Mundo de ficçãoIniciar sessãoO café da manhã mal havia sido servido e Elara já batia palmas, em pé, como uma general animada diante de um exército sonolento.
— Vamos, vamos, vamos! — apressava. — Temos horário marcado no salão e depois o shopping. Temos muita coisa pra fazer hoje! Lucy quase engasgou com o suco. Ainda tentava se acostumar à ideia de sair — sair de verdade — quando já estava sendo puxada para fora de casa, cercada pelas primas risonhas, todas vestidas com uma leveza que parecia natural nelas. No carro, Elara falava sem parar, Mireya ria, e Lucy observava a paisagem pela janela, tentando controlar a ansiedade que crescia no peito. O salão de beleza era grande, claro, com paredes espelhadas e um cheiro doce no ar. Assim que entrou, Lucy sentiu o corpo enrijecer. Nunca estivera em um lugar daqueles. As mulheres bonitas, os cabelos impecáveis, as conversas soltas… tudo parecia gritar que ela não pertencia ali. Sentou-se na cadeira indicada com cuidado excessivo, como se pudesse quebrá-la apenas por existir. — Relaxa — Mireya murmurou, pousando a mão em seu ombro. — Hoje é sobre você. Começaram pelas sobrancelhas. Lucy fechou os olhos quando a profissional se aproximou, o coração acelerado, mas a dor foi pequena, quase irrelevante diante da sensação estranha de ser cuidada. A depilação veio depois, arrancando-lhe uma careta e um suspiro surpreso; doeu mais do que imaginava, mas Elara segurou sua mão, rindo e dizendo que aquilo era um “rito de passagem”. As unhas foram feitas com calma, cor escolhida pelas primas, algo delicado, elegante. A massagem capilar foi o ponto de ruptura: os dedos firmes no couro cabeludo, o cheiro do shampoo, a água morna. Lucy sentiu os ombros relaxarem, o corpo finalmente cedendo. Quase dormiu ali. Quando a cabeleireira terminou e girou a cadeira em direção ao espelho, Lucy precisou de alguns segundos para entender o que via. O cabelo negro brilhava como nunca, caindo macio, alinhado, como um véu escuro emoldurando seu rosto. A pele parecia mais viva, o olhar menos opaco. Era ela, mas também não era. Lucy levou a mão à boca, os olhos marejados. Sentia-se bonita. E, junto com isso, veio a culpa, pesada e automática, como se estivesse cometendo um erro por permitir aquele pensamento. Como se beleza não fosse um direito seu. — Ei — Elara disse, firme, encontrando seu olhar no espelho. — Pode parar com isso agora. Você é linda. Sempre foi. Só não te deixaram enxergar. Lucy chorou. Chorou em silêncio, depois riu, depois chorou de novo, abraçada pelas duas, enquanto as outras mulheres do salão sorriam com ternura. O shopping veio em seguida como um turbilhão. Entraram em loja após loja, escolhendo roupas, sapatos, bolsas, como se os preços não existissem. Lucy tentava recusar, constrangida, mas era ignorada com facilidade. “Experimenta”, “confia”, “essa é a sua cara”, diziam, empurrando-a para os provadores. Lucy ainda parecia caminhar em um terreno que não conhecia quando entrou na primeira loja sozinha, sem alguém dizendo “isso não é pra você” antes mesmo que tocasse a arara. As paredes estavam cobertas por camisetas de bandas — estampas grandes, gastas de propósito, nomes que ela conhecia de cor porque sempre ouvira escondida, no volume baixo do computador antigo. Passou os dedos pelo algodão de uma delas, sentindo o tecido macio, quase desacreditada. — Você gosta dessa? — Elara perguntou, surgindo atrás dela. Lucy assentiu devagar, como se admitir aquilo fosse um pequeno crime. Nunca imaginara que poderia vestir algo assim. Camisetas de banda eram para garotas descoladas, bonitas, seguras… não para ela. Ainda assim, levou algumas para o provador. Quando pararam para almoçar, Lucy já não usava mais nada que lembrasse a garota encolhida do dia anterior; não era de fato a sua personalidade ali, mas algo com o qual poderia se acostumar. Elara praticamente a empurrou para fora do provador com um sorriso vitorioso, como quem apresenta uma obra-prima recém-descoberta. Lucy vestia um short de alfaiataria de cintura média, em tecido encorpado o suficiente para não marcar, na cor caramelo, que alongava as pernas sem esforço. A blusa preta de alça larga, levemente estruturada no busto, tinha um decote quadrado moderno e jovem, nada exagerado, apenas o bastante para valorizar sem expor. Por cima, uma camisa branca oversized, usada aberta, dava personalidade ao conjunto, aquele ar despretensioso que parecia casual, mas não era. Nos pés, um tênis branco limpo, confortável, estiloso, que permitia andar sem