10

Quando despertou na manhã seguinte, o desconforto ainda pairava sobre Lucy como uma névoa insistente.

A noite anterior não lhe saía da cabeça. O jantar fora estranho desde o início, carregado de silêncios e talheres batendo em pratos quase intactos. Ethan mal tocara na comida; parecera distante, os pensamentos em outro lugar, até se levantar antes de todos com uma desculpa curta demais e deixá-la sozinha à mesa.

Sozinha não de fato.

Theo permanecera ali.

E foi então que Lucy entendeu o padrão. A fúria dele não era barulhenta, nem explosiva. Era baixa, controlada, feita para existir apenas quando não havia testemunhas. Um veneno que se infiltrava devagar.

— Não pense que vai tomar o meu espaço — ele murmurara, inclinado sobre a mesa, a voz baixa e dura. — Eu cheguei primeiro. Você só vai aceitar o que eu quiser que você aceite. Ouviu, Lucy Baleia?

Lucy não respondera. Apenas balançara a cabeça, os olhos presos no prato de comida que já não tinha apetite algum. Sentira raiva, claro. Uma raiva quente, incômoda, quase sufocante. Mas aprendera cedo demais a engoli-la. Explodir nunca fora uma opção. Explodir significava punição.

Ela entendia que Theo tinha um vínculo com o pai, algo construído em anos que ela jamais teria. Talvez nunca viesse a ter. Ainda assim, não achava justo. Não achava que ele tinha o direito de ser tão cruel. Aquele lugar… aquele lugar era, por direito, dela. E isso só tornava tudo mais confuso.

Mal conseguiu comer naquela noite.

Agora, ao despertar, o corpo cobrava o que não recebera. O estômago embrulhava num pedido quase automático pelo café da manhã antigo: muffins recheados, cobertos de chocolate. A matriarca Halley sempre a obrigara a se servir em exagero; no começo vinha o enjoo, a vontade de chorar, mas com o tempo o corpo aprendera a desejar aquilo. Era estranho perceber o impulso ainda ali, mesmo livre.

Lucy sentou-se na cama devagar, passando a mão pelo rosto. O quarto ainda parecia grande demais, silencioso demais. Levantou-se com cuidado, receosa de cruzar com Theo nos corredores, e caminhou até o banheiro. Antes que pudesse sequer lavar o rosto, uma batida nervosa ecoou na porta.

— Tem dez minutos para estar na cozinha! — disse uma voz masculina, autoritária, que ela não reconhecia. — Nada mais, nada menos!

Lucy sentiu o coração disparar. Assustada, respondeu um “já vou” quase num sussurro.

No banheiro, parou diante do espelho.

A garota refletida ali ainda a surpreendia. O cabelo permanecia macio, hidratado, caindo bem sobre os ombros; as sobrancelhas desenhavam o rosto de um jeito que ela nunca conhecera. O pijama novo era bonito, não incomodava. Pela primeira vez em muito tempo, Lucy sorriu para o próprio reflexo. Um sorriso pequeno, tímido, mas real.

Lavou o rosto, escovou os dentes, tomou um banho mais rápido do que gostaria e vestiu a primeira roupa que encontrou na mala, em seguida saindo do quarto apressada.

Na cozinha, havia um jovem que ela nunca tinha visto.

Não parecia muito mais velho do que ela. Tinha cabelos pretos e longos, presos de maneira descuidada, e uma postura firme demais para alguém tão novo. Os olhos verdes chamaram sua atenção imediatamente — não se lembrava de ter visto aquela cor em nenhum dos Blackmoor até então, mas havia algo nele que ainda assim a fazia associá-lo àquela família.

Ele não levantou o olhar quando ela entrou.

— Cinco minutos de atraso — disse, seco. — Será convertido em punição.

Lucy parou onde estava, o estômago afundando.

— Coma logo — ele completou, finalmente lançando-lhe um olhar rápido, avaliador. — Já perdemos tempo demais.

Lucy engoliu em seco e obedeceu, sentando-se à mesa com a sensação incômoda de que, mesmo ali, mesmo naquela casa, ainda havia regras que ela não conhecia… e punições esperando por qualquer erro.

O garoto não se apresentou.

Não disse o nome, não explicou nada, não fez sequer o esforço mínimo de parecer cordial. Lucy também não perguntou. Havia aprendido, muito antes de chegar àquela casa, que o silêncio às vezes era a única forma de se manter segura.

À mesa comeu o que havia: torradas e ovos mexidos. Mastigava rápido demais, quase sem sentir o gosto, engolindo o copo de suco com pressa ao perceber o olhar constante sobre si. Não era exatamente vigilância, mas também não era descuido. Era como se ele estivesse medindo cada gesto, cada segundo, como se tudo ali pudesse ser transformado em erro.

