6

O interrogatório se arrastou por horas. Perguntas se repetiam sob ângulos diferentes, silêncios eram pressionados até doer, e cada resposta parecia arrancar mais um pedaço da verdade que, no fim, já não protegia ninguém. Quando as tochas do jardim externo foram acesas automaticamente e a luz natural desapareceu por completo, ficou claro que o conselho precisava se retirar para deliberar.

Assim que a porta se fechou atrás dos conselheiros, o ambiente ficou suspenso em uma tensão quase física. Helena permanecia amarrada, o corpo agora rígido não por contenção, mas por ódio contido. Theo observava a mulher que chamara de mãe a vida inteira com um nó no peito que misturava raiva, humilhação e uma dor que ainda não sabia nomear. Cada detalhe nela, o cabelo, a postura, o jeito de erguer o queixo, parecia agora uma mentira cuidadosamente ensaiada. Ele não conseguia mais enxergar afeto ali, apenas ambição e cálculo.

Lucy, por outro lado, não conseguia desviar os olhos.

Havia nela um turbilhão de sentimentos que se chocavam sem ordem: nojo, medo, uma curiosidade amarga e uma tristeza profunda demais para ser organizada. Tudo o que vivera até então parecia ganhar um novo significado agora que aquela mulher estava ali, exposta, derrotada… e ainda assim perigosa.

Quando Helena ergueu o olhar e encontrou o de Lucy, algo percorreu o corpo da garota como um arrepio gelado. Mesmo presa, mesmo cercada por lobas que poderiam matá-la se quisessem, Helena sorriu.

Não era um sorriso de desespero.

Era cruel.

— Todas as maldições que sussurrei para você deram mesmo resultado — disse, a voz baixa, cortante, sem pressa. — Não se parece em nada com ninguém do clã. É tão… horrorosa. Tão desajeitada.

Ela riu.

E não foi uma risada nervosa, nem histérica. Foi limpa, satisfeita, como se cada palavra fosse um prêmio finalmente entregue.

Lucy sentiu o estômago embrulhar, o corpo encolher por reflexo, anos de humilhação voltando à tona de uma vez só. O riso de Helena só cessou quando uma das lunas avançou e lhe deu um tapa seco no rosto, o som ecoando pela sala ampla. Ainda assim, mesmo com a cabeça virada de lado, Helena continuou sorrindo, o canto da boca marcado por sangue e desprezo.

O silêncio que se seguiu foi denso.

Ethan estava afastado de todos, próximo à janela, o olhar perdido na escuridão do lado de fora. Não falava. Não reagia. A presença dele ali parecia feita apenas de peso e ausência, como se estivesse preso entre a fúria de um alfa e a culpa de um homem que perdera dezessete anos de uma filha sem saber. Não havia direcionado sequer um olhar para Lucy desde que o conselho se retirara. Não olhava também para Theo. Parecia incapaz de qualquer gesto que não fosse existir.

Theo, por sua vez, sentia-se completamente à deriva.

O chão sob seus pés não era mais sólido. Tudo o que acreditava ser: seu nome, seu sangue, seu lugar… estava agora em julgamento atrás de portas fechadas. A mente rodava em possibilidades que o aterrorizavam: seria devolvido aos Halley? Expulso da alcatéia? Morto para evitar um precedente perigoso? Ou condenado a viver como algo que sempre aprendeu a desprezar?

Ele olhou para Lucy outra vez.

Ela estava ali, frágil e firme ao mesmo tempo, cercada por mulheres que a protegiam como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.

E ele… não sabia mais quem era.

Quando o conselho retornasse, nada permaneceria igual.

O conselho demorou mais do que qualquer um esperava.

O tempo escorria lento, grudando na pele, e a fome começou a se impor como mais uma forma de tortura silenciosa. Quando ficou claro que não haveria decisão rápida, as mulheres da alcatéia se moveram quase por instinto. A cozinha, antes apenas um espaço funcional, ganhou vida: mãos experientes cortando, temperando, acendendo o fogo; panelas grandes demais para refeições comuns; carnes, pães, raízes, molhos espessos, ervas frescas. O cheiro se espalhou pela casa inteira, quente e reconfortante, contrastando cruelmente com a tensão que ainda pairava no ar.

