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Diante dos Portões

*Capítulo 5 — Por Mariah Torres*

Três da manhã. O céu ainda era um borrão escuro.

Levantei antes do despertador. O coração já batia na boca. No espelho, encontrei uma mulher com olheiras fundas e um coque malfeito. Não era eu. Ainda. Mas já não era mais a Mariah que sangrava no chão.

Milena mexia o café em silêncio. Quando me viu, largou a colher.

— Vinho fica bom em você — disse, ajeitando a gola da minha blusa. — Esconde o que precisa. Mostra o que importa.

Vesti a blusa de manga longa vinho, calça de alfaiataria preta, casaco leve. Maquiagem: corretivo nas marcas, só. Batina. Armadura.

— Pronta? — ela pegou as chaves.

— Se eu disser que não, a gente volta pra cama? — tentei rir. Falhou.

— Não — ela sorriu de lado. — Mas eu seguro sua mão no elevador.

E segurou. Forte. Sem dizer nada. Só me olhando como quem diz: você sobreviveu a ele. Vai sobreviver a isso.

Lá embaixo, o carro de Milena já nos esperava com o motor ligado. Ela abriu a porta pra mim.

Nova York dormia, mas o medo não. As ruas molhadas devolviam cada farol como faca.

Milena dirigia devagar. Eu contava as batidas do meu próprio peito.

— Esther. A governanta — ela quebrou o silêncio.

— Vai te entrevistar. O Helk... ele não aparece.

— Você conhece essa casa?

— Não. Ninguém conhece. A agência só fala em regras. Câmeras. Silêncio. Se você entrar, é porque eles não deixam brecha pra erro.

Assenti. Helk. O nome pesava na língua. Perigoso. Exato. E era disso que eu precisava. Um lugar tão fechado que nem Daniel ousasse procurar.

####

O portão surgiu como sentença. Ferro forjado, alto, com símbolos entalhados que pareciam vigiar. Câmeras nos cantos. Vermelhas. Acesas.

Milena baixou o vidro.

— Milena Torres. Agência Silver & Stein. Mariah Torres para entrevista.

O segurança nem piscou. Pegou os documentos. Sumiu na guarita.

Dois homens apareceram. Um com espelho numa haste. Outro com scanner igual ao aeroporto. Armas no coldre. Reais. Perto demais.

— Não saiam do carro — a voz era pedra.

O scanner zumbiu, subindo pela lataria. Milena travou o maxilar. Eu travei a respiração. Cinco minutos que duraram cinco vidas.

O portão abriu sem ranger. O carro entrou num silêncio que doía no ouvido. Pedras sob o pneu, jardins podados com bisturi, fonte no centro, imóvel. Tudo simétrico. Tudo vigiado.

####

Estacionamos numa entrada lateral. Discreta. E foi aí que entendi: naquela casa, até as portas tinham hierarquia.

Esperava uma criada. Quem abriu foi Esther.

Coque tão firme que não ousava um fio. Saia lápis preta, camisa igual, salto que não fazia barulho. Os olhos dela não olhavam. Escaneavam.

— Senhorita Torres?

— Mariah — a voz saiu mais baixa do que eu queria.

— Esther. Governanta da Casa Helk. Acompanharei você.

Milena me lançou um olhar. _Vai_. E foi.

Cruzei a porta e o ar mudou. Ficou frio. Caro.

A cozinha era um laboratório. Mármore, aço, silêncio. Duas funcionárias trabalhavam sem erguer a cabeça. Só o chiado da chaleira e a faca no legume.

— Funcionários não usam a cozinha principal — Esther disse, andando. — Esta é a nossa.

Corredores largos. Paredes neutras. Quadros de homens sérios me seguindo com os olhos. Madeira escura. Cheiro de cera e poder.

— Sua função: Leonor. Cinco anos. Filha única do senhor Helk — Esther parou numa porta branca cheia de adesivos de estrelas.

— Ela sabe que você vem. Mas Leonor fala quando quer. E com quem quer.

Bateu duas vezes. Suave. Controlado.

— Leonor, querida. Pode abrir?

A porta cedeu devagar.

E lá estava ela. Olhos castanhos, imensos, parados em mim. Dois coques tortos. Macacão azul. Um lápis de cor quebrado na mão. Não era só timidez. Era análise.

— Essa é a Mariah — Esther apresentou.

Ajoelhei. Fiquei da altura dela. Do tamanho do medo dela.

— Oi, Leonor. Posso entrar?

Ela me mediu por três segundos eternos. Depois virou as costas e voltou para dentro. Deixou a porta aberta.

Para Esther, foi um não. Para mim, foi o primeiro sim que recebi em meses.

O quarto dela quebrava a casa. Era cor. Era vida. Nuvens no teto, castelo na cama, livros como muralha, brinquedos em formação de exército. No chão, rabiscos.

— Você desenha? — apontei.

— Cavalos. E dragão amigo — a voz fininha, sem olhar pra mim.

— Me mostra depois?

Ela deu de ombros. Mas o canto da boca subiu um milímetro. Segredo. Meu.

####

— Vou lhe mostrar seu quarto — Esther chamou.

Escada larga, corrimão dourado, tapete que engolia os passos. Passamos por uma biblioteca trancada, sala de música muda, um salão que dava para um jardim que não acabava.

Esther parou diante de uma porta dupla, maciça.

— Aqui você só entra se for chamada. Escritório do senhor Helk. Ao lado, o quarto dele.

Não falou o nome. Falou o cargo. Como se _ele_ fosse a casa.

Seguimos. Porta branca, simples.

— Seu quarto.

Cama de casal, colcha bege, escrivaninha, banheiro privativo. Janela para um pedaço de jardim. Seguro. Longe.

— Começa amanhã. Acorda cedo. Café com a equipe. Sua prioridade é Leonor. Dia e noite. Se ela chamar, você responde. Sempre!

Assenti.

— Discrição é moeda aqui — Esther me mediu.

— Quanto menos falar, mais tempo fica. As ordens vêm do senhor Helk. Quando ele aparece.

Ela saiu. Fechou a porta. O clique da fechadura foi mais alto que um tiro.

Sozinha, encostei na porta e deixei o ar sair. Pela primeira vez desde a fuga, o peito não doía para respirar.

Talvez eu pudesse construir algo. Talvez Leonor pudesse me salvar enquanto eu salvava ela.

E Leon Helk... por enquanto, era só um nome nas paredes. Uma sombra atrás da porta dupla.

Mas sombras não ficam paradas para sempre.

####

Voltei com Milena no fim do dia. Esther liberou com um aceno de cabeça. No carro, ela esperou os portões fecharem para perguntar:

— E então?

— É uma fortaleza, Milena. Mas a menina... — engoli seco. — A menina tem os olhos de quem já viu coisa demais. Igual aos meus.

Milena segurou minha mão.

— Então você é a pessoa certa.

###

Em casa, Mariana e Ícaro esperavam como se eu voltasse da guerra.

— E aí? — falaram juntos.

— Ela começa amanhã — Milena respondeu, com orgulho, que não era dela. Era meu.

Banho quente. Camisola nova. Milena deitou comigo.

— Não dorme sozinha hoje — ela sussurrou. — Hoje não.

Dormimos abraçadas. E pela primeira vez, não sonhei com ele.

Sonhei com uma porta dupla. E com o que respirava do outro lado.

Amanhã eu entraria naquela casa para cuidar de uma criança.

E alguma coisa me dizia que a criança não era a única que precisava ser salva ali dentro.

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