Quando terminou, levantou-se imediatamente. Ele já estava de pé, esperando.

Saíram juntos.

O primeiro choque veio logo na entrada da casa.

Havia uma moto estacionada ali. Grande. Imponente. Preta, com linhas agressivas e um acabamento que não deixava dúvidas sobre o quanto custara. Dois capacetes repousavam sobre o banco. Lucy parou automaticamente, o coração acelerando.

O jovem caminhou até a moto com naturalidade, pegou os capacetes e lhe estendeu um deles, como se aquilo fosse óbvio.

— Mas eu não… não sei andar nisso — disse Lucy, a voz nervosa, quase trêmula.

Ele bufou, impaciente, fechando a distância entre os dois em poucos passos.

— Não precisa saber — respondeu, seco. — É só subir e segurar na minha cintura.

Lucy hesitou, mas obedeceu.

A moto era grande demais. Alta demais. Tudo nela parecia exigir mais equilíbrio, mais confiança do que Lucy possuía. Tentou subir como pôde, desajeitada, quase escorregando. O jovem segurou o guidão com firmeza, claramente irritado com a demora.

Depois de longos minutos tensos, ela conseguiu se acomodar atrás dele, as mãos hesitantes antes de finalmente se fecharem em torno de sua cintura, os dedos cravando no tecido da jaqueta como se aquilo fosse a única âncora possível.

— Meia hora de punição agora — ele disse, antes mesmo de dar partida.

Lucy não teve tempo de reagir.

O motor rugiu alto e, no instante seguinte, a moto já deslizava pela rua, ganhando velocidade rápido demais para o coração de Lucy acompanhar. Ela se agarrou com força, o corpo rígido, o medo misturado a uma estranha sensação de liberdade que ela não ousava nomear.

As casas ficaram para trás.

O garoto reduziu a velocidade e estacionou a moto em frente a uma propriedade cuja fachada não dizia absolutamente nada sobre o que havia ali dentro. Não era uma casa, não era um prédio comercial, tampouco parecia residencial. Era neutra demais, discreta demais — como se tivesse sido feita exatamente para não chamar atenção.

Lucy tirou o capacete ainda confusa.

Na recepção, a sensação só piorou. O ambiente era elegante, mas impessoal, sem placas claras, sem indicações óbvias. Ela não compreendeu o que aquele lugar era, nem para quê servia. Antes que pudesse perguntar, o jovem apenas sorriu de lado — o primeiro sorriso desde que se conheceram — e acenou brevemente para a recepcionista, que retribuiu com naturalidade, como se o reconhecesse muito bem.

Lucy apenas o seguiu.

Subiram em silêncio pelo elevador. As portas se abriram para um espaço que a fez parar por um segundo a mais do que deveria.

Parecia, ao mesmo tempo, um apartamento e um estúdio.

Tudo era grande demais. O pé-direito alto, as janelas amplas, os móveis espalhados sem muita lógica. Havia equipamentos jogados em cantos, livros empilhados de forma caótica, um saco de pancadas em um dos lados e um sofá largo, claramente usado demais. Nada combinava, mas tudo parecia ocupado.

Uma garota os aguardava.

Ela tinha os cabelos negros e longos, presos em um rabo de cavalo que descia até a coxa. A postura era confiante, relaxada, e os olhos verdes — exatamente os mesmos do jovem mal-educado — pousaram em Lucy com curiosidade aberta. Diferente dele, porém, havia cordialidade em seu sorriso.

— Finalmente — disse ela, aproximando-se. — Eu estava ansiosa para te conhecer, Lucy.

O cumprimento foi gentil, mas o olhar não foi discreto. Percorreu o pescoço, o ombro, a linha da clavícula, como se procurasse algo específico. A marca do clã. A confirmação silenciosa de tudo o que haviam ouvido falar.

Lucy sentiu a pele arrepiar.

— Nós somos Ashley e Andy, netos de Adrian Blackmoor — continuou a garota, apontando primeiro para si, depois para o rapaz.

— Bisnetos — Andy corrigiu, entediado, jogando-se no sofá como se aquela apresentação fosse irrelevante.

Ashley revirou os olhos.

— Distantes o suficiente para não termos a marca, perto o suficiente para usufruirmos da grana — completou, rindo da própria piada.

Andy soltou um resmungo inaudível, claramente concordando.

Ashley voltou-se para Lucy, o tom ficando mais sério, quase cerimonial.

— Nós vamos te preparar para o mundo lupino, Lucy. Vou te ensinar a história da nossa família, as alianças, as guerras… e como uma futura Luna deve se portar.

Andy descruzou os braços apenas para cruzá-los novamente, lançando um olhar rápido para Lucy.

— E Andy vai te ensinar a se defender — acrescentou Ashley, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. — Porque somos mulheres, mas nunca podemos contar apenas com nossos alfas.

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