Mundo de ficçãoIniciar sessãoNaquela mesma noite, decidiu-se que Lucy não dormiria na casa de Ethan.
Não por rejeição, mas por cuidado. Foi Seraphine, a esposa de Rowan, quem sugeriu com delicadeza que o ambiente da casa do Blackmoor do meio estava pesado demais para uma garota que mal começara a compreender o tamanho da própria história. Ethan precisava de tempo com Theo, tempo para remendar algo que ainda sangrava aberto, e Lucy não deveria carregar aquele silêncio tenso como mais uma culpa nos ombros. Rowan apenas concordou, sem piadas dessa vez. Seraphine Blackmoor era uma mulher impossível de ignorar, uma presença intensa e agradável mesmo sem abrir a boca. Alta, elegante, de traços suaves e postura impecável, movia-se como um espectro angelical. Havia nela uma gentileza natural, um tipo raro de força que não vinha da imposição, mas da presença. Os cabelos claros caíam soltos pelas costas, contrastando com os olhos atentos que nunca perdiam um detalhe. Ela tinha três filhos. Duas meninas já crescidas, bonitas e esguias como a mãe, com o cabelo negro herdado de Rowan, marca inconfundível dos Blackmoor. O bebê, um menino ainda pequeno demais para entender o peso daquela noite, dormia alheio ao mundo, protegido no colo de uma das irmãs. As garotas, Elara e Mireya, haviam assistido à decisão do conselho e, ao contrário do que Lucy esperava, não havia curiosidade cruel nem julgamento em seus olhares. Apenas uma aceitação simples, quase desarmante, como se a presença dela ali fosse a coisa mais natural do mundo. Rowan não vivia no condomínio fechado. Sua casa ficava mais distante, erguida na encosta de uma montanha que observava a cidade de cima, envolta por árvores altas e um silêncio que parecia escolhido a dedo. Ainda assim, não era isolada. Era grande, elegante, de linhas modernas e amplas janelas de vidro que deixavam a luz entrar sem pedir permissão. Não havia ali os tons rústicos e pesados da casa de Ethan; tudo era mais claro, mais aberto, mais vivo. Lucy percebeu isso assim que entrou e se sentiu surpresa com o lugar novo a abraçando, sendo acolhida pelo desconhecido como nunca fora antes em lugar algum. Ninguém a observava como se fosse um objeto fora do lugar. Ninguém mediu seus passos ou sua postura. Ofereceram-lhe água, depois chá, mas sem insistência, respeitando o jeito cauteloso com que ela se movia, como quem ainda espera ser repreendida a qualquer segundo. Quando finalmente a conduziram ao quarto onde passaria a noite, Lucy sentiu algo apertar no peito, mas não de medo, sim de estranheza. Não havia sido conduzida para um quarto de hóspedes ou o sofá, mas para um lugar acalorado. O quarto pertencia à filha mais nova de Rowan. Mireya cursava medicina veterinária, e isso estava estampado em cada detalhe do ambiente. Havia livros empilhados sobre a escrivaninha, ilustrações anatômicas de animais presas à parede, pequenos objetos colecionados com carinho: miniaturas de lobos, cavalos, aves; fotografias emolduradas de resgates, filhotes, paisagens naturais. O cheiro era leve, limpo, com algo de ervas secas e papel antigo. Lucy sentou-se na cama devagar, passando os dedos pelo tecido macio da colcha, como se precisasse confirmar que aquilo era real. Pela primeira vez em tantos anos de vida, ela não se sentia tolerada. Sentia-se… acolhida. A batida na porta foi leve, quase tímida, como se quem estivesse do outro lado não quisesse assustá-la. Lucy levantou o olhar ainda sentada na beira da cama quando a maçaneta girou devagar e Mireya apareceu, equilibrando um pequeno monte de toalhas limpas nos braços. Havia um sorriso aberto em seu rosto, daqueles que não pedem nada em troca, e isso, por si só, já deixou Lucy sem saber muito bem como reagir. — Posso entrar? — perguntou, mais por gentileza do que por necessidade. Sem esperar resposta, apontou com o queixo para a porta ao lado. — O banheiro é ali. Fica à vontade, tá? Tudo o que você precisar está lá. Lucy agradeceu num fio de voz, observando Mireya sair do quarto com a mesma leveza com que entrara. Quando empurrou a porta do banheiro, precisou parar por um segundo inteiro para absorver o espaço. Era amplo, claro, limpo demais. Havia uma banheira grande encostada na parede, prateleiras organizadas, toalhas dobradas com cuidado. O espelho ocupava quase toda a extensão da pia, alto, impossível de evitar. E foi ali que