A Herdeira Rejeitada e o Pacto com o Don
A Herdeira Rejeitada e o Pacto com o Don
Por: J. C. Rodrigues Alves
Capítulo 1 - Caterina

Meu pai morreu numa terça-feira.

Não houve aviso, presságio nem última conversa significativa. Houve apenas o telefone tocando cedo demais e o silêncio estranho depois que desliguei. Silêncio pesado, do tipo que não pede companhia. Ele se espalha pela casa como fumaça e entra nos pulmões sem pedir licença.

Desde então, eu moro aqui.

Ou melhor: continuo aqui, mas deixei de ser filha.

A casa Genovese sempre foi grande demais para tão pouca verdade. Mármore frio, corredores longos, quadros caros de homens mortos e mulheres que fingiam não saber o que seus maridos faziam à noite. Cresci aprendendo a andar em silêncio, a não tocar no que não era meu e a reconhecer perigo pelo tom de voz, não pelas palavras.

Depois da morte dele, aprendi outra coisa: invisibilidade também é uma forma de sobrevivência.

— Caterina.

A voz da minha madrasta corta o ar como faca cega. Não grita. Nunca gritou. Ela não precisa. Grita quem perde o controle. Francesca Genovese sempre teve controle demais.

— Sim, senhora.

Respondo antes mesmo de terminar de esfregar o chão da cozinha. O cheiro de desinfetante arde no nariz. Gosto disso. Ardor distrai. Ardor lembra que ainda estou aqui.

— O café está frio.

Ela está sentada à mesa, impecável como sempre. Cabelo preso, maquiagem mínima, roupa clara que nunca mancha. Ao lado dela, minhas duas irmãs postiças, Isabella e Chiara, mastigam com tédio elegante. Elas nunca me chamam pelo nome. Nunca precisam.

— Refaz — diz Francesca. Só isso.

Não olho para ela. Aprendi rápido que olhar nos olhos é convite para humilhação extra. Levanto, descarto o café, preparo outro. Mãos firmes. Sem pressa. Pressa denuncia medo.

Isabella revira os olhos.

— Você demora de propósito, Caterina?

Não respondo. Continuo trabalhando. Chiara ri, uma risada curta, treinada.

— Papai deixava ela sentar com a gente — diz Chiara, mexendo no celular. — Que bizarro pensar nisso agora.

Papai.

Elas nunca o chamaram assim antes da morte dele. Agora usam a palavra como quem testa uma arma nova.

Francesca sorri de leve. Um sorriso que não chega aos olhos.

— As coisas mudam — ela diz. — Cada um no seu lugar.

Lugar.

A palavra ecoa dentro de mim enquanto coloco o café novo sobre a mesa. Nenhuma delas agradece. Nunca agradecem. Agradecimento cria humanidade. Humanidade cria culpa. Francesca não cultiva nenhuma das duas.

Volto ao chão. O pano está escuro. Cinza misturado com algo mais antigo. Sangue seco, talvez. Nesta casa, nunca dá para ter certeza.

Meu pai morreu “repentinamente”. Foi assim que disseram. Ataque fulminante. Coração fraco. Engraçado como o coração dele aguentou anos de noites sem dormir, reuniões trancadas, homens armados entrando e saindo da casa como fantasmas. Aguentou tudo isso. Mas não aguentou uma terça-feira.

Não perguntei nada.

Perguntar é perigoso. Perguntar demais faz as pessoas sumirem.

Depois do enterro, Francesca me chamou para o escritório. Sentei na cadeira em frente à mesa onde meu pai costumava assinar papéis que eu nunca lia, mas sabia o peso.

— Você pode ficar — ela disse. — Ainda é uma Genovese. No papel.

No papel.

Tudo que importa sempre esteve no papel.

— Mas vai contribuir — completou. — Não posso sustentar peso morto.

Peso morto. A palavra bateu, mas não quebrou nada. Eu já estava rachada.

Desde então, eu limpo.

Cozinha, corredores, quartos que não uso, roupas que não são minhas. Limpo depois das reuniões. Limpo depois das visitas noturnas. Limpo o que ninguém quer lembrar.

É curioso como ninguém se importa com quem limpa. Pessoas falam coisas importantes perto de quem limpa. Confissões, ameaças, acordos. Acham que a sujeira também entra pelos ouvidos e apaga a memória.

Não apaga.

— Caterina.

De novo.

— O chão do corredor ainda está manchado — diz Francesca, levantando-se. — Quero isso impecável antes do almoço.

— Sim, senhora.

Ela passa por mim sem me tocar. Perfume caro, notas florais que tentam esconder algo metálico por baixo. Medo, talvez. Ou culpa. Nunca consegui distinguir bem os dois.

Subo as escadas com o balde pesado. O corredor do andar superior é longo, iluminado por janelas altas. O sol entra bonito demais para uma casa que já viu tanta coisa feia. A mancha está ali, perto do escritório. Escura. Antiga. Ninguém nunca disse o que foi. Não preciso perguntar.

Esfrego. Forte. Até os dedos doerem. Até a água ficar quase preta.

Enquanto esfrego, penso na última vez que vi meu pai vivo. Ele estava sentado exatamente ali, no escritório. Camisa aberta no colarinho, olhar cansado.

— Você escuta demais, Caterina — ele disse, sem me olhar.

— Alguém precisa escutar — respondi.

Ele riu. Um riso curto.

— Isso vai te manter viva — disse. — Mas também vai te custar caro.

Ele sempre falou como se soubesse que não ficaria muito tempo.

Termino o corredor. Troco a água. Desço de novo. O relógio marca quase meio-dia quando o primeiro carro chega.

Reconheço o som antes de ver. Motor pesado. Gente importante.

Francesca aparece imediatamente, postura mudando como mágica. Isabella e Chiara surgem atrás dela, belas, vazias, prontas para sorrir.

— Caterina — Francesca diz baixo, passando por mim. — Depois da reunião, o escritório precisa estar limpo. Muito limpo.

Depois da reunião.

É quando as coisas acontecem.

Assinto. Sempre assinto.

A reunião dura horas. Fico na cozinha, preparando café, servindo bandejas, entrando e saindo sem ser notada. Os homens falam alto. Discutem números, territórios, nomes que eu reconheço e finjo não reconhecer. Um deles menciona meu pai. Outro manda calar a boca.

Guardo tudo.

Quando finalmente vão embora, a casa fica estranhamente silenciosa. Francesca sobe com as filhas. Eu espero. Sempre espero. A pressa denuncia curiosidade.

Depois de vinte minutos, entro no escritório.

O cheiro vem primeiro. Ferro. Pólvora. Algo quebrado.

Há uma cadeira caída. Um copo estilhaçado. Uma gota vermelha no tapete caro.

Fecho a porta. Respiro fundo. Pego os materiais. Começo.

Enquanto limpo, penso que ninguém nunca perguntou se eu queria isso. Se eu queria ficar. Se eu queria ser filha, empregada, sombra. Mas também sei que ninguém nunca pergunta nada a quem não tem poder.

Ainda.

Termino quando já está escuro lá fora. Minhas mãos estão ásperas, unhas curtas, pele marcada. Olho meu reflexo no vidro da estante. Olhos atentos demais para alguém da minha idade. Boca que desaprendeu a sorrir.

Sou Caterina Genovese.

Filha de um homem morto.

Empregada numa casa que um dia foi minha.

E, mesmo assim, sei mais segredos do que qualquer um que dorme sob este teto.

Cinzas grudam na pele.

Mas também escondem fogo.

E eu ainda estou queimando.

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