Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Desde que precisei me afastar da minha família por questões de segurança, Lia se tornou uma presença constante e acolhedora na minha vida. A jovem empregada estava sempre por perto, oferecendo conforto nos pequenos gestos e, aos poucos, uma amizade sincera nasceu entre nós. Ela costumava falar com muito carinho da irmã, Amelia. Uma menina doce, alegre e cheia de vida, que lutava contra um câncer agressivo. Sempre que Lia mencionava a irmã, a dor em seus olhos era impossível de esconder. E meu coração apertava por ela. Prometi que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudar. Ela sempre agradecia com um sorriso triste. Com o passar dos dias, passei a confiar em Lia muito mais do que imaginei que confiaria. Meus estranhos episódios de mal-estar, que só pioravam, acabaram se tornando assunto constante entre nós. Uma fraqueza inexplicável consumia meu corpo pouco a pouco. Sempre muito atenciosa, Lia preparava chás especiais para mim. Dizia que sua avó conhecia receitas antigas capazes de aliviar dores e fortalecer o espírito. Eu aceitava com gratidão. Jamais imaginei que aquilo despertaria a inquietação de Lira. — Você não confia nela? — perguntei mentalmente, enquanto tomava mais um gole do chá quente que Lia havia preparado. Lira demorou alguns segundos para responder. Sua voz surgiu como um sussurro cheio de desconfiança. — Eu não sinto uma ameaça... mas existe alguma coisa errada. Só não consigo dizer o quê. Dei de ombros. — Talvez seja apenas preocupação. Lia tem sido uma amiga maravilhosa. Lira permaneceu em silêncio. Atenta. Como se estivesse esperando algo acontecer, mesmo sem conseguir explicar o motivo. Numa manhã aparentemente comum, depois de mais uma noite mal dormida, Lia entrou no meu quarto carregando a bandeja com o chá de sempre. Enquanto colocava a xícara sobre a mesa, sorriu. — Tem certeza de que você não está grávida? Olhei para ela surpresa. Ela deu uma risadinha. — Esses sintomas... minha irmã teve algo parecido no começo da gravidez. Acabei rindo também. Balancei a cabeça. — Não... definitivamente não. Suspirei. — Acho que é só estresse. Lia concordou com um aceno. Mas, dentro de mim, Lira soltou um rosnado baixo. Incomodada. Ignorei aquela sensação estranha e continuei meu dia normalmente. Os dias passaram. E a rotina permaneceu exatamente igual. Os chás. As conversas rápidas com Lia. E aquela fadiga constante. Até que, certa noite... Acordei assustada. Meu corpo estava coberto por suor frio. Minha respiração saía irregular. Ofegante. Lira despertou imediatamente dentro de mim. Agitada. Como se sentisse um perigo invisível. — O que está acontecendo? — murmurei, tentando fazer minha visão voltar ao normal. A voz de Lira soou fraca. Confusa. — Eu... não sei. Ela fez uma pausa. — Sinto você ficando cada vez mais fraca. Alguma coisa está errada. Nossa ligação parecia diferente. Como se estivesse falhando. — Eu também estou fraca, Aurora. Sua voz quase desapareceu. — Não consigo entender o que está acontecendo. Levantei da cama com dificuldade. Meus pés descalços tocaram o chão gelado. A luz da lua atravessava as cortinas, iluminando minha pele pálida refletida no espelho. O quarto girou por um instante. Fechei os olhos. Respirei fundo. Consegui recuperar o equilíbrio e voltei para a cama, tentando afastar os pensamentos sombrios. Mas, ao final daquele mesmo dia... Depois de mais uma xícara do chá preparado por Lia... Os sintomas pioraram. A tontura veio acompanhada de uma leve náusea. Meu corpo parecia completamente sem forças. Lira tentou me acalmar. — Talvez seja apenas o estresse... Sua voz era suave. — Tudo é muito novo. Talvez seu corpo ainda esteja se adaptando. Eu sabia. Ela tentava me convencer. Mas também tentava convencer a si mesma. Mesmo assim... Alguma coisa dentro de mim dizia que havia muito mais por trás daquela fraqueza. --- Aiden Os corredores do castelo permaneciam mergulhados em um silêncio profundo enquanto eu caminhava