Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora
Na manhã seguinte, acordei com a cabeça pesada. Não era exatamente uma dor... Era como se alguma coisa estivesse drenando minhas forças aos poucos. Espreguicei-me debaixo das cobertas, tentando ignorar a leve tontura que insistia em me acompanhar. Talvez fosse apenas o estresse. Ou uma noite mal dormida. Sentei-me devagar e caminhei até a janela. Afastei as cortinas e observei o céu. O sol lutava para atravessar as nuvens carregadas, espalhando uma luz cinzenta sobre toda a paisagem. Respirei fundo. A claridade ajudava. Acalmava um pouco a inquietação que eu carregava desde que Kalel voltou a ser uma ameaça real. Depois de me vestir com calma, desci para o salão principal. Aiden já havia saído. Provavelmente estava reunido com Victor e os outros Betas. Enquanto caminhava pelos corredores, percebi alguns olhares voltados para mim. Alguns curiosos. Outros respeitosos. E alguns... Cheios de cautela. Como sempre. Sentei-me para tomar café da manhã sozinha. Enquanto comia, ouvi passos suaves se aproximando. Levantei os olhos. Era Lia. Como sempre, carregava aquela expressão gentil e discreta. — Dormiu bem, Aurora? — perguntou com delicadeza. Pensei por um instante antes de responder. — Tive um pouco de dificuldade para dormir... mas sim. Obrigada por perguntar. Ela sorriu de leve enquanto começava a recolher a bandeja. — Mais tarde posso preparar um chá para você, se quiser. Minha avó fazia uma receita que ajuda a acalmar o corpo e a mente. Sorri. — Eu adoraria. Inclinei um pouco a cabeça. — Quero experimentar um dos chás da sua avó. Ela assentiu. Foi então que percebi algo estranho. Lia parecia cansada. Muito mais do que de costume. Seu rosto estava pálido. Havia algo diferente nela. Como se suas forças também estivessem desaparecendo aos poucos. Observei enquanto ela se afastava. Uma sensação estranha tomou conta do meu estômago. Talvez fosse apenas a lembrança do acidente tentando voltar. Ou talvez... Fosse outra coisa. --- Mais tarde, subi para o meu quarto. Passei algum tempo na biblioteca tentando distrair a mente. Os livros normalmente conseguiam me acalmar. Mas naquele dia... Nem eles conseguiam prender minha atenção. Algum tempo depois, Lia apareceu novamente. Trazia uma bandeja com o chá que havia prometido. — Espero que goste. Sorri para ela. — Obrigada, Lia. Ela permaneceu parada por alguns segundos. Em silêncio. Parecia querer dizer alguma coisa. Mas desistiu. Apenas fez um pequeno aceno e saiu. Assim que a porta se fechou... O silêncio pareceu ainda mais pesado. Meus olhos pararam sobre a xícara. Alguma coisa não estava certa. Eu podia sentir. Mesmo assim... Levei o chá até os lábios e dei um pequeno gole. Não podia deixar que a paranoia tomasse conta de mim. Aiden precisava que eu permanecesse forte. E eu também precisava. Mas meu próprio corpo... Começava a me trair. Respirei fundo. Depois caminhei até a escrivaninha. Peguei uma folha de papel e uma pena. Comecei a escrever uma carta que nunca pretendia enviar. Era apenas uma forma de organizar meus pensamentos. Uma conversa comigo mesma. E, de certa forma... Uma conversa com a Deusa da Lua. "Se eu cair... que seja lutando. "Que a luz que a Senhora colocou dentro de mim... mesmo que eu nunca tenha entendido o motivo... permaneça acesa pelo tempo necessário para cumprir aquilo para o qual nasceu." --- Do lado de fora do quarto... Lia permaneceu parada no corredor. A bandeja vazia ainda tremia levemente entre suas mãos. Seu coração batia mais rápido do que o normal. Havia alguma coisa em Aurora... Algo que fazia sua consciência pesar. Algo que despertava culpa. Mesmo sem que Aurora jamais tivesse lhe feito mal. E agora... Ela também sentia. O corpo fraco. A mente confusa. Não entendia o motivo. Não estava doente. Pelo menos... Era o que acreditava. Mas alguma coisa estava errada. O acordo já havia sido feito. E Giovana cobraria o preço prometido. Lia fechou os olhos por um instante. Em um sussurro quase inaudível, pediu perdão. Depois continuou caminhando pelos corredores do castelo. Tentando engolir o peso da escolha que havia feito. O veneno estava funcionando. E ninguém... Nem mesmo eu... Imaginava o preço que aquilo ainda cobraria. --- — O plano começou. Giovana girava lentamente a taça de vinho entre os dedos. Sua voz era fria. Calculista. — Lia está fazendo exatamente o que combinamos. Aurora vai morrer... e ninguém vai desconfiar de nada. Um sorriso cruel surgiu em seus lábios. — Vai parecer apenas uma doença estranha... uma fraqueza que vai consumi-la aos poucos. Kalel permanecia sentado à sua frente. Em silêncio. Seu olhar estava perdido nas chamas da lareira. A taça de vinho permanecia esquecida em sua mão. Ela tremia levemente. Giovana franziu a testa. — Você está me ouvindo? Kalel piscou devagar. Como se estivesse despertando de um transe. — Sim... Sua voz saiu distante. — Eu ouvi. Mas não era verdade. Sua mente já estava muito longe dali. E, embora permanecesse em silêncio... Alguma coisa dentro dele começava a mudar. Algo muito mais pesado... Do que qualquer aliança que tivesse feito.






