O mafioso terrível está obcecado por mim

O mafioso terrível está obcecado por mim PT

Máfia
Última actualización: 2026-02-02
Autora R  Recién actualizado
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Resumen
Índice

Perseguido por uma gangue de vinte homens após ser traído dentro da própria máfia, um temido mafioso leva um tiro e desaparece pelas ruas de uma cidade sufocada pelo medo. À beira da morte, ele se esconde em um lugar improvável, onde é encontrado por uma jovem comum, alheia ao mundo do crime. Contra toda lógica e bom senso, ela decide ajudá-lo, cuidando de seus ferimentos e mantendo seu esconderijo em segredo. Enquanto a caçada se intensifica e o cerco se fecha, nasce entre os dois uma relação tensa e delicada, marcada por desconfiança, silêncio e escolhas perigosas. Preso entre sobreviver e fugir do passado, o mafioso precisa decidir se continuará sendo o homem que todos temem — ou se aquela estranha pode ser sua única chance de redenção.

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Capítulo 1

Um

A boate fechava sempre do mesmo jeito: luzes piscando pela metade, cheiro de álcool velho grudado nas cortinas de veludo e o cansaço descendo pelo corpo como um peso antigo. Para Lara, aquele fim de noite não tinha nada de glamouroso. O salto alto doía, o glitter colava na pele suada, e o sorriso ensaiado morria assim que ela cruzava a porta dos fundos.

Ela puxou o casaco, tentando se proteger do frio que não vinha só do ar. A rua estava quase vazia — um poste piscava, um táxi distante, o eco de uma cidade que nunca dormia de verdade. Eram quase quatro da manhã, o horário em que tudo parecia falso demais para ser real e real demais para ser seguro.

Lara caminhava rápido, bolsa pendurada no ombro, mente já longe dali. Pensava no banho quente que tomaria, na maquiagem que escorreria pelo ralo, na música baixa que colocaria para conseguir dormir. Estava a três quadras da boate quando ouviu a voz.

— Moça… por favor.

Ela parou. Não queria ter parado.

O instinto gritava para continuar andando, fingir que não ouvira. Aquele pedido, naquela hora, naquele tom… nunca era coisa boa. Mas havia algo diferente. Não era agressivo. Não era bêbado. Era fraco. Quebrado.

Ela virou devagar.

O homem estava encostado na parede de um prédio antigo, parcialmente escondido pela sombra. A luz do poste não alcançava bem o rosto dele, mas era possível ver o corpo curvado, uma das mãos pressionando o lado do abdômen.

— Eu… eu preciso de ajuda — disse ele de novo, a voz rouca, quase um sussurro.

Lara sentiu o coração acelerar. Olhou ao redor. A rua seguia vazia.

— O que aconteceu com você? — perguntou, mantendo distância.

Ele tentou se endireitar, falhou, e um gemido escapou.

— Fui assaltado. Acho que… me esfaquearam.

A palavra caiu pesada no ar.

— Meu Deus — ela murmurou, aproximando-se um pouco mais, contra o próprio julgamento.

Quando chegou perto o suficiente, viu o sangue. Escuro, espalhado pela camisa, ainda úmido. Não parecia um corte superficial.

— Você precisa de um hospital — disse ela, imediatamente.

Ele balançou a cabeça.

— Não posso. Por favor. Só… só me ajuda a limpar isso. Eu não tenho ninguém.

Os olhos dele finalmente encontraram os dela. Eram escuros, profundos, estranhamente atentos para alguém naquela condição. Não havia pânico ali — apenas cansaço. E algo mais que ela não soube nomear.

— Qual é o seu nome? — perguntou ela.

Ele hesitou.

— Daniel.

Algo no jeito como ele disse o nome fez Lara franzir a testa. Não soava como mentira, mas também não soava inteiro. Ainda assim, ela respirou fundo.

— Eu moro perto — disse, mais para si mesma do que para ele. — Mas isso é loucura.

— Eu sei — respondeu ele. — E você não me deve nada.

Ela ficou ali, presa entre o medo e uma compaixão que odiava em si mesma. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse o fato de que passava noites inteiras sendo vista como um objeto e, agora, alguém olhava para ela como se fosse a única coisa sólida no mundo.

— Anda — disse enfim. — Devagar.

Ele sorriu de leve, um sorriso rápido, quase invisível.

— Obrigado.