A mesa da sala de reuniões foi transformada em um banquete improvisado, algo antigo e simbólico: comer juntos enquanto se espera o veredito, como se o corpo precisasse lembrar que ainda estava vivo antes que o destino fosse decidido.

Lucy hesitou na soleira da porta.

Havia comida demais. Cores demais. Abundância demais.

Ela não estava acostumada àquilo. Sua memória de refeições era feita de caixas, embalagens, prazos de validade no limite. Fast food barato, comida requentada, coisas que não exigiam tempo nem cuidado. Na casa dos Halley, ela nunca se sentara à mesa; limpava tudo depois, sob o olhar atento da matriarca, que fazia questão de garantir que Lucy não ousasse tocar em sobras que “não lhe pertenciam”.

Agora, ninguém a impedia.

Ainda assim, ela se sentou devagar, como quem teme ser repreendida a qualquer segundo. Pegou pouca coisa no prato, mas quando levou a primeira mordida à boca, algo nela cedeu. O tempero era profundo, equilibrado, vivo. Lucy mastigava devagar, quase com reverência, sentindo nuances que nunca aprendera a nomear. Foi uma das poucas — junto das crianças — que realmente comeu com prazer, alheia aos olhares carregados de expectativa dos adultos, que mal sentiam o gosto do que colocavam na boca.

Ethan não se sentou.

Permaneceu de pé, distante, apoiado no encosto de uma cadeira como se o peso do próprio corpo fosse excessivo. Bebeu apenas um copo de água, em silêncio, os olhos ora perdidos, ora fixos em lugar nenhum. Comer parecia irrelevante diante do que estava em jogo.

Quando a porta da sala se abriu novamente, o som cortou o ambiente como uma lâmina.

O conselho retornara.

Todos se levantaram quase ao mesmo tempo. A conversa cessou. Talheres foram deixados de lado. O ar voltou a ficar pesado, denso, carregado de autoridade antiga. Magnus Blackmoor entrou primeiro, o patriarca caminhando com a firmeza de quem carregava séculos de tradição nos ombros. Os demais conselheiros tomaram seus lugares, e a mesa — agora marcada por pratos e restos de comida — tornou-se novamente um espaço de julgamento.

A voz que anunciou a sentença foi clara, implacável.

Margaret Halley seria entregue ao juízo lupino máximo, acusada de conspiração, ocultação de linhagem e cumplicidade em assassinato em potencial. O patriarca Halley perderia títulos, alianças e proteção da alcatéia, mas não cumpriria uma pena. Helena Ravaryn Blackmoor, por sua vez, responderia por traição à linhagem, falsificação de marca sagrada e violação dos ritos ancestrais, crimes que a afastariam para sempre de qualquer posição de poder, sob vigilância permanente, presa até os últimos dias de sua vida.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas ainda não era o pior.

Então veio o nome que fez o coração de Theo quase parar.

— Quanto ao jovem Theo — continuou Magnus, a voz grave —, a decisão final caberá a Ethan Blackmoor. Por sangue, ele não pertence à linhagem. Por criação, foi moldado como um de nós. Se o alfa assim desejar, o rapaz continuará sendo criado como um Blackmoor, sob nossa observação.

O mundo pareceu encolher ao redor de Theo.

Ele sentiu todos os olhares se voltarem para si, sentiu o peso da dúvida, do julgamento, da possibilidade de ser descartado como algo defeituoso. O peito ardia, a garganta fechava. Pela primeira vez desde criança, teve medo real de perder tudo.

Ethan deu um passo à frente.

A voz, quando veio, não era alta. Não precisava ser.

— Eu o criei por todos esses anos — disse, com firmeza contida. — Ensinei, corrigi, errei e acertei como pai. Theo não tem culpa de nada do que foi feito.

Ele olhou para o garoto, e havia ali dor, mas também decisão.

— Ele continuará sendo meu filho.

Theo sentiu o ar voltar aos pulmões em um soluço silencioso, sem saber se aquilo era alívio ou o início de algo ainda mais complicado. Lucy, do outro lado da sala, observava a cena com o coração apertado, consciente de que, apesar da sentença, nada seria simples a partir dali.

O conselho estava encerrado.

Mas as consequências…

essas estavam apenas começando.

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