3

O carro avançava pelas ruas largas do condomínio em absoluto silêncio.

Os cinco irmãos Blackmoor ocupavam o veículo como uma presença única,, pesada demais para aquele espaço fechado. Nenhum deles falava. O ronco baixo do motor parecia inadequado diante do que se formava entre eles.

Adrian dirigia, os olhos fixos à frente, o maxilar travado. Não precisava olhar para os irmãos para saber que todos estavam no mesmo estado: alerta máximo.

Rowan estava recostado no banco, braços cruzados, o sorriso provocador completamente ausente. Pela primeira vez em muito tempo, não tinha piadas. Batia o dedo no próprio joelho num ritmo impaciente.

Caleb observava pela janela, analisando cada rua, cada casa, como se montasse estratégias em silêncio. Ele pensava em consequências. Sempre pensava.

Lucas parecia menor do que o habitual, os ombros tensos, a inquietação agora contida. Ainda não tinha idade para decisões como aquela, mas entendia o peso delas.

Ethan permanecia imóvel no banco de trás. O olhar distante, fixo em algo que só ele via. A imagem da garota não lhe saía da mente. O choro contido. A vergonha. A marca.

A casa dos Halley surgiu ao final da rua, grande, iluminada, imponente. Amiga da alcatéia. Aliada antiga.

Adrian reduziu a velocidade.

---

No terceiro andar da casa, Lucy chorava em silêncio.

O quarto era pequeno demais para o tamanho da casa. Não ficava no primeiro piso, nem no segundo, onde os Halley dormiam. Ficava acima. Isolado. Quase escondido.

Um quarto que tinha tudo, mas que ainda assim parecia um lembrete constante: aquele não era o lugar dela.

Ela se sentou na beira da cama, o celular tremendo nas mãos.

Os vídeos estavam por toda parte.

Ela levantando a blusa.

O biquíni aparecendo.

O riso abafado no arbusto.

Marcada. Marcada de novo. Marcada mais uma vez.

“Coragem não é o nome disso”

“Alguém avisa que isso não é corpo pra biquíni?”

“A empregadinha achou que era quem?”

“Dustin fez foi um favor em expor”

Lucy largou o celular como se queimasse.

Um mês.

Ele fora gentil por um mês inteiro. Atencioso. Paciente. Fizera-a se sentir vista. Especial.

E tudo aquilo… para isso.

O choro voltou, silencioso, doído demais para sair em som.

Foi então que ouviu o barulho.

Carro.

Ela se aproximou da janela com cuidado, afastando minimamente a cortina.

O mesmo veículo da noite anterior estava estacionando.

O coração de Lucy gelou.

Um por um, cinco homens desceram do carro.

Altos. Imponentes. Iguais no peso que carregavam no corpo e no olhar.

O homem que a deixara ali desceu por último.

Ethan.

Ele ergueu o rosto.

Por um segundo, Lucy teve a estranha sensação de que ele olhava diretamente para ela. Como se soubesse. Como se sentisse.

O pânico a atingiu de uma vez.

Lucy recuou, afastando-se da janela, o corpo tremendo. Se escondeu atrás da parede, o coração disparado demais para pensar com clareza.

O que eles queriam?

Por que estavam ali?

Lá embaixo, a casa dos Halley permanecia impecável, silenciosa, alheia ao fato de que, naquele dia, o equilíbrio cuidadosamente mantido por dezessete anos estava prestes a ruir.

E Lucy, sem saber, era o centro de tudo.

---

A porta principal da casa dos Halley se abriu com cuidado demais.

Richard Halley estava à frente. Um homem alto, cabelos grisalhos bem aparados, roupas caras escolhidas para transmitir respeito e neutralidade. Sempre fora bom em manter alianças. O sorriso que tentou esboçar morreu antes de se formar.

Ao lado dele, Margaret Halley mantinha a postura ereta, mas as mãos tremiam levemente ao lado do corpo. Elegante, maquiagem discreta demais para alguém que claramente não esperava visitas daquela magnitude.

Os cinco Blackmoor parados diante deles eram impossíveis de ignorar.

No mundo lupino, eram conhecidos como Os Cinco Alfas, não por governarem a mesma alcatéia, mas porque cada um, isoladamente, possuía força, território e influência suficientes para liderar. Juntos, eram uma força que poucas famílias ousavam contrariar.

— A que devemos a honra…? — Richard começou, tentando manter a voz firme.

Margaret, porém, já se afastava lentamente.

O celular apareceu em sua mão como um reflexo nervoso. Os dedos começaram a digitar rápido demais, o rosto empalidecendo conforme lia e apagava mensagens antes mesmo de enviá-las.

— Cadê a garota? — Ethan perguntou.

A frieza da voz fez o ar mudar.

— Garota? — Richard tentou parecer confuso, mas falhou. A palavra saiu com um leve tremor.

— Chame-a logo — Adrian disse, sem elevar o tom. — Precisamos vê-la. E não temos todo o tempo do mundo.

Richard engoliu em seco.

Olhou para a esposa.

Não precisou dizer nada.

Margaret assentiu quase imperceptivelmente, o medo escorrendo pelos poros. Para lobos, aquilo era impossível de esconder.

