Capítulo 2 - Caterina

Fui avisada do baile como se avisam coisas sem importância.

Entre um pedido de café e outro, entre uma ordem e um suspiro impaciente.

— Caterina.

Francesca estava no telefone, sentada na poltrona da sala menor, aquela reservada para anúncios que não mereciam o escritório. O tom dela era neutro demais. Sempre é quando algo já foi decidido.

— Amanhã à noite haverá um baile de máscaras — disse, cobrindo o telefone com a mão. — Um evento importante. Fora desta casa.

Assenti, esperando o complemento. Ele sempre vinha.

— Você ficará aqui.

Não “não poderá ir”.

Não “não está convidada”.

Ficará aqui. Como se fosse escolha. Como se eu fosse móvel.

— Entendido — respondi.

Ela voltou ao telefone, dispensando-me com um gesto mínimo, como quem afasta poeira do ar. Eu já estava virando quando ouvi as vozes.

Isabella surgiu primeiro, quase pulando os últimos degraus da escada.

— Um baile de máscaras! — disse, os olhos brilhando. — Um baile de verdade, Chiara!

Chiara veio logo atrás, ajeitando o cabelo no espelho do corredor.

— Finalmente algo que preste — respondeu. — Cansei dessas reuniões velhas. Máscaras, vestidos, homens novos…

Elas me viram. Não pararam.

— Você viu, Caterina? — Isabella perguntou, com um sorriso torto. — Um baile. Pena que você não vai.

Pena.

A palavra escorreu como ácido.

— Alguém precisa cuidar da casa — completou Chiara. — Nem todo mundo nasceu pra festas.

Elas riram. Passei por elas com a bandeja vazia nas mãos, coluna reta, passos medidos. Nunca se deve correr de quem quer te ver pequena.

Na cozinha, fechei a porta com cuidado. Apoiei a bandeja na pia. Respirei fundo.

Um baile de máscaras.

Não era só festa. Eu sabia disso. Eventos assim eram vitrines. Trocas. Pactos. Pessoas erradas encontrando pessoas piores sob o pretexto de música e luxo.

E eu não poderia ir.

Apesar de morar naquela casa.

Apesar de ser um Genovese no sobrenome.

Apesar de saber mais do que metade dos convidados juntos.

Sentei-me por um instante. Só um. O suficiente para sentir o peso da ideia afundar no peito.

Não era sobre querer dançar. Nunca foi.

Era sobre oportunidade.

Passei o resto da manhã em automático. Preparei almoço. Limpei o que já estava limpo. Escutei Isabella e Chiara discutirem vestidos, máscaras, joias emprestadas. Elas falavam alto de propósito. Queriam que eu ouvisse.

Francesca apareceu pouco depois do almoço.

— Estarei fora o dia todo amanhã — disse. — Certifique-se de que tudo esteja em ordem.

— Sim, senhora.

Ela me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Avaliando. Francesca sempre avaliava.

— E não saia — completou. — Não quero surpresas.

Não respondi. Não precisava. Surpresas eram para quem ainda tinha espaço para errar.

Foi no fim da tarde que consegui sair. Disse que precisava comprar produtos de limpeza. Francesca autorizou com um aceno distraído. Controle demais faz a gente esquecer detalhes.

A rua estava fria. O céu, baixo. Caminhei rápido até o café pequeno a três quadras dali. Não era um lugar bonito. Era discreto. Discrição mantém pessoas vivas.

Giulia já estava lá.

Ela limpava mesas quando cheguei, avental manchado, cabelo preso de qualquer jeito. Nos conhecíamos há anos. Tempo suficiente para não precisar fingir.

— Você tá com cara de problema — ela disse, assim que me viu.

— Sempre estou.

Sentamos no fundo, longe das janelas. Pedi café. Amargo.

— Vai ter um baile — falei, sem rodeios.

Giulia arqueou a sobrancelha.

— Sei. Todo mundo sabe. Patrões falam demais perto de quem finge não existir.

Assenti.

— Eu preciso ir — disse. Direto. Cru.

Ela não riu. Não ironizou. Apenas me olhou com atenção renovada.

— Eles não vão deixar.

— Eu sei.

— Então por que…

— Porque pode ser minha única chance.

Giulia apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se.

— Chance de quê, Caterina?

Respirei fundo. Não dava para dizer isso em voz alta com facilidade.

— De sair viva — respondi. — De trocar tudo o que sei por proteção. Por um nome novo. Um lugar onde ninguém me conheça como “a que limpa”.

Ela ficou em silêncio. O café chegou. Não toquei.

— Você sabe o que está dizendo — Giulia falou por fim. — Isso não é fuga. É traição.

— Não — corrigi. — É sobrevivência.

Ela me encarou por um longo momento. Depois suspirou.

— O que você sabe?

Sorri de lado. Sem humor.

— Demais.

E contei. Não tudo. Nunca tudo. Mas o suficiente para fazer o rosto dela endurecer pouco a pouco.

— Nomes — continuei. — Datas. Trocas. Mortes que nunca existiram no papel. Meu pai confiava em mim mais do que deveria. Francesca acha que eu só sei limpar.

Giulia passou a mão pelo rosto.

— Se você falar com a pessoa errada…

— Eu sei — interrompi. — Por isso precisa ser no baile. Máscaras. Gente armada demais pra sair matando por impulso. É o único lugar onde alguém me ouviria antes de decidir me apagar.

Ela ficou em silêncio outra vez. Depois balançou a cabeça, devagar.

— Você sempre foi mais esperta do que todos eles juntos — disse. — Mas isso… isso pode te matar.

— Ficar também pode.

Pagamos o café. Do lado de fora, o vento cortava.

— Se você for — Giulia disse — vai precisar de ajuda.

— Eu sei.

Ela sorriu, pequeno, cúmplice.

— Então trate de não morrer antes de amanhã.

Voltei para casa quando o céu já escurecia. As luzes estavam acesas. Música vinha do andar de cima. Isabella e Chiara celebravam. Francesca observava.

Passei por elas sem ser notada. Subi depois, silenciosa. No meu quarto, pequeno demais para alguém que um dia foi herdeira, sentei na cama e encarei minhas mãos.

Amanhã haveria um baile.

E, gostassem eles ou não, eu precisava estar lá.

Porque ninguém limpa cinzas a vida inteira sem aprender onde começa o fogo.

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