Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro de Giulia tossia como um velho cansado, mas seguia em frente.
O motor reclamava a cada semáforo, como se perguntasse por que ainda estava sendo obrigado a funcionar. Eu gostava disso. Barulho demais chama atenção. Barulho honesto vira paisagem. — Daqui a dois quarteirões — ela disse, diminuindo a velocidade. Observei o prédio surgir à frente. Antigo. Imponente. Luzes douradas escorrendo pelas janelas altas. Carros pretos alinhados como animais de guarda. Homens armados fingindo ser decoração. O baile não era anunciado. Nunca era. Quem estava ali sabia exatamente por que estava. — Meia-noite — Giulia continuou. — Eu fico ali, naquela rua lateral. Se você não aparecer… Ela não terminou a frase. — Eu apareço — respondi. Ela me lançou um olhar rápido, duro, cheio de coisas que não cabiam em palavras. — Caterina… — começou. — Não agora. O carro parou. Desliguei antes que o silêncio pesasse demais. Abri a porta, o vestido vermelho escuro contrastando com a lataria velha. Antes de sair, Giulia segurou meu pulso. — Você não deve nada a eles — disse. — Não deixe ninguém te convencer do contrário. Assenti. Soltei-me com cuidado. Fechei a porta. O carro se afastou devagar, engolido pela noite. Fiquei ali por um segundo, respirando fundo. O ar cheirava a dinheiro antigo, perfume caro e pólvora disfarçada. Ajustei a máscara preta no rosto. Ombros retos. Passos firmes. Andei até a entrada principal. O segurança me olhou de cima a baixo. Avaliação rápida. Profissional. Não era um idiota. — Nome da família? — perguntou. — Genovese. Ele não piscou. Apenas inclinou levemente a cabeça e abriu caminho. Era isso. Um sobrenome ainda abria portas, mesmo quando tentavam me apagar dentro dele. Entrei. O salão era grande demais para ser confortável. Lustres pesados, música baixa demais para distrair, mesas afastadas o suficiente para conversas privadas. As pessoas se espalhavam em pequenos grupos, máscaras escondendo rostos que eu conhecia melhor do que gostaria. Famílias inteiras. Poder condensado em tecidos caros. Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja que passou. Segurei pelo caule, como vi meu pai fazer mil vezes. Não bebi. Nunca se bebe quando se está sozinha entre predadores. Caminhei. Cada passo era cálculo. Evitei olhares diretos. Olhares diretos convidam perguntas. Deixei que me vissem apenas como parte do cenário. Vermelho ajuda. Vermelho distrai. Escutei fragmentos. Territórios no porto. Uma rota nova pelo norte. Um homem que “não servia mais”. Tudo normal. Tudo mortal. Foi então que o vi. Cabelos brancos. Não grisalhos. Brancos mesmo. Cortados curtos, precisos. Terno escuro, postura impecável. Ele não ria. Não precisava. As pessoas se inclinavam levemente quando falavam com ele. Meu estômago se contraiu. Eu o conhecia. Ele estivera na nossa casa dezenas de vezes. Sempre à noite. Sempre discreto. Sempre conversando com meu pai no escritório, porta fechada. Sempre saindo com a expressão de quem acabara de ganhar alguma coisa. Lorenzo Bianchi. Não precisei ouvir o nome. A memória fez o trabalho sozinha. Ele falava naquele momento com um homem maior que ele. Ombros largos, pescoço grosso, postura de quem estava acostumado a ser força bruta. A máscara escondia parte do rosto, mas o corpo denunciava. Segurança. Executor. Ou ambos. Aproximei-me devagar, fingindo interesse vago no ambiente. Parei a uma distância calculada. Próxima o suficiente para ouvir. Distante o bastante para não parecer invasão. — O problema do porto não é o transporte — dizia Bianchi, voz baixa, firme. — É quem controla o acesso noturno. Se não controlamos as docas depois das duas, perdemos