O apartamento de Lara ficava no terceiro andar de um prédio antigo, sem elevador. Subir as escadas foi um desafio. Daniel se apoiava no corrimão, respirando pesado, enquanto ela segurava o braço dele, sentindo a tensão sob a pele.

— Você pesa mais do que parece — ela comentou, tentando aliviar o clima.

— Culpa minha — respondeu ele. — Sempre tive esse problema.

Ela não riu, mas o canto da boca quase cedeu.

Dentro do apartamento, o cheiro era de incenso barato e sabonete de lavanda. Pequeno, organizado o suficiente para alguém que passava pouco tempo ali. Lara acendeu a luz da sala e fez Daniel sentar no sofá.

— Não se mexe — ordenou.

Ela foi até o banheiro, pegou toalhas limpas, álcool, gaze, uma caixa de primeiros socorros que mal usava. Quando voltou, ele estava inclinado para frente, respirando com dificuldade.

— Deixa eu ver — disse, puxando a camisa dele com cuidado.

O ferimento era feio, mas não parecia mortal. Um corte profundo no lado direito, sangrando menos do que antes.

— Você teve sorte — murmurou ela. — Não atingiu nada vital.

— Ainda bem — respondeu ele, observando cada movimento dela.

Lara sentiu o olhar, mas fingiu não notar. Limpou o sangue com cuidado, o rosto concentrado. As mãos dela tremiam um pouco, mas ela manteve o foco.

— Vai arder — avisou, antes de passar o álcool.

Ele fechou os olhos, mas não gritou. Apenas inspirou fundo.

— Você é boa nisso — comentou.

— Já precisei cuidar de mim mesma muitas vezes — respondeu ela, sem encará-lo.

Depois de limpar e improvisar um curativo, ela se afastou um pouco, avaliando o resultado.

— Não é perfeito, mas vai segurar até amanhã. De manhã você vai ao hospital.

— Se eu ainda estiver aqui — disse ele, quase brincando.

Ela cruzou os braços.

— Você vai dormir no sofá.

— Claro.

— E eu vou trancar a porta do quarto.

Ele assentiu sem protestar.

— Eu faria o mesmo.

Lara lhe deu um cobertor, um copo d’água e um analgésico.

— Se precisar de alguma coisa, chama — disse, já caminhando para o quarto.

Antes de fechar a porta, olhou para trás. Daniel estava deitado, olhos abertos, encarando o teto como se estivesse em outro lugar.

Ela trancou a porta.

Deitada na cama, Lara demorou a dormir. Cada estalo do prédio parecia um passo. Cada sombra, um movimento suspeito. Pensava no homem na sala, no sangue em suas mãos, no jeito como ele a olhara.

Quando finalmente adormeceu, sonhou com corredores escuros, música distante e alguém chamando seu nome.

Na manhã seguinte, a luz do sol entrou pelas frestas da cortina. Lara acordou com o corpo pesado, a cabeça latejando levemente. Por um segundo, tudo parecia normal demais.

Então lembrou.

Levantou-se de um pulo, destrancou a porta e correu para a sala.

O sofá estava vazio.

O cobertor dobrado com cuidado. O copo d’água lavado na pia. Nenhum sinal de sangue. Nenhum curativo jogado fora. Nenhum homem ferido.

Ela ficou parada no meio da sala, o coração disparado.

— Isso não é possível — murmurou.

Caminhou pelo apartamento, abriu a porta, olhou o corredor. Nada.

Voltou, sentou-se no sofá, tentando organizar os pensamentos. Talvez ele tivesse ido embora cedo, sem acordá-la. Talvez fosse isso.

Mas algo não batia.

Ela foi até o banheiro. As toalhas estavam limpas. Nenhuma mancha de sangue. A caixa de primeiros socorros intacta, como se nunca tivesse sido aberta.

Lara passou a mão pelo rosto, sentindo um arrepio subir pela espinha.

— Eu sonhei — disse em voz alta. — Só isso. Um sonho estranho.

Mas quando foi trocar de roupa, encontrou algo no bolso do casaco que usara na noite anterior.

Um pequeno botão metálico, manchado de sangue seco.

Ela segurou o objeto entre os dedos, sentindo o frio do metal, e soube — com uma certeza que não cabia em palavras — que nem todos os sonhos desaparecem quando a gente acorda.

E que algumas sombras, uma vez convidadas a entrar, nunca saem completamente.

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