Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucy não contou nada.
Nem sobre Dustin, nem sobre o aperto no peito que voltara de repente, nem sobre o medo súbito de que aquele dia perfeito tivesse sido apenas um intervalo curto demais. As primas perceberam, mas nenhuma insistiu. Apenas trocaram olhares silenciosos, como quem entende que há dores que precisam de tempo para encontrar voz. No caminho de volta, o carro seguiu em um conforto estranho, sem pressa, embalado por uma música baixa e pela sensação de que, apesar de tudo, Lucy não estava mais sozinha. Quando chegaram à casa de Rowan, as luzes da sala de estar estavam acesas. Ethan estava ali, em pé, próximo à janela, e Rowan ocupava uma das poltronas, espalhado. Os dois pareciam… à espera. Guardando por ela. Ethan foi o primeiro a se mover. Tentou sorrir quando Lucy entrou, mas o gesto saiu rígido, quase ensaiado, como se o rosto ainda não tivesse aprendido a acompanhar o que o coração sentia. O sorriso não alcançou os olhos, e aquilo a deixou constrangida, como se estivesse invadindo um terreno frágil demais. Rowan, por outro lado, levantou-se de imediato, energia de sobra, o olhar passando por Lucy de cima a baixo com curiosidade aberta. — Olha só… — começou, assoviando baixo. — Está ótima. Lucy sentiu um calor tímido subir ao rosto, mas ele não parou ali. Inclinou a cabeça, teatral, como se refletisse melhor. — Mas parece uma velha! — completou, sem qualquer crueldade real. — Não é assim que garotas da sua idade devem se vestir. Espero sinceramente que não tenham comprado só isso! Mireya arqueou uma sobrancelha, já pronta para a guerra, mas o sorriso denunciava que não havia ofensa real ali. — Ah, pai, como se você soubesse como mulheres jovens se vestem! — rebateu, em tom provocador, cruzando os braços. — Sua referência parou no século passado. O clima seguiu leve, quase familiar demais para Lucy, que no entanto ainda se sentia uma convidada em tudo aquilo. Elara já puxava as sacolas das mãos dela, animada. — Vamos arrumar tudo direitinho. — disse. — Vamos montar uma mala decente pra você levar. As duas desapareceram com as sacolas, conversando entre si, deixando Lucy sozinha com Ethan e Rowan pela primeira vez desde que tudo explodira. O silêncio que se instalou não foi pesado, mas era denso. Rowan pigarreou, finalmente assumindo um tom mais sério, aquele que poucos viam. Apesar de odiar advogar — preferia mil vezes a vida confortável de sócio na Black Group, a empresa familiar de commodities onde apenas os cinco filhos de Magnus tinham assento — ele não hesitaria quando se tratava de proteger os seus. — Como estava conversando com seu pai, Lucy, o processo não é simples — começou, direto, sem juridiquês excessivo —, mas também não deve demorar mais do que algumas semanas. Lucy sentou-se devagar no sofá, as mãos pousadas no colo, atenta. — Você vai precisar passar por um teste de DNA, depois pelo reconhecimento formal de paternidade. — lançou um olhar breve a Ethan, que assentiu em silêncio. — Mas decidimos que é melhor manter Janet como sua mãe nos registros; a situação de Helena já está sendo tratada dentro do Juízo Lupino, para o mundo comum ela apenas vai… desaparecer do seu cotidiano, digamos assim. Oficialmente, será um divórcio e ela nunca será reconhecida como sua mãe. Rowan respirou fundo antes de continuar. — Depois disso, o sobrenome. Só vai demorar um pouco mais até que você tenha oficialmente o sobrenome da família, Lucy. Mas pode ficar tranquila: Seraphine tem contatos excelentes. Quando as férias acabarem, você já será chamada de Blackmoor em todos os registros da escola. Lucy ergueu o