Mundo ficciónIniciar sesiónO silêncio à mesa não era educado, era calculado. Pesado o suficiente para ser sentido no ar, como se cada pessoa ali estivesse esperando o momento exato em que tudo iria desmoronar. Eu mantinha a postura ereta, os cotovelos afastados do corpo, as mãos próximas ao prato — perfeitamente controlado por fora, mas atento a cada detalhe ao redor.
Ambientes como aquele nunca foram sobre aparência. Eram sobre leitura. Sobre sobrevivência.
E, naquele momento, algo estava errado.
Lis já não estava mais ali — não de verdade. Eu percebi isso antes mesmo de ela se levantar. Foi na forma como o olhar dela mudou, na maneira como os músculos do rosto relaxaram ao mesmo tempo em que os olhos ficaram mais frios. Aquilo não era perda de controle. Era o oposto.
Era alguém assumindo o controle.
Quando ela se levantou e saiu da sala, sem pedir permissão, sem sequer olhar para trás, ficou claro que aquilo não tinha acabado.
Aquilo tinha começado.
Eu permaneci alguns segundos olhando para a porta fechada, como se meu corpo ainda estivesse tentando acompanhar o rastro que ela deixou. A energia dela ainda parecia ali, vibrando no ambiente.
— Sente-se, Angelo.
A voz de Riccardo cortou o momento como uma lâmina limpa.
Voltei lentamente à realidade e me sentei novamente, sem desviar os olhos dele. Riccardo não parecia irritado, nem constrangido, nem surpreso. Se havia alguma emoção ali, estava enterrada sob camadas e camadas de controle.
Aquilo me incomodou mais do que qualquer explosão teria incomodado.
— Peço desculpas pela cena — disse ele, limpando as mãos com o guardanapo com uma calma quase irritante. — Minha filha às vezes esquece o lugar que ocupa.
Eu o encarei por alguns segundos antes de responder.
— Não me pareceu que ela esqueceu alguma coisa.
Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca dele, como se tivesse acabado de confirmar algo.
— Interessante.
Alana permaneceu em silêncio, mas sua expressão havia mudado. O olhar dela estava fixo na mesa, distante, como se já previsse o que estava por vir.
O celular vibrando sobre a mesa interrompeu qualquer continuação. O som foi baixo, mas naquele silêncio parecia ensurdecedor.
Riccardo olhou para o aparelho.
E então algo mudou.
Foi sutil. Um leve enrijecer dos ombros, um atraso mínimo antes de atender. Mas eu vi.
— Fale.
A pausa que se seguiu foi curta, mas suficiente para que eu percebesse que aquilo não era um assunto comum.
Observei o rosto dele com atenção.
O maxilar se contraiu.
Os olhos escureceram.
— Entendi.
Ele desligou com a mesma calma de antes, mas o ambiente já não era o mesmo.
— Um dos armazéns da Lis está pegando fogo.
Aquilo não foi dito como preocupação. Foi dito como informação estratégica.
— Acidente? — perguntei.
Ele me encarou diretamente.
— Nós não acreditamos em acidentes.
Claro que não.
Meu pensamento se organizou rapidamente. Lis sai da sala em conflito direto com ele. Pouco tempo depois, um armazém dela pega fogo. Era muito preciso para ser coincidência.
— Ela já sabe?
— Se ainda não sabe, vai saber em minutos.
Riccardo se levantou e veio até mim com passos lentos, firmes.
— Eu preciso que você vá até ela.
— Por quê?
Ele parou à minha frente.
— Porque ela não vai ouvir ninguém da família agora.
Fazia sentido.
— E você acha que vai me ouvir?
Ele sorriu de leve.
— Não. Mas sei que você vai atrás dela mesmo assim.
Aquilo me irritou de forma instantânea, porque ele estava certo.
— Ela não aceita ajuda.
— Não precisa aceitar — respondeu ele. — Só precisa sobreviver.
Aquela frase mudou tudo.
Não era apenas um incêndio.
Era um ataque.
E, possivelmente… uma armadilha.
A mão dele pousou no meu ombro, firme.
— Se você quer fazer parte desta família, esse é o momento de provar.
Sustentei o olhar dele por alguns segundos. Aquilo não era apenas um pedido. Era um teste.
E eu já tinha aceitado o jogo no momento em que assinei aquele contrato.
Meu celular vibrou no bolso. Localização.
— Vá agora — disse ele.
Eu fui.
Saí da mansão sem olhar para trás, atravessando os corredores com passos rápidos e controlados. O ar frio da noite me atingiu assim que saí, mas não foi suficiente para desacelerar o que estava acontecendo dentro de mim.
Entrei no carro e dei partida.
O motor respondeu.
E eu acelerei.
A cidade passou a correr ao meu redor em borrões de luz e sombra, mas minha mente estava fixa em uma única coisa: Lis.
Na forma como ela saiu.
Na expressão dela.
Na certeza silenciosa de que ela não era o tipo de pessoa que fugia de problemas.
Ela corria direto para eles.
