tinha apenas oito anos.

Os grandes olhos expressivos eram a única coisa que ainda conservava algum brilho em seu rosto marcado pela doença.

O câncer tinha sido diagnosticado um ano antes.

Desde então, eu vivia em um estado permanente de desespero.

Tudo começou com dores nas pernas.

Depois vieram hematomas sem explicação.

Desmaios repentinos.

Até que o diagnóstico destruiu completamente sua vida.

As noites sem dormir se tornaram rotina.

Eu permanecia ao lado da pequena Amelia, vendo minha irmã definhar em uma cama simples e fria.

Na noite anterior...

O pesadelo tinha sido ainda pior.

Amelia vomitou sangue.

Seus lábios estavam rachados.

Os olhos sem brilho.

Desesperada, tentei conter o sangramento com panos velhos enquanto repetia, entre lágrimas, que tudo ficaria bem.

Foi justamente naquele momento de maior desespero que Giovana apareceu.

Com promessas.

Tratamentos caros.

Médicos renomados.

Os melhores cuidados possíveis.

Tudo em troca de um único favor.

Envenenar Aurora.

Pouco a pouco.

No início, recusei imediatamente. A simples ideia me horrorizava. Aurora sempre havia sido gentil com comigo.

Mas Amelia piorou.

E o medo de perder minha irmã acabou falando mais alto.

Giovana foi clara.

Cada gota daquele veneno significaria mais alguns dias de vida para Amelia.

E foi por isso que eu aceitei.

Mesmo sentindo o peso de cada gota que misturava no chá e na água de Aurora.

---

Naquela manhã, enquanto preparava mais uma xícara de chá, suas mãos voltaram a tremer.

A cada dia...

Aurora parecia mais fraca.

Mais pálida.

Como se a própria vida estivesse sendo arrancada de seu corpo lentamente.

A porta da cozinha se abriu.

Antes mesmo do som dos passos ecoar pelo piso de pedra, o perfume marcante de Giovana tomou conta do ambiente.

— Lia...

Ela sorriu de forma fina e calculista.

— Como está nossa querida Aurora?

Enxuguei as mãos no avental, tentando esconder o tremor.

— Ela... ela está bem.

Respirou fundo.

— Acho que está melhorando.

Sua voz vacilou na última palavra.

Prendi a respiração, aguardando a reação de Giovana e arqueou uma sobrancelha.

— Melhorando?

Seu olhar percorreu lentamente o rosto o meu. Como se procurasse algum sinal de mentira.

— Tem certeza?

Engoli em seco.

— Sim...

Fez uma breve pausa.

— Da última vez que a vi, ela parecia estar reagindo ao chá.

Não era exatamente uma mentira.

Aurora continuava fraca. Pálida. Quase uma sombra do que costumava ser.

Giovana sorriu satisfeita.

Aproximou-se da bancada e, sem pedir permissão, pegou a xícara preparada para Aurora.

Levou-a aos lábios e bebeu um gole generoso.

Meus olhos se arregalaram.

Instintivamente, estendi a mão para impedir, mas parou no meio do movimento.

— O que está fazendo?

Minha voz saiu aflita.

— Esse chá é da...

Giovana a interrompeu com um simples gesto da mão.

— Da Aurora.

Eu sei.

Sorriu novamente.

— Só queria provar o que você anda servindo para ela.

Colocou a xícara de volta sobre a bancada.

Como se nada tivesse acontecido.

Respirei fundo, precisava de coragem.

— E... o tratamento da Amelia?

Minha voz falhou.

— Ela não tem muito tempo, Giovana.

Meus olhos se encheram de lágrimas.

— Se isso continuar...

Ela...

A frase morreu em sua garganta.

Mesmo assim, reuni forças para continuar.

— Eu preciso saber se o tratamento vai realmente começar. Porque, se não começar... Eu não vou fazer mais nada.

Giovana permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Seus olhos frios me analisavam como se estivessem avaliando sua utilidade.

Então abriu lentamente a bolsa de couro que carregava.

Retirou uma folha de papel.

E uma caneta dourada.

Escreveu um nome.

Depois um número de telefone.

Entregou o papel para mim.

— Aqui.

Sua voz permaneceu calma.

— Esse é o contato de um médico muito respeitado. A consulta... E o início do tratamento... Já estão pagos.

As minhas mãos começaram a tremer ainda mais.

As lágrimas finalmente escorreram.

— Está falando sério?

Minha voz saiu quase sem forças.

— A Amelia... Ela vai receber o tratamento?

Giovana sorriu.

Fria.

— Eu não costumo brincar com assuntos importantes, Lia.

Depois seu sorriso desapareceu.

— Mas guarde uma coisa na sua cabeça. Se Aurora se recuperar... Amelia não terá a mesma sorte.

Sua voz ficou ainda mais gelada.

— Não existe espaço para erros.

Ela sustentou o meu olhar por mais alguns segundos.

Depois virou as costas.

E saiu da cozinha.

---

Assim que fiquei sozinha, desabei na cadeira mais próxima.

Permaneci olhando fixamente para o papel amassado entre seus dedos.

A culpa queimava dentro do peito, mas a lembrança de Amelia... pálida, frágil, segurando minha mão enquanto implorava para não morrer...

Era forte demais.

Eu precisava salvar minha irmã, mesmo que, para isso... precisasse destruir Aurora aos poucos.

O que eu não sabia era que Aurora não estava tão debilitada quanto imaginava.

A proteção do Supremo já começava a perceber que havia algo errado.

E a Luna encontrava, dentro de si, uma força sobrenatural para resistir ao mal que Giovana tinha colocado em seu caminho.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
capítulo anteriorpróximo capítulo
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App