Capítulo 3 - Caterina

O dia do baile começou como todos os outros: cedo demais e com ordens demais.

— Caterina!

A voz de Isabella atravessou a casa antes mesmo do sol terminar de subir. Não havia urgência real, só a necessidade constante de lembrar que eu existia para servir.

— Suba. Agora.

Subi.

O quarto delas parecia uma vitrine aberta. Vestidos pendurados como promessas caras, sapatos alinhados demais para pés que nunca andaram sozinhos, caixas de joias abertas sobre a cama. O cheiro de perfume era tão forte que quase mascarava a ansiedade.

Quase.

Chiara estava sentada diante do espelho, cabelo preso em rolos, maquiagem pela metade. Isabella caminhava de um lado para o outro com um vestido dourado nas mãos.

— Esse ou o azul? — perguntou, sem olhar pra mim.

— O azul destaca mais sua pele — respondi, automática.

Ela sorriu satisfeita. Não por mim. Nunca por mim.

— Viu? — disse a Chiara. — Ela entende disso. Pra quem vive esfregando chão, tem bom gosto.

Chiara riu.

— Claro que tem. Ela passa o dia observando gente melhor.

Não respondi. Ajustei o vestido azul sobre a cama. Comecei a separar acessórios. Minhas mãos sabiam o que fazer. Sempre souberam.

Enquanto ajudava, elas falavam. Alto. Demais.

— Dizem que vai ter gente de fora — Isabella comentou. — Homens novos.

— Poderosos — corrigiu Chiara. — Os que realmente importam.

— Espero que sim — Isabella suspirou. — Cansei desses de sempre.

Fiquei em silêncio, prendendo o colar no pescoço dela. Se eu levantasse a cabeça, se meus olhos encontrassem os delas, elas lembrariam que eu era humana. E isso as incomodaria.

— Cuidado — Chiara disse de repente. — Esse vestido custa mais do que você ganha em um ano.

Não era uma pergunta. Era um lembrete.

— Sim — respondi.

Quando terminei, elas estavam impecáveis. Lindas. Vazias. Francesca apareceu à porta, avaliando o trabalho como quem inspeciona mercadoria.

— Está aceitável — disse. — Caterina, limpe o quarto depois. E não saia.

— Sim, senhora.

Elas saíram rindo, passos apressados, saltos batendo no chão como aplausos que não eram para mim. Francesca seguiu logo atrás, perfume caro, coluna ereta.

A casa começou a esvaziar. O som dos carros partindo ecoou pelo portão principal. Fiquei parada por um instante no corredor, ouvindo o silêncio se instalar.

Era agora ou nunca.

Desci para a área dos funcionários. Portas que ninguém importante usava. Corredores estreitos. Câmeras antigas. Conhecia cada ângulo. Cada ponto cego.

Estava guardando os últimos objetos quando ouvi o som leve na porta lateral. Três batidas curtas. Uma pausa. Duas batidas.

Meu coração disparou.

Abri só o suficiente para ver Giulia.

Ela entrou rápido, puxando a porta atrás de si, como quem já sabia que não podia ser vista. Usava roupas simples, cabelo preso, expressão firme. Nas mãos, uma sacola de papelão amassada.

— Você enlouqueceu — sussurrei.

— Talvez — ela respondeu. — Mas você não pode ir nua, pode?

Olhei para a sacola como se fosse uma arma.

— Eles ainda estão na rua — continuei. — Se alguém te vir…

— Não vão — cortou. — Eu sei por onde entrar. Sempre soube.

Ela respirou fundo e colocou a sacola sobre a mesa de metal. Abriu com cuidado, como se estivesse revelando algo sagrado.

O vestido era vermelho.

Não um vermelho berrante. Um vermelho profundo, escuro, quase vinho. Simples nas linhas, elegante no corte. Nada exagerado. Nada que gritasse riqueza. Mas gritava presença.

Engoli em seco.

— Giulia…

Ela tirou a máscara em seguida. Preta. Lisa. Sem adornos. Cobria o suficiente para esconder, mas não o bastante para apagar.

— Não é emprestado — ela disse. — É seu.

— Eu não posso aceitar isso.

Ela me encarou.

— Você pode aceitar proteção, um nome novo, uma vida longe daqui… mas não um vestido?

Fiquei em silêncio.

— Caterina — ela continuou, mais baixa — você precisa parecer alguém que merece ser ouvida. Não alguém que pede permissão.

Passei os dedos pelo tecido. Era macio. Forte. Vivo.

— Se isso der errado… — comecei.

— Vai dar errado de qualquer jeito — ela interrompeu. — Pelo menos assim, você escolhe como.

Fechei os olhos por um instante. Pensei no chão que esfreguei. No sangue que limpei. Nos segredos que carregava como ossos dentro do peito.

— Ajuda-me — disse.

Giulia sorriu. Pequeno. Determinado.

— Sempre.

Ela me ajudou a trocar de roupa ali mesmo, mãos rápidas, experientes. Prendeu meu cabelo de um jeito simples, mas firme. Ajustou o vestido no meu corpo como se sempre tivesse sido feito para mim.

Por fim, colocou a máscara preta no meu rosto.

— Olhe pra mim — disse.

Olhei.

— Eles não fazem ideia do que estão prestes a perder — completou.

Respirei fundo. Pela primeira vez em muito tempo, não senti cinzas.

Senti fogo.

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