Eu já tinha tomado dois copos de champanhe e, embora não estivesse nem perto de ficar tonta, a leve vibração do avião começou a incomodar um pouco minha barriga. Talvez fosse ansiedade, talvez fosse fome disfarçada de turbulência; difícil dizer. Levantei da poltrona, ajeitei o sobretudo branco que estava sobre minhas pernas e caminhei em direção ao banheiro elegante da primeira classe. Pelo menos, elegante para os padrões de avião—mármore fake, luz amarelada aconchegante, aquele perfume caro de ambiente que eu duvido muito que fosse realmente caro. Lavei o rosto, respirei fundo e me olhei no espelho. Talvez eu estivesse só cansada da viagem, do país que deixava pra trás, da vida que eu estava tentando reorganizar. Ou talvez fosse aquele olhar dele, insistente, que mexia em algum lugar que deveria estar adormecido. Mordi o lábio, ajeitei o coque solto, respirei fundo e abri a porta. Assim que dei o primeiro passo para fora, o avião tremeu. Desta vez, bem mais forte do que antes.
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