pelos degraus de pedra. A luz das tochas fazia as sombras dançarem pelas paredes antigas. O amanhecer mal começava. E o peso de todas as responsabilidades parecia esmagar meus ombros. Eu não conseguia dormir. Kalel ocupava meus pensamentos o tempo inteiro. Cada novo acontecimento me mantinha em constante estado de alerta. Ao virar um dos corredores que levava aos aposentos principais, avistei uma figura caminhando lentamente. Aurora. Ela mal conseguia andar. Cada passo parecia exigir um esforço enorme. Seus cabelos caíam soltos sobre os ombros. Sua pele... Normalmente cheia de vida... Estava assustadoramente pálida sob a luz fraca das tochas. — Aurora? Minha voz saiu carregada de preocupação. Aproximei-me rapidamente, alcançando-a antes que ela percebesse minha presença. Ela levantou os olhos para mim. Foi então que vi. O cansaço estampado em seu rosto. Por um breve instante, uma expressão de dor atravessou seus olhos. Mas ela piscou rapidamente, tentando escondê-la. — Aiden... Sua voz saiu quase como um sussurro. Fraca. — Eu estava indo até a cozinha buscar um pouco de água. Ela tentou sorrir. — Não queria incomodar ninguém. Franzi a testa imediatamente. Apoiei uma das mãos em seu ombro com delicadeza. — Você não está bem. Observei seu rosto atentamente. — Está pálida... E tremendo. Minha preocupação já era impossível de esconder. Aurora tentou sorrir outra vez. Mas o esforço apenas a fez parecer ainda mais cansada. — Deve ser só exaustão... Nada com que se preocupar. Mas eu não acreditei. Lucien se agitou dentro de mim. Inquieto. Ao mesmo tempo, o vínculo entre nós pulsou de maneira estranha. Como um aviso. Algo que eu simplesmente não podia ignorar. — Não. Minha voz saiu firme. Olhei diretamente em seus olhos. — Nós vamos ver Maelis. Agora. Aurora arregalou os olhos. Surpresa com minha determinação. — Agora? Ela olhou pela janela. — Ainda está muito cedo... Fez uma pequena pausa. — Quem é Maelis? Balancei a cabeça. — Isso não importa agora. Segurei sua mão. Meus dedos envolveram os dela num gesto protetor. — Não vou correr nenhum risco. Respirei fundo. — Tem alguma coisa errada. Eu consigo sentir. Ela abriu a boca para argumentar. Mas bastou olhar para minha expressão para desistir. No fim, apenas assentiu. O cansaço era maior do que qualquer vontade de discutir. Seguimos juntos pelos corredores do castelo. O silêncio era interrompido apenas pelo som dos nossos passos. Mantive todos os meus sentidos em alerta. Lucien continuava inquieto. A cada passo que dávamos... Minha certeza só aumentava. Alguma coisa muito pior estava acontecendo. Depois de alguns minutos, Aurora quebrou o silêncio. — Quem é Maelis? Sua voz saiu baixa. Curiosa. — Nunca ouvi falar dela. Olhei rapidamente para ela antes de responder. — Maelis é a curandeira da minha família. Continuamos caminhando. — Ela vive isolada, cuidando de antigos rituais e preparando remédios naturais. Respirei fundo. — Poucas pessoas a conhecem. Mas minha família confia nela há gerações. Aurora apenas assentiu. Mesmo assim, seu rosto continuava marcado pelo cansaço. Ela queria acreditar em mim. Mas era evidente que ainda tentava entender se aquilo era apenas uma doença... Ou algo muito mais sombrio. Quando chegamos à cabana de Maelis, parei diante da porta. Voltei-me para Aurora. — Fique tranquila. Segurei sua mão mais uma vez. — Maelis é de confiança. Ela não vai machucar você. Aurora apenas fez um pequeno aceno. Mas eu podia sentir sua ansiedade através do nosso vínculo. Ela não estava acostumada a se sentir vulnerável. E aquilo a incomodava muito mais do que deixava transparecer. Bati levemente na porta. Poucos segundos depois, uma voz calma e firme respondeu do outro lado. — Entrem. Empurrei a porta devagar. A cabana era iluminada apenas pela luz das velas. Maelis estava sentada diante de uma mesa coberta por frascos, ervas secas e pequenos recipientes de madeira. Mesmo antes de dizer qualquer palavra... Seu olhar parecia já saber exatamente o que estava acontecendo.






