Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala de reuniões era ampla, de madeira escura, com janelas altas que deixavam entrar a luz fria da manhã. O símbolo da alcatéia, a lua marcada por três garras, estava entalhado na parede principal, observando-os como um juiz silencioso.
Cinco homens ocupavam a mesa. Cinco irmãos. Todos fortes. Todos lobos. O sobrenome deles carregava peso na cidade e fora dela: Blackmoor. Um nome antigo, associado a liderança, fortuna e sangue. Na cabeceira estava Adrian Blackmoor, o primogênito. Ombros largos, cabelos escuros já tocados por fios grisalhos. O olhar dele era sempre calculado, como se estivesse vários passos à frente de qualquer conversa. À sua direita, Rowan Blackmoor, o segundo mais velho. Sorriso fácil demais para quem era conhecido por ser o mais violento quando provocado. Era o tipo que ria antes de lutar. No centro, sentado com o corpo ligeiramente inclinado para frente, estava Ethan Blackmoor. O filho do meio. O homem da noite anterior. Mais contido que Rowan, menos rígido que Adrian. Os olhos dele, porém, eram atentos demais. Observadores. Era quem costumava enxergar o que os outros ignoravam. Ao lado dele vinha Caleb Blackmoor, sério, silencioso, com as mãos sempre cruzadas. O estrategista. Preferia ouvir antes de falar, e quando falava, ninguém costumava interromper. Por fim, o mais novo: Lucas Blackmoor. Jovem, mas já grande demais para a idade, com uma inquietação constante no corpo. Ainda aprendendo o peso de pertencer àquela linhagem. E acima de todos eles, mesmo ausente, pairava a sombra do pai: Magnus Blackmoor. O primeiro. O primeiro a nascer com a marca. O primeiro a carregar aquele símbolo que não era apenas carne, era poder. Um legado que, até então, apenas os homens da alcatéia herdavam. Ethan foi direto. Como sempre. — Ontem vi uma garota qualquer com a nossa marca — disse, sem rodeios. — A marca do papai. A marca da nossa alcatéia. O silêncio durou menos de um segundo. — Uma garota com a nossa marca? — Rowan riu, recostando-se na cadeira. — Você bebeu ontem à noite, irmão? Lucas franziu a testa, confuso. — Isso não faz sentido. Só nós herdamos aquilo. — Não é só genética — completou Caleb, baixo. — É um legado. Algo que desperta força. Nenhuma mulher jamais… — Eu sei exatamente o que vi — Ethan cortou, a voz firme. — Não era parecida. Não era algo próximo. Era idêntica. No mesmo lugar. O mesmo desenho. Adrian descruzou os braços devagar. — Continue. — Uma garota comum — Ethan prosseguiu. — Boba. Desajeitada. Claramente sem treinamento algum. Mas a marca estava lá. — E onde está essa raridade? — Rowan debochou. — Escondida debaixo de uma pedra? Ethan sustentou o olhar dele. — Sendo tratada como criada na casa dos Halley. Não tem mais de dezessete anos. Disse que a mãe se chamava Janet Marshall. O nome caiu na mesa como algo morto. Caleb foi o primeiro a reagir. — Marshall? Nunca ouvimos falar. — Eu também não — disse Lucas. — Nenhuma fêmea com esse sobrenome passou pela alcatéia. Adrian estreitou os olhos. — Os Halley são nossos aliados — disse lentamente. — Amigos de longa data. Como esconderiam por dezessete anos alguém com a nossa marca? Rowan deixou o sorriso morrer. — Ainda mais uma mulher com a nossa marca. A sala ficou pesada. Porque, se aquilo fosse verdade, só havia duas possibilidades: ou alguém traíra a alcatéia… ou o legado de Magnus Blackmoor não era tão simples quanto eles acreditavam. E nenhuma das duas opções era segura. Ethan apoiou as mãos na mesa. — Seja o que for — disse, firme —, aquela garota é da nossa família. Do lado de fora da sala de reuniões, o ar parecia mais pesado. Ele caminhava de um lado para o outro, passos longos, impacientes, como um lobo jovem preso em território alheio. As mãos fechavam e abriam com frequência, o maxilar tenso, os pensamentos acelerados demais para alguém que deveria estar esperando em silêncio. Theo Blackmoor tinha dezessete anos. E não se parecia com ninguém. Não com Ethan, o pai de traços duros e postura contida. Nem com a mãe, de beleza clássica e sangue antigo. Theo era uma ruptura. O primeiro Blackmoor a nascer com cabelos dourados, claros demais para aquela linhagem de sombras. Por isso os pintava de preto havia anos, cansado dos olhares, das comparações, dos sussurros. Ainda assim, algo nele sempre denunciava a diferença; o jeito inquieto, o temperamento explosivo, a sensação constante de não caber. Ao menos a marca estava ali. No ombro, nítida. Incontestável. A lua marcada pelas três garras. A prova definitiva. Algo que valia mais do que qualquer teste de DNA, mais do que palavras, mais do que dúvidas. Ele era um Blackmoor. Gostassem ou não. E estava furioso por não estar naquela reunião. Da nova geração, era o único menino. Os tios, como a mãe dele costumava dizer, tinham sangues fracos. Todos tiveram meninas. Nenhum herdeiro homem. O novo bebê de Adrian até era um garoto, mas pequeno demais para contar. Não era justo. Ele não deveria estar ali fora. Não com as mulheres. Não esperando. — Theo… — a voz da mãe soou calma demais para alguém que já conhecia o filho. Ela se aproximou devagar, pousando a mão em seu braço, num gesto conciliador. — Eles estão resolvendo algo sério. Seu pai… — Eu devia estar lá — ele cortou, ríspido. — Isso diz respeito à alcatéia. A mim. Ela suspirou. — Você ainda é menor. — Eu tenho a marca — ele rebateu, girando o corpo. — Isso sempre foi o que importou. Os olhos dele faiscavam. Impulsivo. Irritadiço. Mimado, como Rowan gostava de provocá-lo sempre que podia. — Você precisa aprender a esperar — disse ela, firme, mas suave. Theo riu sem humor, afastando-se um passo. — Esperar sempre foi coisa de quem não manda. Antes que ela respondesse, a porta da sala se abriu. Os cinco homens saíram juntos. Cara fechada. Ombros rígidos. Nenhuma palavra. Quando alguém tentou perguntar, ninguém respondeu. Nenhum deles. Eles apenas atravessaram o corredor como uma muralha silenciosa, levando consigo um peso que ninguém ali fora parecia autorizado a carregar. Theo sentiu o estômago revirar. Se os Blackmoor estavam calados… algo grande tinha acabado de ser decidido. E, novamente, ele não tinha sido incluído.






