CAPÍTULO 4: JANTAR ENTRE INIMIGO

LIS LA BLANC

O carro parou diante dos portões da mansão La Blanc com um silêncio pesado que parecia grudar na pele. As luzes externas iluminavam a fachada imponente, e por um momento eu permaneci sentada, olhando para aquele lugar que sempre chamei de casa — mas que, nos últimos dias, parecia mais uma prisão de luxo.

— Tem certeza disso, princesa? — a voz de Isao veio suave ao meu lado.

Soltei um suspiro lento.

— Não. Mas a mamãe pediu.

Isso bastava.

Desci do carro com movimentos controlados, ignorando os olhares dos seguranças e dos empregados que fingiam não observar. Cada passo em direção à porta principal fazia meu estômago se contrair, como se eu estivesse caminhando para uma execução.

Isao permaneceu ao meu lado o tempo todo, silencioso, mas atento. A presença dele era como uma armadura invisível — eu sabia que, se algo saísse do controle, ele seria o primeiro a reagir.

Assim que entramos, uma das empregadas se aproximou.

— Senhorita Lis… sua mãe está esperando no seu quarto.

Claro que estava.

Subi as escadas sem responder, sentindo o olhar de Isao nas minhas costas. Ele não fez perguntas. Nunca fazia quando percebia que eu estava à beira de explodir.

Quando abri a porta do meu quarto, encontrei minha mãe sentada na beirada da cama, com uma caixa de joias aberta ao seu lado e um vestido preto cuidadosamente estendido sobre o colchão.

Ela levantou o rosto assim que me viu, e o alívio em seus olhos foi tão visível que doeu mais do que qualquer discussão.

— Lis… — sussurrou, levantando-se rapidamente. — Graças a Deus você voltou.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela me envolveu em um abraço apertado. O perfume familiar dela me trouxe memórias de uma infância que parecia pertencer a outra pessoa.

— Mamãe… — murmurei, sem saber ao certo se queria retribuir o abraço ou me afastar.

Ela segurou meu rosto entre as mãos, analisando o corte na minha testa.

— Você está machucada. Por que ninguém me contou?

— Não é nada — respondi, desviando o olhar. — Só um acidente.

Seus olhos se estreitaram, mas ela não insistiu. Em vez disso, pegou o vestido e o ergueu com cuidado.

— Preparei isso para você — disse, com um sorriso tímido. — Pensei que… talvez quisesse algo elegante, mas confortável.

Observei o tecido escuro cair como água entre os dedos dela. Era simples, mas refinado — exatamente o tipo de roupa que eu escolheria se estivesse em um dia normal.

— Você não precisava fazer isso — falei, mesmo sabendo que ela precisava.

— Eu precisava, sim — respondeu, com firmeza inesperada. — Sou sua mãe, Lis. Mesmo que o mundo inteiro tente te empurrar para um caminho que você não quer… eu ainda posso te ajudar a atravessar a porta.

Senti algo apertar dentro do meu peito.

Foi então que percebi Isao encostado no batente da porta, braços cruzados, observando em silêncio. Ele não disse nada, mas o olhar dele alternava entre mim e minha mãe, como se estivesse pronto para intervir a qualquer momento.

Minha mãe abriu a caixa de joias e retirou um colar delicado, com uma pedra escura no centro.

— Usei este colar no dia do meu casamento — disse ela, aproximando-se de mim. — Foi a sua avó quem me deu.

Fiquei imóvel enquanto ela afastava meus cabelos e prendia o fecho atrás do meu pescoço. O metal frio tocou minha pele, e um arrepio percorreu minha espinha.

— Eu me casei com o seu pai por escolha — continuou ela, em voz baixa. — Eu o odiava no início… mas aprendi a amá-lo. Não estou dizendo que será igual para você. Só… não feche todas as portas antes de olhar o que existe atrás delas.

Engoli em seco.

— E se eu não quiser olhar? — perguntei, quase em um sussurro.

— Então eu estarei ao seu lado quando você decidir fechá-las — respondeu ela, beijando minha testa com cuidado para não tocar no ferimento.

Atrás de mim, ouvi Isao se mexer levemente. Sabia que ele estava escutando cada palavra, guardando tudo como fazia desde que éramos crianças.