E isso significava que, se aquilo era um ataque…
Ela estava indo de encontro ao perigo.
Quando vi a fumaça subindo no horizonte, meu estômago se contraiu. Era densa demais. Escura demais.
Aquilo não era um incêndio pequeno.
Estacionei sem me importar com nada e saí do carro imediatamente.
O calor me atingiu como uma parede.
O ar estava pesado, carregado de fumaça e algo metálico.
Gritos ecoavam ao redor. Homens corriam, outros tentavam conter o fogo, mas estava claro que a situação já havia saído do controle.
E então eu a vi.
Lis.
No centro de tudo.
Dando ordens, se movendo com precisão, completamente inserida no caos como se aquilo fosse o lugar natural dela.
Cabelo preso de forma descuidada, rosto sujo de fuligem, olhos brilhando com intensidade.
Ela não parecia assustada.
Ela parecia viva.
Caminhei até ela sem hesitar.
— Você está fora de controle.
Ela virou o rosto para mim imediatamente. A surpresa durou menos de um segundo.
— O que você está fazendo aqui?
— Evitando que você morra.
Ela soltou um riso curto, seco.
— Então você pode ir embora. Eu sei me cuidar.
Olhei ao redor novamente.
— Isso não é só fogo.
— Eu sei.
— É um ataque.
Ela deu um passo na minha direção.
— E eu vou descobrir quem fez isso.
Um estalo alto ecoou dentro do galpão. Parte da estrutura cedeu, levantando uma nova onda de chamas.
— Lis…
— Tem gente lá dentro — disse ela.
Meu corpo reagiu antes da minha mente processar completamente.
— Quantos?
— Dois. Não saíram a tempo.
Fechei os olhos por um segundo.
Claro que tinha.
— Você não vai entrar.
— Eu já mandei—
— Eu não estou perguntando.
Ela sorriu.
E aquele sorriso foi o suficiente para eu entender que já era tarde.
— Tarde demais.
Ela correu.
E eu fui atrás.
O calor dentro do galpão era sufocante. O ar queimava na garganta a cada respiração. O chão rangia sob os pés, e cada som parecia um aviso de que aquilo podia desabar a qualquer momento.
— LIS!
— AQUI!
Segui a voz até encontrá-la ajoelhada ao lado de um homem caído.
— Me ajuda!
Agarrei o outro braço dele e o puxei com ela.
— Levanta!
O homem estava semi-inconsciente, pesado, mas conseguimos colocá-lo de pé.
— Leva ele! — disse ela.
— E você?
— Ainda tem mais um!
Arrastei o homem até a saída e o entreguei para outros, mas não parei. Voltei imediatamente.
Encontrei Lis tentando puxar outro homem preso sob parte da estrutura.
— Ele está preso!
Ajoelhei ao lado dela e segurei a barra de metal.
— Afasta.
Forcei com tudo o que tinha. O metal resistiu por alguns segundos que pareceram uma eternidade, até ceder com um estalo alto.
— Agora!
Ela puxou o homem para fora.
E então aconteceu.
Um som seco.
Diferente.
Reconhecível.
Tiro.
Meu corpo reagiu antes do pensamento.
Olhei na direção do som.
Vi o movimento.
A arma.
Apontada para ela.
Ela não viu.
Ela estava focada.
Distraída.
E naquele instante…
Não existia decisão.
Só ação.
Me movi e entrei na frente dela.
O primeiro disparo me atingiu no abdômen com força suficiente para tirar o ar dos meus pulmões.
O segundo veio logo depois, no ombro.
A dor foi imediata, brutal, quente.
Mas eu não caí.
Ainda não.
Empurrei ela para baixo.
— ABAIXA!
Mais tiros ecoaram, mas agora os homens dela reagiam. Gritos, movimento, alguém correndo.
O atirador desapareceu.
O silêncio voltou aos poucos.
E então meu corpo cedeu.
Minhas pernas falharam.
Caí.
O impacto com o chão foi distante, como se eu estivesse desconectado.
— ANGELO!
A voz dela chegou até mim, urgente, diferente de tudo que eu já tinha ouvido antes.
Senti mãos no meu rosto.
— Olha pra mim!
Forcei os olhos a focarem.
Consegui.
Por um momento.
Os olhos dela estavam ali.
Sem frieza.
Sem controle.
Só emoção.
— Você é idiota? — disse ela, a voz falhando. — Eu não pedi isso!
Tentei sorrir.
— Eu sei…
O gosto de sangue invadiu minha boca.
— Mas eu quis.
A visão começou a escurecer.
As bordas ficando borradas.
— Fica comigo! — ela ordenou.
A voz dela tremia.
E aquilo… aquilo foi o que mais me atingiu.
Mais do que os tiros.
Sorri de leve, sem saber se ela ainda conseguia ver.
— Você manda bem nisso…
O mundo ficou mais distante.
Mais silencioso.
E a última coisa que eu vi…
Foi o rosto dela.
E, pela primeira vez…
Ela parecia com medo de me perder.