Lucy se viu. Ou talvez fosse apenas ela quem nunca se permitira olhar por tanto tempo. O reflexo devolvia uma garota de manequim quarenta e quatro, um corpo que, fora daquele ambiente, não era nada além do comum — mas que ali, cercado por lobas ágeis, jovens, magras e naturalmente bonitas, sempre parecera errado. Ela não tinha a cintura curvilínea, nem o ventre plano; havia um pneuzinho discreto ali, algo que aprendera a esconder com camadas de tecido e vergonha. Os ombros eram largos demais para o que esperavam dela, as coxas fortes demais para o padrão silencioso que a escola e a casa dos Halley haviam imposto. O cabelo negro, agora solto, caía pesado pelas costas, com um frizz constante de quem nunca teve acesso a bons produtos, nem a tempo, nem a cuidado. Lucy não usava shampoo e condicionador com frequência; muitas vezes lavara tudo com sabonete comum, porque a matriarca Halley não via sentido em “desperdiçar” produtos com alguém como ela. Luxo, dizia. E luxo não era para todos. Agora, o banheiro parecia um mundo paralelo. Havia um sabonete para o corpo e outro específico para o rosto. Shampoos alinhados por tipo, condicionadores, máscaras de hidratação, frascos com nomes difíceis, acidificantes, esfoliantes, sais de banho, máscaras faciais. Lucy tocava tudo com cuidado, quase com medo de quebrar algo apenas por encostar. Escolheu devagar, como se estivesse aprendendo um ritual novo, e entrou na banheira com uma reverência silenciosa. Tomou o banho mais longo de sua vida. A água quente parecia dissolver não só a sujeira, mas anos de cansaço acumulado. Lucy fechou os olhos, deixando o cheiro dos produtos se misturar ao vapor, sentindo o corpo relaxar de um jeito que nunca experimentara antes. Pela primeira vez, não havia pressa. Ninguém batendo à porta. Ninguém contando o tempo. Apenas água, silêncio e uma sensação estranha de cuidado. Quando saiu do banho, vestiu sua camisola. Era o único pijama que possuía: antigo, pesado, cobrindo do pulso até as canelas, um modelo claramente feito para outra geração. A matriarca Halley lhe dera aquilo anos antes, com um sorriso torto, dizendo que encontrara nas coisas da avó — e era verdade. O tecido ainda carregava um leve cheiro de mofo, impossível de tirar completamente. Todas as roupas de Lucy eram assim: largas demais, fechadas demais, inadequadas demais para alguém da sua idade. Não era por gosto. Era por sobrevivência. Ao voltar para o quarto, parou na porta. Elara e Mireya estavam ali. As duas vestiam pijamas leves e curtos, confortáveis, os cabelos ainda úmidos, hidratados, caindo soltos sobre os ombros bronzeados. Conversavam animadas, sentadas na cama, como se aquela fosse apenas mais uma noite comum entre irmãs. Quando viram Lucy, sorriram, mas o estranhamento era grande demais para ser completamente escondido. — Lucy… — Elara foi a primeira a falar, levantando-se com um meio riso. — Você não está num convento! Pode vestir algo mais confortável! Somos todas meninas, estamos em família! As palavras, ditas sem maldade, aqueceram o peito de Lucy de um jeito inesperado. Ainda assim, ela baixou o olhar, puxando inconscientemente a barra da camisola. — É o único que eu tenho — confessou, quase pedindo desculpas por existir daquele jeito. Mireya franziu a testa, surpresa. — Só… um pijama? Lucy assentiu, ajeitando a alça da mochila no ombro, como se ela fosse uma extensão do próprio corpo. — Nunca tive muitas coisas. Tudo o que tenho está aqui — explicou. — A senhora Halley costumava dizer que bens materiais não são para todos. E… bom, eu era só a filha bastarda da empregada falecida. Eu me sentia grata por ter alguma coisa. Ela até me deu um computador pra estudar e um celular… — completou, rápido. — Eram usados, mas funcionavam. O silêncio que se seguiu foi pesado, indignado. — Que… que vagabunda — Elara soltou, sem medir palavras, o rosto tomado por revolta. — Você sabe que temos dinheiro pra você ter o que quiser, não sabe? Lucy piscou, confusa, como se aquela possibilidade nunca tivesse sido considerada de verdade. Foi então que Elara bateu palmas, animada, como quem decide algo importante na hora. — Já sei! — anunciou, os olhos brilhando. — Amanhã vai ser dia das garotas! Lucy não soube o que responder. Mas, pela primeira vez, não foi o medo que ocupou o espaço dentro dela. Foi expectativa. Tímida, mas presente ali.






