O Fim e o Começo

Por Mariah Torres

A fuga ainda era recente demais.

No avião, senti o coração quase explodir quando anunciaram o embarque.

Minha mente só conseguia repetir:

 “E se ele estiver aqui?”

Na fila, olhei para todos os lados. Um homem de casaco escuro me fez tremer. Achei que era Daniel.

Mas não era.

Era apenas o medo vestindo qualquer rosto masculino.

Na imigração, tremi inteira.

A moça da cabine perguntou por que eu estava entrando nos Estados Unidos.

Minha resposta foi simples.

— Visita familiar.

Mas, por dentro, eu gritava:

Fuga. Sobrevivência. Recomeço.

O vento gelado que atravessou as portas do aeroporto me fez estremecer. Mas, ao mesmo tempo, me acordou. Era como se Nova York dissesse:

você está aqui. Agora começa de novo.

Eu queria chorar.

Mas não chorava mais por impulso.

Chorar doía. Segurar doía mais ainda.

E eu já estava acostumada com a dor.

Então eu apenas respirei fundo, prendi o ar e caminhei.

Meus olhos procuraram por rostos familiares, e logo os vi.

Milena, de braços cruzados, segurando o choro.

Mariana, com um sorriso trêmulo que mal disfarçava a emoção.

E ao lado delas, um homem alto, bem vestido, cachecol vinho e uma sacola de papel colorida nas mãos: Ícaro.

Quando nossos olhos se encontraram, meus pés pareciam saber o caminho.

Corri.

Não por desespero.

Mas por sobrevivência.

Milena me envolveu com força, e Mariana me apertou logo em seguida.

Eu fechei os olhos e deixei que o mundo inteiro se calasse naquele instante.

— Você chegou! — Milena sussurrou com um sorriso.

— Agora é recomeço, mana — completou Mariana, acariciando meu cabelo.

— Cenas de filme francês. Só faltou a trilha sonora — Ícaro disse, entregando a sacola como se fosse um troféu. — Trouxe chocolate, hidratante, e uma vela aromática com cheiro de “nova vida”.

Tentei sorrir. Saiu torto, mas foi sincero.

— É só isso que eu tenho — murmurei, segurando firme a alça da mochila. — O resto ficou para trás.

— Amor, o que você tem agora é tudo que importa — Ícaro disse com firmeza. — A gente cuida do resto.

O caminho até o apartamento foi pontuado por silêncios que gritavam.

Mariana falava sobre cafés.

Ícaro fazia piada com sotaques.

Milena mantinha os olhos firmes na estrada, sem dizer muito. Mas sua mão apertava o volante com força demais.

Quando estacionamos, Mariana tocou meu braço.

— Amanhã vamos ao hospital, tá? Não discute. Você mal consegue respirar direito. Só um raio-X. Vamos cuidar de você agora.

Assenti em silêncio.

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O prédio era discreto por fora, mas encantador por dentro.

Escadas de madeira, janelas grandes, paredes em tons de creme e castanho.

Um lar. Não importava o tamanho.

O apartamento delas era pequeno, mas arrumado com tanto carinho que parecia abraçar.

Bege, caramelo, luzes suaves, uma bandeja com doces caseiros e uma música instrumental baixa saindo da caixinha de som.

— Essa é sua nova casa — disse Mariana, abrindo a porta com um gesto teatral.

Ícaro entrou animado, carregando uma garrafa de vinho.

— Temos vinho, risadas e afeto.  — ele sorriu.

Milena abriu uma porta ao fundo.

— Aqui, seu quarto. A gente improvisou, mas foi com amor.

O quarto era simples, mas cheio de detalhes.

Cama de casal, coberta felpuda, manta cinza, cortinas brancas que balançavam com o vento gelado.

No criado-mudo, uma vela acesa e um pequeno caderno com meu nome.

— É um diário — Mariana explicou. — Se um dia quiser escrever, gritar no papel ou só lembrar quem você é.

Havia uma pequena caixa de madeira com fitas, flores secas, marcadores.

— Pra quando você quiser cor no meio do caos — Milena completou.

Meus olhos arderam. Mas ainda não chorei.

— A gente preparou esse espaço pra você se lembrar que ainda pode recomeçar  do seu jeito — Mariana sussurrou, encostando a testa na minha.

— E se ele vier atrás de mim? — perguntei.

— Que tente — respondeu Milena. — Aqui ele não passa.

— Se aquele canalha ousar colocar um pé nesse prédio, eu levanto o inferno — Ícaro disse com os punhos cerrados. — Tenho até um plano envolvendo panela, sirene de celular e muito escândalo.

Rimos. Mas o riso veio com lágrimas nos olhos.

— Hoje você não vai dormir sozinha — Milena decretou. — Vamos dormir juntas. Como no tempo da infância.

####

O quarto ficou cheio. Mas era um cheio bom.

De raízes.

De história.

De cura.

Me encaixei entre Mariana e Milena.

Ícaro improvisou um colchão ao lado da cama.

— Qualquer barulho, me chama. Nem que seja pra segurar sua mão — ele disse. — A gente segura você até você lembrar como voa.

Naquela noite, adormeci entre respirações conhecidas.

E pela primeira vez em muito tempo, dormi.

Sem medo.

Sem sobressalto.

Só com amor.

####

No dia seguinte, acordei com dor no corpo.

As costelas doíam mais ao respirar fundo.

Mariana me ajudou a levantar. Milena preparou um chá.

Ícaro me ajudou a me vestir.

— A rainha da recuperação precisa de um look digno — disse, colocando um cachecol em mim.

Seguimos para o hospital.

O médico, um senhor calmo de voz baixa, nos atendeu com gentileza.

Pediu raio-X, examinou meus hematomas, fez perguntas que me fizeram fechar os olhos por vergonha.

— Você sofreu trauma torácico. Três costelas trincadas, mas sem risco grave. Precisa de repouso, compressas e, principalmente, segurança emocional.

Milena segurava minha mão com força.

Mariana chorava em silêncio, os olhos vidrados no monitor.

— Você está segura agora, Mariah — disse o médico, anotando as prescrições. — Aqui começa sua recuperação.

No carro de volta, ninguém falou.

Mas havia um nó de dor nos olhos de todas nós.

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À noite, Mariana colocou um filme, mas ninguém assistiu.

Milena trouxe sopa.

Ícaro me ensinou uma técnica de respiração para diminuir a ansiedade.

No meio da madrugada, acordei assustada com um pesadelo.

Daniel estava me procurando.

No sonho, ele invadia o apartamento e dizia:

"Você achou que podia fugir de mim?"

Levantei suando.

Milena abriu os olhos na hora.

— Foi só um sonho. Você tá aqui. Com a gente. Respira comigo.

E ela segurou minha mão até eu dormir de novo.

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Dois dias depois, estávamos sentadas no sofá.

Milena falava sobre abrir uma loja para ela e Mariana, as duas havia terminado a faculdade de estilista e estavam pensando em trabalhar juntas.

Ícaro comentava sobre ensinar dança para idosos.

E eu, pela primeira vez, sorri sem esforço.

Eu não sabia ainda o que o futuro me traria.

Mas sabia que não estava mais sozinha.

E isso…

Era o começo.

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