Depois de me vestir, observei meu reflexo no espelho. O vestido abraçava meu corpo de forma elegante, e o colar brilhava discretamente contra a minha pele.

Eu parecia uma herdeira perfeita.

Mas por dentro, ainda era a mesma mulher que queria fugir daquele mundo.

— Está linda, princesa — disse Isao, finalmente entrando no quarto.

Revirei os olhos.

— Não começa.

Ele sorriu de leve, mas seus olhos estavam sérios.

— Se ele fizer qualquer coisa que você não goste, eu acabo com isso na mesma hora.

Minha mãe suspirou, cansada.

— Isao, por favor… hoje não.

— Eu só estou fazendo o meu trabalho, senhora — respondeu ele, respeitoso, mas firme.

Respirei fundo e me virei em direção à porta.

— Vamos acabar logo com isso.

Descemos as escadas juntos. Cada degrau parecia marcar a contagem regressiva para um confronto inevitável.

Quando chegamos ao corredor que levava à sala de jantar, o som dos meus saltos ecoou como tiros em um túnel vazio.

O jantar havia começado.

A mesa já estava posta quando entrei. Pratos de porcelana branca, talheres de prata perfeitamente alinhados, taças de cristal refletindo a luz do lustre como pequenas lâminas. Tudo impecável — como se estivéssemos prestes a receber a realeza, não um homem que eu tinha ameaçado cortar em pedaços no dia anterior.

Angelo Hernandes já estava lá.

Sentado à direita do meu pai, postura reta, mãos entrelaçadas sobre a mesa, vestido em um terno preto que parecia ter sido feito sob medida para esconder o fato de que ele era perigoso. Quando me viu, seus olhos verdes se moveram devagar, subindo dos meus sapatos até o meu rosto.

Isao parou atrás de mim, em pé, como uma sombra protetora.

— Que surpresa — falei, parando ao lado da cadeira sem me sentar. — Pensei que esse jantar fosse em família.

Minha mãe, Alana La Blanc, levantou-se imediatamente.

— Lis, por favor… sente-se — disse ela, com aquela voz calma que sempre me desarmava mais rápido que qualquer arma.

Olhei para ela, depois para o meu pai. Riccardo estava tranquilo demais, observando a cena como se assistisse a uma peça de teatro que ele mesmo escreveu.

Revirei os olhos e puxei a cadeira, sentando-me de frente para Angelo.

— Então — murmurei, cruzando as pernas. — Este é o famoso jantar que deveria me fazer mudar de ideia?

— Não — respondeu Angelo antes que meu pai pudesse falar. — É só um jantar.

ANGELO HERNANDES

O quarto do hotel estava silencioso demais.

Eu já estava vestido havia quase quinze minutos, parado em frente ao espelho, observando meu próprio reflexo como se ele pudesse me dar respostas. Terno preto, gravata perfeitamente alinhada, cabelo arrumado — tudo no lugar. Por fora, eu parecia o homem mais confiante do mundo.

Por dentro, era outra história.

A imagem dela não saía da minha cabeça. Os olhos frios. O sorriso perigoso. A faca pressionada contra o meu pescoço… e o gosto estranho de excitação que senti naquele momento.

Soltei um suspiro irritado, passando a mão pelo rosto.

— Você está com cara de quem vai para o próprio velório — a voz de Emílio surgiu atrás de mim antes mesmo que eu percebesse a porta abrir.

Revirei os olhos ao vê-lo pelo reflexo no espelho.

— Bata na porta da próxima vez.

— Eu bati. Você que estava ocupado demais admirando a própria beleza.

Ele entrou no quarto com um sorriso debochado, vestindo um terno que claramente tinha sido escolhido às pressas. A gravata estava torta, e ele nem parecia se importar.

— Então — continuou, jogando-se na poltrona — é hoje que você reencontra a noiva assassina.

Ignorei o tom provocativo e peguei o relógio sobre a mesa, colocando-o no pulso.

— Ela não é minha noiva ainda.

Emílio soltou uma gargalhada.

— Você assinou o contrato, primo. Isso já te coloca com meio pé na cova e o outro no altar.

Fechei os punhos por um segundo, lembrando do sorriso de Riccardo quando assinei aquele papel. Eu não tinha escolha. Mas, estranhamente… também não tinha arrependimento.