— Vou buscá-la — disse, a voz trêmula. — Ela… ela deve estar no quarto.

Subiu as escadas rápido demais para alguém que fingia normalidade.

Nenhum dos irmãos comentou. Mas todos perceberam.

---

Na área mais nobre do condomínio, a quilômetros dali, Helena Blackmoor segurava o celular com força excessiva.

O nome de Margaret Halley piscava na tela.

“Eles estão aqui.”

Helena sentiu o sangue gelar.

Ethan.

Na casa dos Halley.

O coração acelerou, mas ela respirou fundo. Sabia que não podia intervir. Não diretamente. Mas instinto de mãe era algo que nem a lógica da alcatéia conseguia silenciar.

Ela ergueu o olhar.

— Theo — chamou, firme.

O garoto surgiu no corredor, ainda irritado, mochila jogada no ombro.

— Faça suas malas — Helena disse. — Talvez precisemos viajar.

Theo parou.

— O quê? — protestou. — As férias terminam semana que vem, mãe!

Ela se aproximou, segurando o rosto do filho com as duas mãos, obrigando-o a encará-la.

— Sem questionamentos — disse, baixa, séria. — Apenas faça as malas.

Algo na voz dela fez Theo obedecer.

Mesmo sem entender, sentiu:

aquilo não era uma viagem comum.

---

Margaret parou diante da porta do terceiro andar.

O quarto no topo da casa.

O quarto que não era para visitas.

Ela bateu duas vezes.

— Lucy — chamou, tentando controlar a voz. — Desça. Temos… visitas.

Do outro lado da porta, Lucy sentiu o chão sumir sob seus pés.

Os lobos estavam ali.

Lucy desceu devagar.

Cada degrau parecia mais alto que o anterior, como se a casa inteira tivesse sido construída para lembrá-la de que aquele não era o lugar dela. O corrimão frio sob os dedos trêmulos, o coração batendo alto demais no peito.

Quando chegou ao último degrau, todos os olhares estavam nela.

Os cinco Blackmoor não disfarçavam. Avaliavam. Mediam. Pesavam.

O ar da sala estava carregado de feromônios. Lucy sentiu o corpo reagir mesmo contra a própria vontade. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Até ela sentia aquilo. Ela, a híbrida falha. A incompleta. A que sempre disseram não ser o bastante para nada.

Engoliu em seco.

— Mostre o ombro. — Adrian ordenou.

Sem rodeios. Sem preparação.

Lucy estacou.

O sangue fugiu do rosto. Medo, confusão e vergonha se misturaram num nó impossível de desfazer. Instintivamente, levou a mão à alça da camisa, mas parou no meio do gesto, sentindo-se exposta demais, pequena demais.

— Isso não é necessário.

A voz veio de Richard Halley, mais fraca do que ele gostaria de admitir.

— Ela é mesmo sua filha, senhor Ethan — continuou, o suor já visível na testa. — Nasceu na primavera. Dia dezesseis de abril, às dezenove horas e trinta e cinco minutos… há dezessete anos e cinco meses.

O mundo parou.

Ethan sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Aquela data.

Aquela maldita data.

Era a data de nascimento de Theo.

O silêncio se tornou sufocante.

— Não… — Ethan murmurou, a voz rouca. — Isso não é possível.

Richard fechou os olhos por um segundo, como quem aceita a própria sentença.

— Sua esposa não queria uma menina — disse, rápido, como se arrancasse algo preso na garganta. — Precisava de um homem. Um herdeiro. E… nossa empregada havia dado à luz dois dias antes.

Lucy sentiu o estômago se revirar.

— Ela havia dado à luz ao meu filho bastardo — Richard completou, quase sussurrando.

O impacto foi imediato.

Lucas empalideceu.

Rowan deu um passo à frente, os olhos brilhando de fúria.

Caleb ficou imóvel, mas o maxilar travou com força.

Adrian fechou os punhos, o ar ao redor dele ficando mais denso.

Lucy balançou levemente, como se fosse cair.

— Margaret nos fez entregar o garoto — Richard continuou. — Foi… uma troca.

Lucy arregalou os olhos.

Troca?

— Theo… — Ethan disse, a voz quebrada. — Mas… Theo tem a nossa marca.

Ele quase gritou a última parte.

— Ele tem a marca da alcatéia!

Richard assentiu, rápido demais.

— Forjada.

A palavra caiu como uma lâmina.

— Uma tatuagem feita com tinta de ônix lupino, misturada a sangue de lobo ancestral — explicou, com desespero. — Um método antigo, proibido. A tinta reage à pele, imita o desenho… até engana sentidos.

Os olhos de Ethan queimaram.

— Vocês… — a voz dele saiu baixa, perigosa. — Vocês marcaram um menino que não era nosso… e esconderam a nossa filha como uma criada?

Lucy sentiu as pernas fraquejarem.

Filha.

A palavra ecoou dentro dela como algo proibido.

— Eu… — tentou falar, mas a voz não saiu.

Ethan virou-se lentamente para ela.

Não havia raiva naquele olhar.

Havia choque. Dor. Culpa.

Lucy sentiu os olhos arderem.

Toda a vida.

Toda a rejeição.

Todo o “você não pertence”.

Não era ela que era defeituosa.

Era a verdade que havia sido roubada.

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