Mundo ficciónIniciar sesiónO cheiro de fumaça e sangue ainda dominava o ar quando meus joelhos tocaram o chão.
Por um instante, tudo ao meu redor desapareceu.
As chamas, os gritos, o caos… nada disso existia mais.
Só ele.
Angelo.
Imóvel diante de mim.
Os olhos ainda abertos, mas perdendo o foco a cada segundo que passava.
— Angelo… — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, quase irreconhecível.
Não.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Minhas mãos se moveram antes que minha mente conseguisse acompanhar, pressionando o ferimento no abdômen dele. O sangue era quente, espesso, escorrendo entre meus dedos rápido demais, como se meu próprio corpo não fosse capaz de conter aquilo.
— Fica comigo — murmurei, inclinando-me sobre ele. — Não fecha os olhos.
Ele tentou sorrir.
Mesmo naquela situação.
Idiota.
— Eu sei… — a voz dele saiu fraca, quebrada. — Mas eu quis…
Algo dentro de mim se partiu naquele instante.
Não foi um rompimento explosivo.
Foi silencioso.
Profundo.
Irreversível.
— Cala a boca — sussurrei, mais para mim do que para ele. — Você não tem o direito de morrer agora.
Ao redor, o mundo começou a voltar. Vozes, passos, ordens sendo gritadas, homens correndo de um lado para o outro. Mas tudo parecia distante, abafado, como se eu estivesse submersa.
— Tragam o carro! Agora! — minha voz saiu firme, autoritária.
Mãos tentaram me puxar para trás.
— Senhorita, precisamos—
— EU DISSE AGORA!
O silêncio foi imediato.
Ninguém discutiu.
Ninguém ousou.
Porque naquele momento…
Não era Lis quem estava ali.
Era Ella.
— Isao — chamei, sem olhar para trás.
— Estou aqui.
Ele se ajoelhou ao meu lado, analisando Angelo com rapidez e precisão. Seus olhos percorreram os ferimentos, a quantidade de sangue, a respiração irregular.
— Dois tiros — disse ele, controlado. — Um no abdômen, outro no ombro. Precisamos agir rápido.
— Eu sei.
— Eu dirijo.
— Não.
A resposta saiu antes mesmo dele terminar.
Firme.
Irrevogável.
— Eu.
Isao me olhou por um segundo. Não foi um olhar de confronto — foi de avaliação.
Ele sabia o que estava em jogo.
E sabia que, naquele momento, discutir comigo seria perda de tempo.
— Certo — disse ele por fim. — Eu preparo o caminho.
Levantei com ajuda de dois homens e puxei Angelo para mim, segurando-o com cuidado ao colocá-lo no banco traseiro. Entrei logo em seguida, trazendo o corpo dele para o meu colo.
O sangue continuava escorrendo.
Quente.
Incontrolável.
Pressionei o ferimento com mais força.
— Não dorme — murmurei perto do ouvido dele. — Você não tem permissão pra isso.
O carro arrancou com violência.
A cidade virou um borrão de luzes e sombras.
O som do motor, das buzinas, dos pneus cortando o asfalto — tudo se misturava em um ruído distante.
Minha atenção estava inteira nele.
Na respiração irregular.
No peso do corpo.
No sangue que não parava.
— Fica comigo… — sussurrei, encostando a testa na dele por um segundo.
Aquilo era errado.
Eu não fazia isso.
Eu não me permitia isso.
Mas ali…
Nada mais fazia sentido.
— Isao — chamei, sem desviar o olhar.
— Estou aqui.
— Quanto tempo?
— Quatro minutos.
Quatro minutos.
Quatro minutos podiam ser a diferença entre viver… e morrer.
Apertei mais o ferimento, ignorando o tremor que começava a surgir nos meus braços.
— Aguenta — murmurei. — Você entrou nisso… agora aguenta até o fim.
Minha voz estava firme.
Mas por dentro…
Eu estava à beira de perder o controle.
O carro freou bruscamente em frente ao hospital da família.
Antes mesmo de parar completamente, portas já estavam sendo abertas.
Médicos.