— Então você vem comigo — falei, pegando o paletó.

Emílio fez uma careta dramática.

— Ir para um jantar formal, com um bando de mafiosos que me odeiam, só para ver você ser encarado pela sua futura esposa psicopata?

— Ela não é psicopata — respondi automaticamente.

Ele me lançou um sorriso lento e malicioso.

— Você está defendendo ela agora? Caralho… você está ferrado.

Passei por ele em direção à porta.

— Você vem ou não?

Emílio pegou o celular, já digitando alguma coisa.

— Não. Eu vou para uma balada. Alguém nessa cidade precisa se divertir enquanto você assina a própria sentença de morte.

Parei por um segundo, suspirando.

— Não arrume problemas.

— Eu? Nunca — respondeu ele, já sorrindo como alguém que definitivamente iria arrumar problemas.

A viagem até a mansão La Blanc foi silenciosa demais.

As luzes da cidade passavam rápidas pela janela do carro, mas minha mente estava presa na imagem dela, de pé na sala, com a lâmina na mão e aquele olhar que parecia atravessar a minha alma.

Quando os portões da mansão se abriram, senti algo estranho no peito.

O lugar era ainda mais imponente do que eu lembrava. Guardas posicionados em pontos estratégicos, câmeras por todos os lados, jardins impecáveis. Aquilo não era apenas uma casa — era uma fortaleza.

Fomos conduzidos até a sala de jantar por um dos empregados. Cada passo pelo corredor largo fazia o eco dos meus sapatos soar alto demais, como se a própria casa estivesse me lembrando de que eu estava em território inimigo.

Quando entramos, Riccardo já estava sentado à mesa.

— Angelo, meu rapaz — disse ele, levantando-se com um sorriso satisfeito. — Fico feliz que tenha vindo.

Troquei cumprimentos formais, mas minha atenção estava em outro lugar.

Na porta.

Eu não sabia exatamente o que estava esperando… mas, quando ouvi o som dos saltos ecoando pelo corredor, meu corpo inteiro ficou em alerta.

Ela estava chegando.

A primeira coisa que vi foi o vestido preto. Elegante. Simples. Perigoso — exatamente como ela.

Mas então meus olhos desceram… e foi quando notei que ela não estava sozinha.

Um homem caminhava ao lado dela.

Ele era alto, de postura relaxada, mas com o olhar atento de alguém treinado para matar. A mão dele pairava perto demais da cintura dela, guiando-a com uma naturalidade que fez algo dentro de mim se contorcer.

Quando chegaram à mesa, ele colocou a mão suavemente nas costas dela, quase tocando sua cintura, e puxou a cadeira para que ela se sentasse.

Delicadeza. Intimidade. Proteção.

Meu maxilar se contraiu antes que eu pudesse evitar.

Lis se sentou com a mesma expressão fria de sempre, mas não afastou o homem. Pelo contrário — agiu como se aquilo fosse normal, como se ele sempre estivesse ali, ao lado dela.

Uma onda de algo quente e desagradável subiu pelo meu peito.

Ciúmes.

Ridículo. Eu mal conhecia aquela mulher… e, ainda assim, ver outro homem tocando nela, mesmo que de forma respeitosa, fez meu estômago revirar.

Quem diabos era ele… e por que tinha tanta liberdade perto dela?

Pela primeira vez desde que entrei naquela mansão, percebi que talvez o maior perigo ali dentro não fosse a família La Blanc…

Mas sim o fato de que eu estava começando a me importar demais com uma mulher que podia mandar me matar a qualquer momento.

CAPÍTULO 5 — LIS LA BLANC

O tilintar dos talheres contra a porcelana era o único som na sala de jantar.

Ninguém falava muito. Era o tipo de silêncio educado que famílias ricas fingem ser normal, mas que, para mim, sempre pareceu apenas uma pausa antes de algo dar errado.

Eu estava sentada à mesa, as costas eretas, os movimentos calculados enquanto cortava a carne no prato. Minha mãe, Alana, mantinha a postura impecável à minha frente, como se estivesse em um daqueles jantares formais que ela tanto gostava de organizar.

Atrás de mim, em pé, estava Isao.