carga sem saber onde. O homem grande bufou. — Meus homens estão lá. — Seus homens bebem — respondeu Bianchi. — E conversam demais. Houve um silêncio tenso. — Você está dizendo que não confia neles? — o homem perguntou. Inclinei levemente a cabeça, como quem escuta música. — Não — disse Bianchi. — Estou dizendo que alguém já sabe exatamente quando trocar os contêineres. Isso não é falha. É informação vazando. Foi aí que falei. — Ou é alguém que nunca saiu das docas — comentei, tranquila demais para uma estranha. — Alguém que não chama atenção. Que passa o dia ali sem ser notado. Os dois homens se viraram ao mesmo tempo. O ar mudou. O homem grande me avaliou como ameaça imediata. Mãos tensas. Corpo pronto. Bianchi foi diferente. Ele me observou como se eu fosse uma equação inesperada. — E você seria…? — perguntou, educado demais. Dei um meio sorriso sob a máscara. — Apenas alguém que limpa depois que os navios vão embora. Silêncio. O homem grande soltou uma risada curta. — Olha isso — disse. — Agora temos consultores fantasmas. Bianchi ergueu a mão, pedindo calma. Os olhos dele nunca saíram de mim. — Continue — disse. — Se está ouvindo, deve ter algo a acrescentar. Aproximei-me um passo. Um só. — As trocas acontecem sempre no mesmo horário — falei. — Não porque é conveniente. Mas porque alguém garante que as câmeras certas estarão desligadas. Sempre as mesmas duas. Sempre pelo mesmo período. O homem grande franziu o cenho. — Isso é impossível. — Não é — respondi. — Se quem cuida da manutenção trabalha ali há anos. Se conhece o sistema melhor do que quem manda. Bianchi inclinou a cabeça, interessado. — Você fala como alguém que já viu isso acontecer. — Eu vi muita coisa — disse. — Algumas delas não deveriam ter acontecido. O homem grande deu um passo à frente. — Quem diabos é você? Olhei para ele então. Diretamente. Sem medo. — Alguém que não veio dançar. Bianchi sorriu. De verdade, dessa vez. Um sorriso pequeno, perigoso. — Nome — ele pediu. Girei levemente a taça nas mãos. — Nomes pesam — respondi. — E atraem problemas. — Estamos cercados de problemas — ele rebateu. — Um a mais não muda nada. A música mudou. Um tom mais lento. Conversas ao redor diminuíram, curiosas. Eu sentia olhares. Muitos. — Digamos — continuei — que eu sei por que certos contêineres somem. Sei quem ganha com isso. E sei quem vai pagar quando descobrirem. Bianchi me estudava como quem avalia uma peça rara. — Seu pai — ele disse de repente — costumava dizer algo parecido. Meu coração falhou um compasso. — Seu pai acreditava que informação era moeda — ele continuou. — E que quem a desprezava acabava morto. Mantive o rosto impassível. — Um homem sensato. — Era — Bianchi corrigiu. — Você o conhecia bem? Inclinei a cabeça. — O suficiente. O homem grande cruzou os braços. — Isso está ficando interessante demais — disse. — E perigoso. — Interessante sempre foi perigoso — respondi. Bianchi se aproximou um pouco mais. Perto demais. Consegui sentir o cheiro do perfume dele. Seco. Antigo. — Se você não diz quem é — falou — por que eu deveria continuar ouvindo? Encostei a taça nos lábios. Molhei-os sem beber. — Porque eu ainda não contei a parte em que o próximo navio já está comprometido — disse. — E porque meia-noite está mais perto do que parece. Os olhos dele brilharam. — Você gosta de jogos — disse. — Não — corrigi. — Gosto de sair viva deles. O silêncio que se seguiu foi pesado, denso, carregado de possibilidades. Bianchi sorriu de novo. — Então — disse — talvez devêssemos conversar com mais calma. Não respondi. Apenas sustentei o olhar. A música continuava. As máscaras sorriam. E, pela primeira vez naquela noite, eu sabia: Eles estavam me ouvindo.