Enfermeiros.
Equipamentos.
Tudo preparado.
— Hemorragia ativa!
— Leva pra sala cirúrgica!
— Pressão caindo!
Mãos puxaram Angelo de mim.
Por um segundo, resisti.
Meu corpo não queria soltar.
Mas eu soltei.
Porque sabia que, naquele ponto…
Não era mais comigo.
Tentei acompanhar.
Mas alguém segurou meu braço.
— Senhorita, não pode entrar—
O olhar que lancei foi suficiente.
Eles soltaram imediatamente.
Caminhei atrás da maca até as portas se fecharem.
E então…
Silêncio.
Dessa vez, absoluto.
E esmagador.
O tempo deixou de existir.
Eu não sabia quanto havia passado.
Minutos.
Horas.
Não fazia diferença.
Estava sentada, mas não lembrava de ter sentado. Minhas mãos ainda estavam sujas de sangue seco, manchando a pele como uma lembrança constante do que tinha acontecido.
Isao permanecia por perto.
Em pé.
Silencioso.
Mas atento.
Como sempre.
— Ele não pode morrer — falei, sem olhar para ninguém.
Minha voz estava baixa.
Mas carregada de algo que nem eu queria explorar.
Isao não respondeu.
Mas também não precisava.
Porque ele sabia.
Se Angelo morresse…
Aquilo não terminaria ali.
A porta se abriu horas depois.
Levantei imediatamente.
O médico saiu, retirando as luvas.
— Ele está vivo.
O ar voltou aos meus pulmões com força.
Mas não completamente.
— A cirurgia foi longa — continuou ele. — Conseguimos retirar os projéteis. Ele perdeu muito sangue, mas estabilizamos. Não há risco imediato.
Fechei os olhos por um segundo.
A tensão não desapareceu.
Mas mudou.
— Quero vê-lo.
— Ele será levado para a ala VIP. Ainda está desacordado.
Assenti.
Era o suficiente.
Por enquanto.
Quando finalmente o vi novamente, o impacto foi diferente.
Antes, ele estava lutando para sobreviver.
Agora…
Ele estava quieto demais.
Deitado.
Conectado a máquinas.
Respirando com ajuda.
Mas vivo.
Caminhei até o vidro, parando ali, observando cada detalhe.
— Você é um idiota… — murmurei, quase sem voz.
Mas, dessa vez…
Não havia irritação.
Só algo mais profundo.
Mais perigoso.
— O atirador foi capturado.
A voz fez meu corpo reagir imediatamente.
Virei.
Meu irmão estava ali.
Postura firme.
Olhar frio.
Sem emoção.
— Onde?
— Subsolo da D’Lux.
Um sorriso lento surgiu no meu rosto.
Não um sorriso bonito.
Um sorriso perigoso.
— Ótimo.
— Ele ainda não falou — continuou ele. — Mas vai.
— Vai sim.
Voltei a olhar para Angelo.
Depois para ele.
— O galpão?
— Perda total — respondeu. — Mas conseguimos conter o incêndio. Já iniciamos a investigação. Isso foi planejado.
Claro que foi.
— Alguém de dentro — completei.
Ele assentiu.
— Já estamos verificando.
O silêncio se instalou entre nós por alguns segundos.
— E ele? — perguntou meu irmão, olhando para Angelo.
Respirei fundo.
— Ele vive.
— Por sua causa?
Pensei por um instante.
— Não.
Balancei a cabeça lentamente.
— Eu vivo… por causa dele.
Voltei minha atenção para o vidro.
Para o homem que entrou no fogo por mim.
Que tomou tiros por mim.
Sem obrigação.
Sem garantia.
Sem motivo lógico.
E, ainda assim…
Fez.
Algo dentro de mim mudou naquele momento.
Não foi suave.
Não foi bonito.
Foi definitivo.
— Ninguém encosta nele — falei, a voz baixa, mas firme. — Ninguém.
Meu irmão assentiu.
— E o atirador?
Fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo.
Quando abri novamente…
Já não era mais Lis.
— Eu vou cuidar disso.