olhar, surpresa. — E quanto a seu sobrenome atual, a decisão final é sua — Rowan concluiu, com suavidade inesperada. — Você pode escolher se quer continuar usando Marshall ou não. Lucy ficou em silêncio. Jane Marshall nunca fora muito mais do que um nome em um papel. Uma sombra distante, sem rosto, sem voz, sem lembranças reais. Nenhuma fotografia, nenhum objeto guardado, nenhuma história contada antes de dormir. Ela havia se agarrado àquela ausência como quem se apega ao vazio apenas para não se sentir completamente sozinha. Agora sabia que a mulher que imaginara como mãe sequer o era de fato. Ainda assim… Pensou na garota humana que dera à luz sozinha, em dor, na floresta. Pensou nos dois dias de agonia. Pensou no abandono, na troca cruel, no silêncio. Aquela mulher — humana, frágil, esquecida — fora vítima de tudo aquilo. Talvez não fosse sua mãe. Mas merecia, ao menos, não ser apagada. Lucy abaixou o olhar, os dedos se apertando levemente. Talvez não fosse sua mãe. Mas merecia, ao menos, não ser apagada. Lucy abaixou o olhar, os dedos se apertando levemente. Talvez não fosse sua mãe. Mas merecia, ao menos, não ser apagada. Lucy abaixou o olhar, os dedos se apertando levemente. Talvez não fosse sua mãe. Mas merecia, ao menos, não ser apagada. Lucy respirou fundo antes de falar, como se estivesse empurrando uma decisão que pesava mais do que parecia. Levantou o olhar para Rowan e depois para Ethan, os dedos ainda entrelaçados no próprio colo, firmes agora. — Eu vou manter o sobrenome Marshall — disse, com calma. — Eu o tenho há dezessete anos. Não quero fingir que ele nunca existiu. Rowan assentiu, sem surpresa, como se já esperasse aquela resposta. Ethan demorou um segundo a mais. Observou a filha com atenção silenciosa, algo se rearranjando dentro dele, e então concordou com um aceno discreto. Não houve questionamentos. Apenas respeito. A conversa se encerrou ali, naturalmente, como se todos soubessem que aquele era um limite que não deveria ser pressionado. Ethan pigarreou, levantando-se. — Pegue suas coisas novas com as meninas; precisamos sair — disse, num tom que tentava ser suave, mas saía sério demais para fingir normalidade. — Ainda hoje vamos fazer o teste de DNA… e depois quero que você escolha as coisas do seu quarto. Decoração, móveis, cores. Tudo. Lucy assentiu de imediato. No carro, o silêncio se instalou outra vez, mas não era desconfortável. Lucy puxou o celular quase por reflexo. As mensagens das primas se acumulavam na tela: emojis, piadas, áudios curtos, fotos das sacolas espalhadas pelo quarto, comentários animados sobre “a futura rainha da casa”. Lucy sorriu de leve, um sorriso pequeno, mas real. Nunca alguém se importara tanto com ela sem esperar algo em troca. --- O laboratório era impessoal, branco demais, silencioso demais. Lucy sentou-se na cadeira enquanto a profissional explicava o procedimento com voz neutra. Um cotonete, um leve atrito na parte interna da bochecha. Simples. Rápido. Ainda assim, Lucy sentiu como se aquele gesto carregasse o peso de toda a sua existência sendo reduzida a um exame. Ethan fez o mesmo, o maxilar rígido, os olhos duros demais para quem tentava parecer indiferente. Quando saíram, nenhum dos dois comentou o que sentia. A loja de decoração e materiais de construção foi um choque completamente diferente. Grande, iluminada, cheia de corredores intermináveis. Ethan entregou o controle a Lucy com um gesto quase solene. — Escolha tudo — disse. — O quarto é seu. Ela caminhou devagar, tocando tecidos, observando amostras, passando os dedos por paletas de cores como quem descobre um idioma novo. Escolheu tons quentes, mas