Ele não dizia nada, mas eu sentia a presença dele como uma sombra protetora. Isao nunca se sentava quando desconfiava que algo poderia sair do controle — e, naquela noite, o silêncio pesado já dizia tudo.

Riccardo limpou a boca com o guardanapo e recostou-se na cadeira na cabeceira da mesa. Os olhos azuis — iguais aos meus — percorreram lentamente cada pessoa presente antes de pararem em mim.

— Já que estamos todos reunidos — disse ele, com a voz calma demais —, acredito que seja o momento ideal para discutirmos o futuro da família.

Meu estômago se contraiu, mas mantive a expressão neutra.

Os empregados circulavam em silêncio ao redor da mesa, servindo vinho, recolhendo pratos, fingindo não ouvir uma única palavra. Eles já estavam acostumados com as conversas perigosas daquela casa.

— Lis — continuou Riccardo, apoiando os cotovelos na mesa —, você sempre deixou claro que pretende assumir o meu lugar quando eu me aposentar.

Levantei os olhos devagar, encontrando o olhar dele.

— Sim — respondi, simples.

Um sorriso discreto apareceu no rosto dele, mas não havia calor algum ali.

— E eu admiro a sua ambição. Mas liderar a família La Blanc exige mais do que habilidade. Exige alianças.

Minha mão apertou levemente o garfo.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntei, já sentindo o incômodo subir pelo peito.

Riccardo entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Tudo.

O silêncio pareceu se esticar, pesado, sufocante.

— Você vai se casar com Angelo Hernandes — disse ele, como se estivesse apenas comentando o clima.

O garfo escapou dos meus dedos e bateu contra o prato com um som seco.

Alana ergueu o olhar, mas não disse nada. Seu rosto continuava calmo, quase indiferente, como se aquela decisão já fosse esperada.

— Não — falei, antes mesmo de perceber.

Riccardo inclinou levemente a cabeça.

— Isso não é um pedido, Lis. É uma decisão.

Meu coração começou a bater rápido demais. O ar parecia mais pesado, difícil de puxar para dentro dos pulmões.

Atrás de mim, senti a mão de Isao pousar no encosto da cadeira, perto do meu ombro.

— Lis… — murmurou ele, baixo, tentando me acalmar.

A sala começou a girar de leve. As vozes, os passos dos empregados, o som distante de pratos sendo recolhidos… tudo parecia vir de muito longe.

Ele não podia fazer isso comigo.

Não daquele jeito. Não na frente de todos.

Respirei fundo uma vez… duas…

Quando levantei a cabeça novamente, o tremor nas minhas mãos havia desaparecido.

E, com ele, Lis também.

Inclinei-me para trás na cadeira com uma calma que não sentia.

— Você realmente acha — falei, a voz suave demais — que pode me obrigar a casar só para fortalecer seus negócios?

Isao ficou tenso atrás de mim. Eu não precisei olhar para saber que ele já tinha entendido.

Riccardo estreitou os olhos azuis, agora frios.

— Cuidado com o tom.

Um sorriso puxou o canto da minha boca.

— Lis está um pouco ocupada agora — murmurei, girando levemente o copo de vinho entre os dedos. — Mas eu posso responder por ela.

O silêncio foi imediato.

Até os empregados pararam por um segundo antes de voltarem a se mover, fingindo que nada estava acontecendo.

— Ella… — sussurrou Isao atrás de mim, quase sem voz.

Ignorei.

Ergui o olhar novamente para Riccardo.

— Você quer uma aliança? — falei. — Então deveria ter perguntado se a sua filha estava disposta a ser moeda de troca.

Alana finalmente falou, a voz baixa, mas firme:

— Já chega.

Virei o rosto devagar na direção dela, ainda sorrindo.

— Você sempre diz isso quando as coisas ficam interessantes, mãe.

Riccardo bateu levemente os dedos na mesa.

— Isso acabou. Você vai se casar, Lis. E essa conversa termina aqui.

Soltei uma risada curta, sem humor algum.

Afastei a cadeira para trás e me levantei.

— Isao — chamei, pegando a bolsa sobre a mesa. — Arrume a moto. Vamos sair.

Ele hesitou por um segundo, olhando de mim para Riccardo.