medo, sem dor. Lucy parou diante do espelho do restaurante por alguns segundos antes de se sentar. Observou o próprio reflexo com atenção, quase desconfiada. Não havia pneu escapando pela lateral da roupa, não havia tecido repuxando nos braços ou no busto, não havia aquela sensação constante de que algo estava errado. A blusa não apertava, o short não subia quando ela se mexia. Ela respirava normalmente. Não precisava sugar o ar, nem prender o abdômen, nem se ajeitar a cada movimento. Era isso, percebeu, com um nó súbito na garganta. Não era o corpo o problema. Nunca tinha sido. Usar o tamanho certo fazia toda a diferença. O corpo dela não era inadequado, só havia sido vestido errado a vida inteira. Sentou-se à mesa com as primas, ainda tocando de leve o tecido da camisa, como se precisasse confirmar que aquilo era real. Elara a observava com um sorriso satisfeito, Mireya assentiu discretamente, orgulhosa. Lucy sentiu o peito aquecer, uma emoção nova se espalhando devagar. Elas deixaram o restaurante como quem sai de um cenário ensolarado demais para ser real. As portas de vidro se abriram e o burburinho do shopping voltou a engolir o trio, agora com sacolas penduradas nos braços, algumas maiores, outras pequenas, todas cheias de escolhas que Lucy jamais imaginara fazer. Havia leveza em seus passos — não aquela leveza forçada de quem tenta parecer invisível, mas algo novo, quase atrevido. O sorriso vinha fácil, escapava sem que ela percebesse, e por um instante Lucy se esqueceu de como era caminhar olhando para o chão. Elara falava sobre onde iriam em seguida, Mireya comentava algo sobre café ou sobremesa, e Lucy apenas acompanhava, absorvendo tudo. O reflexo nos vidros das vitrines devolvia uma versão sua que ainda causava estranhamento: cabelo brilhando, postura menos curvada, roupas que não pediam desculpas por existir. Era uma Lucy que nunca fora vista — nem por ela mesma. Foi então que Dustin a viu. A princípio, não houve reconhecimento. Apenas aquele reflexo instintivo de atenção, o olhar que se prende a algo bonito sem saber exatamente por quê. Ele diminuiu o passo, encarando mais uma vez, o cenho franzido, como se o cérebro tentasse encaixar uma peça fora do lugar. A garota no meio das duas mulheres altas, bem vestida, sorrindo… havia algo familiar ali. Demais. — Não pode ser… — murmurou, quase para si, sentindo o choque se espalhar pelo peito. Jeniffer seguiu o olhar dele, já incomodada, braços cruzados. O sorriso morreu rápido ao perceber que Dustin simplesmente não piscava. — O que foi agora? — perguntou, seca. — Aquela ali no meio… é a Lucy Baleia — ele disse em voz baixa, ainda atônito, como se temesse que o nome invocasse algo impossível. Jeniffer soltou uma gargalhada curta, debochada, quase agressiva. — Claro que não é, idiota. — revirou os olhos. — Lucy Baleia nunca nem pisou num shopping desses. E aquela garota, além de bonita e bem vestida, tem até tatuagem. — inclinou a cabeça, analisando. — Você ficou estranho depois de passar aquele mês fingindo que gostava dela… não vai me dizer que se apaixonou, né? Ela fez um biquinho exagerado, provocando, mas Dustin mal ouviu. Porque naquele instante Lucy finalmente ergueu o olhar. O sorriso morreu no mesmo segundo. O corpo reagiu antes da mente: os ombros enrijeceram, o peito afundou, e os olhos se encheram de lágrimas tão rápidas que a assustaram. A imagem dele ali, parado, olhando para ela como se tivesse visto um fantasma, trouxe de volta a memória com violência cruel. A voz dele, dois dias antes, clara demais, ferina demais: “Achou mesmo que eu ia querer você? Se toca. Você não pertence a esse lugar.” O mundo pareceu perder o som por um segundo. Lucy desviou o olhar, o nó subindo pela garganta, tentando respirar, tentando não desmontar ali mesmo. Mas Mireya percebeu na hora. O sorriso sumiu, o corpo virou instintivamente na direção do olhar de Lucy, e quando encontrou Dustin, algo frio e predatório passou por seus olhos. — Quem é aquele idiota? — perguntou, a voz baixa, dura. Lucy engoliu em seco, sentindo as lágrimas queimarem, mas se recusando a deixá-las cair. — Um menino da escola — respondeu apenas. — Vamos sair daqui. Elara não fez perguntas. Apenas se posicionou de forma sutil à frente de Lucy, como quem protege sem anunciar, enquanto Mireya mantinha o olhar fixo em Dustin por tempo demais, o suficiente para deixá-lo desconfortável. As três seguiram em frente, passos firmes, sacolas balançando, a imagem de algo que Lucy jamais fora autorizada a ser.






