Mundo ficciónIniciar sesiónO hospital parecia maior do que qualquer lugar em que eu já estivera, com corredores frios, luzes brancas que refletiam no chão polido e portas que pareciam separar mundos inteiros. Cada passo meu ecoava, e eu podia sentir a tensão no ar, como se as próprias paredes estivessem cientes do que havia acontecido naquela noite.
Angelo estava na sala de observação, ainda inconsciente, respirando com a ajuda de tubos e ventiladores. Os monitores piscavam em vermelho e verde, cada lampejo fazendo meu coração disparar. Eu permanecia ao lado dele, sentada em uma cadeira dura, observando cada detalhe. Seu rosto ainda carregava o cansaço da batalha que travara para me proteger, e eu não conseguia tirar da cabeça o risco que ele havia corrido, nem o fogo que havia consumido o galpão da minha boate.
Meu irmão permanecia em pé atrás de mim, os braços cruzados, o olhar atento a cada movimento dos médicos e enfermeiros. Ele sabia que a qualquer instante algo poderia acontecer, e sua postura rígida me dava uma estranha sensação de segurança. Eu não podia me mover, não podia perder nenhum detalhe. O silêncio era pesado, quase sufocante, e eu não conseguia relaxar.
O telefone vibrou na minha bolsa. Era Emílio. Um arrepio percorreu minha espinha. Ele sempre aparecia nos momentos mais inoportunos, e eu sabia que desta vez não seria diferente. Respirei fundo antes de atender.
— Onde diabos você está? — a voz dele carregava aquela insolência irritante.
— No hospital — respondi, firme. — E você deveria se preocupar menos com minha localização e mais com suas próprias ações.
— Não é assim, Ella… — começou, mas eu não deixei terminar.
— Se você tem alguma intenção de causar problemas, desligue agora — cortei, o tom seco como lâmina. — Porque se aparecer aqui, não vai gostar do que vai encontrar.
Houve um silêncio do outro lado, seguido por um suspiro irritado. Eu sabia exatamente o que viria a seguir. Ele não me respeitava, mas aquela noite seria diferente.
Desci pelo corredor, os sapatos ecoando contra o piso frio. Quando o vi parado à minha frente, com aquela expressão arrogante que sempre me provocava, senti a raiva subir como fogo.
— Então é aqui que a “puta” vem me dar lição de moral? — disse ele, provocativo.
Meu coração disparou. Meu irmão se posicionou atrás de mim, mas desta vez não iria intervir. Era minha vez. Era minha hora de mostrar que não toleraria desrespeito.
— Fique quieto — disse eu, avançando alguns passos, firme e decidida.
— E se eu não ficar? — provocou, ainda tentando manter o sorriso.
Retirei a faca do coldre, apenas o suficiente para que ele visse o brilho metálico refletindo na luz fria do corredor. Não havia necessidade de machucá-lo; o medo seria suficiente.
— Repita — ordenei, cada palavra cortando o ar. — Repita exatamente o que acabou de dizer.
O sorriso de Emílio desapareceu. Ele engoliu em seco, engolindo a raiva e a insolência. Meu irmão apertou meu ombro levemente, um gesto de aprovação silencioso. Eu não relaxei.
— Eu… eu não vou te chamar assim de novo — disse ele, a voz trêmula, cheia de medo e respeito.
— Bom — falei, guardando a faca apenas o suficiente para não tocá-lo —, espero que tenha entendido. Uma última chance. Qualquer sinal de desrespeito novamente, e não será apenas uma lição verbal.
Ele recuou, derrotado, desaparecendo pelo corredor. Eu voltei para o quarto de observação, onde Angelo permanecia inconsciente, mas estável. Cada movimento dele era monitorado por aparelhos; cada respiração registrada com precisão.
Sentei-me novamente ao lado de Angelo, segurando sua mão com cuidado. O calor da minha pele parecia transmitir força, como se cada toque pudesse compensar toda a dor que ele enfrentara. Cada vez que seus olhos fechados se moviam, ou que o peito subia e descia, sentia que estava segura.
— Você vai ficar bem — sussurrei, a voz quase quebrando, mas carregada de determinação. — Eu não vou te deixar sozinho.
Meu irmão permaneceu alerta, observando cada entrada e saída do quarto. Sabíamos que o perigo ainda existia fora daquelas paredes, mas dentro, eu era a barreira que ninguém poderia atravessar.
Enquanto eu observava, flashes do incêndio voltavam à minha mente. O galpão, as chamas devorando tudo em questão de segundos, a fumaça que quase nos cegou. O barulho do colapso do teto, o calor que queimava a pele mesmo à distância, a sensação de impotência. Mas Angelo estava lá. Ele entrou no fogo, arriscou a própria vida para me proteger, e eu não podia deixar que o destino fosse cruel com ele agora.
O médico responsável pela cirurgia entrou, semblante sério, mas com um leve sorriso de alívio.
— A cirurgia terminou — disse ele. — Tudo correu bem. Não há risco imediato, mas ele precisará permanecer em observação por algumas horas.
Meu coração finalmente relaxou um pouco. A tensão se dissipou parcialmente, mas cada segundo ainda parecia longo demais. Meu irmão se aproximou, conferindo os monitores, satisfeito.
— Estáveis — disse, satisfeito. — Ele não corre perigo, pelo menos por enquanto.
Segurei a mão de Angelo com mais força, como se a minha própria força pudesse ajudá-lo a se recuperar. Os sinais vitais eram bons, mas o risco ainda pairava como uma sombra. Eu sabia que precisava estar pronta para qualquer coisa.
— Ele vai precisar de tempo para se recuperar — disse meu irmão. — Não podemos deixar ninguém perturbá-lo.
— Eu sei — murmurei. — Mas a sensação de impotência é sufocante. Eu queria poder proteger ele de tudo, mas às vezes nem eu consigo.
O silêncio voltou, dominando a sala. Cada apito dos monitores, cada movimento dos ventiladores, parecia um lembrete de que a batalha ainda não havia terminado. Eu observava, cada segundo, cada detalhe, sentindo cada respiração como se fosse a última.
Meu irmão se aproximou novamente. — Vou organizar o restante — disse, firme. — Você fica aqui. Ninguém se aproxima sem sua permissão.
Assenti. Sentada ao lado de Angelo, segurando sua mão, sentindo a força que ainda pulsava dentro dele, percebi que a batalha ainda estava longe do fim. Mas, por agora, a vitória era nossa. Cada segundo de vida de Angelo era um triunfo que eu estava determinada a proteger a qualquer custo.
Enquanto observava, senti uma determinação ainda maior se formando dentro de mim. Nada iria ameaçar novamente Angelo enquanto eu estivesse por perto. Nada.