— Agora — repeti, sem sequer olhar para trás.

— Você não vai sair desta sala — disse Riccardo, a voz mais dura.

Parei perto da porta, mas não me virei.

— Você pode mandar nos seus homens — respondi, segurando a maçaneta. — Mas não manda em mim.

Abri a porta.

E quem saiu da sala não foi Lis.

A noite estava fria quando saímos da mansão.

O motor da minha moto rugiu sob mim assim que girei a chave, o som vibrando pelo meu peito como uma promessa. Isao montou na dele logo atrás, sem dizer nada. Ele nunca discutia quando eu estava naquele estado — apenas me acompanhava.

Sorri sozinha, ajustando o capacete.

Então acelerei.

O vento cortou meu rosto assim que a moto ganhou velocidade. As luzes da cidade se transformaram em riscos coloridos ao meu redor, borrões de vermelho e amarelo que desapareciam tão rápido quanto surgiam.

Adrenalina sempre foi a melhor forma de silenciar pensamentos inúteis.

Costurei entre os carros com facilidade, inclinando o corpo nas curvas, ouvindo buzinas irritadas e xingamentos abafados atrás de mim. Cada ultrapassagem era um desafio, cada freada brusca, uma provocação.

Isao tentou me acompanhar, mas eu sabia que ele estava sendo mais cauteloso. Ele sempre era.

Ri dentro do capacete e acelerei ainda mais.

Por alguns minutos, não existia família, casamento ou Riccardo.

Só o asfalto, o motor e a liberdade.

Quando a fachada iluminada da D’Lux surgiu à frente, desacelerei apenas o suficiente para não derrapar ao virar para a entrada lateral. Estacionei a moto com um movimento preciso e desliguei o motor, sentindo o silêncio cair de repente ao meu redor.

Isao parou ao meu lado logo depois, tirando o capacete com um suspiro cansado.

— Você quer me matar um dia desses — resmungou ele.

Tirei o meu também, sacudindo o cabelo.

— Você que é lento.

Não esperei resposta. Já estava caminhando em direção à porta dos fundos da boate.

O som da música grave atravessava as paredes, fazendo o chão vibrar sob meus passos. Os seguranças abriram caminho imediatamente quando me viram, desviando o olhar como se fosse instinto.

Entrei sem diminuir o ritmo, ignorando a pista cheia de luzes e corpos se movendo no andar de baixo. Não era ali que eu queria estar.

Subi direto para o escritório no segundo andar.

O lugar estava escuro, iluminado apenas pelas luzes neon que entravam pela janela de vidro que ocupava quase toda a parede. Dali, dava para ver a boate inteira: o bar, a pista, o palco, os camarotes. Era como observar um aquário cheio de peixes coloridos e barulhentos.

Joguei a bolsa sobre a mesa e me aproximei da janela, cruzando os braços.

— Você vai ignorar o que aconteceu lá? — perguntou Isao, entrando logo atrás de mim.

— Não estou ignorando — respondi, sem tirar os olhos da multidão. — Só estou priorizando coisas mais interessantes.

Ele se aproximou, parando ao meu lado.

— Ele não estava brincando, Ella.

Inclinei a cabeça de leve, sorrindo de canto.

— Riccardo nunca brinca.

O silêncio entre nós durou alguns segundos, preenchido apenas pela batida pesada da música vindo de baixo.

— E o Angelo? — ele perguntou, por fim. — O que você pretende fazer com ele?

Antes que eu pudesse responder, a porta do escritório se abriu de repente.

Um dos meus homens entrou apressado, o rosto pálido, o peito subindo e descendo rápido demais para alguém treinado.

— Chefe… — disse ele, sem fôlego. — Temos um problema.

Virei o rosto devagar na direção dele.

— Fala.

Ele engoliu em seco.

— O terceiro maior armazém… está pegando fogo.

O sorriso que apareceu no meu rosto foi lento.

— Finalmente — murmurei. — Estava começando a achar que a noite ia ser entediante.

Isao soltou um suspiro pesado ao meu lado, passando a mão pelo rosto.

— Ella…

Mas eu já estava pegando as chaves da moto novamente.

— Vamos — falei, caminhando para a porta. — Quero ver quem teve coragem de brincar com o que é meu.

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