suaves. Nada imponente demais, nada frio. Um espaço que fosse abrigo, não vitrine. Ethan observava em silêncio, aprovando tudo, sem interferir. No caminho de volta, o carro parecia carregar algo invisível entre eles. Não era apenas o passado que pesava, mas o futuro. Um futuro que se abria cheio de promessas e exigências, expectativas e feridas ainda abertas. Lucy encostou a cabeça no vidro, o olhar perdido na paisagem que passava rápido demais. Theo estava na sala de estar quando eles chegaram. Quem o conhecia de verdade sabia reconhecer os sinais: o corpo largado demais no sofá, o cotovelo apoiado no joelho, a mão passando pelo cabelo pintado de preto num gesto repetitivo, quase nervoso. Havia algo errado nele, algo quebrado. Não era apenas mau humor adolescente — era derrota. Daquelas que não gritam, mas corroem por dentro. Para Lucy, no entanto, ele ainda era apenas um rosto familiar demais para ser estranho e distante demais para ser íntimo. O garoto do corredor da escola. A presença que ela sentia antes mesmo de perceber, como se o ar ao redor dele estivesse pesado. Assim que ela entrou, Theo se remexeu desconfortável, endireitando-se de repente, os olhos fugindo por um segundo antes de pousarem nela outra vez. Ethan largou as chaves sobre o aparador. — Vou pedir o jantar — disse, num tom prático demais para disfarçar o cansaço. — Theo, ajude sua irmã com essa mala. A palavra caiu no ambiente como algo fora de lugar. Sua irmã. Para Lucy, soou estranha, quase irreal. Para Theo, foi como um golpe seco no peito. Um lembrete cruel. Ele sabia. Sabia melhor do que ninguém que Lucy era a herdeira de sangue, a verdadeira portadora da marca, a única com direitos legítimos perante a linhagem. Ainda assim, a raiva subiu quente, injusta, difícil de conter. Ele havia chegado primeiro. Sem dizer nada, levantou-se de uma vez, pegou a mala da mão de Lucy e virou-se já caminhando, como se esperasse que ela entendesse sozinha o que fazer. Lucy demorou um segundo, mas o seguiu. Subiram a escada em silêncio, o som dos passos ecoando mais alto do que deveria. O quarto ficava no segundo piso. Era amplo, bem iluminado, com janelas grandes e cortinas claras. Tudo ali parecia correto demais, organizado demais. Um espaço pensado para receber alguém de passagem, não para pertencer a alguém. Lucy reconheceu isso imediatamente. Era, sem dúvida, um antigo quarto de hóspedes. Ela nunca tivera acesso a um quarto de hóspedes na casa dos Halley. Havia uma cama grande, intocada, uma escrivaninha simples, um armário vazio esperando por roupas que ainda não existiam ali. O banheiro privativo chamava atenção: uma suíte só dela, com box de vidro, bancada de mármore, toalhas macias dobradas com cuidado. Lucy ficou parada por um instante, absorvendo aquilo tudo como quem entra em território proibido. Theo largou a mala perto da cama. Virou-se para sair sem dizer nada. — Theo… — Lucy chamou, num impulso. — Obrigada. Ele parou na porta, apenas por um segundo. Não olhou para trás de imediato. Quando finalmente virou o rosto, o olhar era duro, afiado demais para alguém da idade dele. — Não agradece — disse, seco. — Eu não fiz isso por você. A frase veio rápida, quase ensaiada, como se ele precisasse se livrar dela antes que a culpa ou algo pior o alcançasse. — Aproveita o quarto — completou, com um meio sorriso torto, amargo. — Enquanto é seu. E saiu, fechando a porta atrás de si com mais força do que o necessário. Lucy ficou ali, sozinha no meio daquele espaço grande demais, sentindo, que não havia chegado apenas a uma nova casa, havia entrado numa guerra silenciosa que não pedira para travar.






