Mundo ficciónIniciar sesiónPor Mariah Torres
Acordei antes do sol. O céu ainda dormia, tingido de cinza e silêncio. No espelho, encontrei o reflexo de alguém que eu ainda não reconhecia completamente mas que já não parecia quebrada. Milena preparava o café da manhã enquanto eu me vestia. Optei por uma blusa de mangas compridas vinho, calça de alfaiataria preta e um casaco leve. Cabelo preso num coque baixo. Maquiagem discreta só o suficiente para esconder os vestígios das marcas. — Está pronta? — Milena perguntou, pegando as chaves e a bolsa. — Não — respondi com um sorriso nervoso. — Mas vou assim mesmo. No elevador, Milena segurou minha mão com firmeza. Não disse nada. Só me olhou como quem lembrava: “Você conseguiu chegar até aqui”. Descemos. O táxi já nos esperava. Durante o trajeto, Nova York ainda bocejava. As ruas molhadas da madrugada refletiam os faróis. Milena dirigia com calma, e eu, com as mãos no colo, tentava controlar a respiração. — O nome dela é Esther. A governanta — disse Milena, com os olhos na rua. — Vai ser ela quem vai te entrevistar. O senhor Helk raramente aparece. — Você já foi nessa casa? — Não. Mas a agência tem cadastro da equipe deles há anos. Tudo muito reservado. A seleção é rígida. Se você entrar é porque confiam de verdade. Assenti. O nome Helk ainda soava como algo perigoso. Mas, de certo modo, eu precisava de um lugar que também assustasse quem tentasse me encontrar. ### O portão de ferro forjado surgiu à nossa frente como uma muralha. Havia câmeras nas colunas e símbolos entalhados no metal, desenhados com detalhes quase artísticos. Paramos diante da guarita. Milena baixou o vidro e anunciou: — Milena Torres, viemos pela Agência Silver & Stein. Esta é Mariah Torres, para a entrevista. O segurança não respondeu. Pegou nossos documentos e fez sinal para que esperássemos. Mais dois homens surgiram. Um deles carregava uma vara longa com um espelho redondo preso na ponta. O outro manuseava um scanner portátil, como os de aeroporto. — Não saiam do carro. — ordenou o que revistava. O aparelho apitou baixo conforme deslizava pelo exterior do carro. Milena manteve as mãos no volante. Eu, em silêncio, tentava ignorar o peso das armas que vi pela primeira vez tão de perto. O procedimento durou menos de cinco minutos. Mas parecia uma eternidade. Por fim, o segurança devolveu nossos documentos e fez sinal para o portão abrir. O carro avançou lentamente por uma estrada de pedras rodeada de jardins perfeitamente podados. O silêncio ali dentro era quase sepulcral. Flores alinhadas, árvores simétricas, uma fonte no centro. Nada ali parecia comum. ### Estacionamos perto de uma entrada lateral, diferente da fachada principal. Uma porta simples, mas robusta, ladeada por plantas bem cuidadas. Esperava uma criada. Mas quem apareceu foi uma mulher de postura impecável: coque firme, saia lápis preta, camisa da mesma cor, olhos atentos. — Senhorita Torres? — perguntou com voz firme. — Sim. Sou Mariah. — Eu sou Esther. Governanta da Casa Helk. Acompanharei você por aqui. Milena fez um leve aceno. — Ela está nas melhores mãos — disse minha irmã, antes de se despedir. Assenti, tentando esconder a ansiedade que borbulhava no estômago. Esther me guiou para dentro. A entrada dava direto na cozinha: ampla, moderna, com bancadas de mármore e eletrodomésticos que pareciam recém-instalados. Duas funcionárias trabalhavam em silêncio. Nenhum som além do vapor da chaleira e do ruído de uma faca cortando legumes. — Funcionários não usam a cozinha principal da família. Aqui é onde preparamos e organizamos as refeições — explicou Esther, sem olhar para trás. Seguimos por corredores amplos, de paredes neutras e quadros sérios. Os móveis eram de madeira escura. A mansão inteira exalava autoridade. — Sua função será cuidar da pequena Leonor. Cinco anos. Filha única do senhor Helk. — Esther disse, parando diante de uma porta branca com adesivos de estrelinhas. — Ela sabe que estou aqui? — Foi avisada. Mas Leonor é observadora. Nem sempre responde com palavras. Esther bateu suavemente. — Leonor, querida. Pode abrir? A porta se abriu devagar. Uma menininha de olhos grandes e castanhos nos observava com uma mistura de timidez e curiosidade. Os cabelos estavam presos em dois coques tortinhos. Vestia um macacão azul e segurava um lápis de cor. — Essa é a Mariah — disse Esther. Me abaixei até ficar na altura dela. — Oi, Leonor. Eu sou a nova cuidadora. Posso entrar? Ela não respondeu. Apenas se virou e voltou para dentro, deixando a porta aberta. Interpretei aquilo como um sim. O quarto era diferente de tudo que eu tinha visto na mansão. Colorido. Quente. Com almofadas em forma de nuvem, brinquedos organizados em prateleiras baixas e livros infantis empilhados com cuidado. A cama tinha formato de castelo e o teto, um céu pintado à mão. — Você desenha? — perguntei, vendo os rabiscos no chão. — Desenho cavalos e dragão amigo. — ela respondeu, sem me olhar. — Mostra pra mim depois? Ela assentiu de leve. E, por um segundo, sorriu de canto. Um sorriso quase secreto. ### Depois de alguns minutos com Leonor, Esther me chamou novamente. — Vou lhe mostrar seu quarto. Subimos uma escada larga, com corrimão dourado e tapete felpudo. Passamos por uma biblioteca silenciosa, uma sala de música fechada, e um salão amplo com vista para os jardins dos fundos. — Aqui você só entra se for chamada — disse Esther, apontando uma porta dupla. — Escritório do senhor Helk. Ao lado, o quarto dele. Continuamos até uma porta branca mais simples. — Esse será o seu quarto. O espaço era acolhedor. Cama de casal com colcha bege, armário embutido, uma escrivaninha e banheiro privativo. A janela dava vista para uma pequena parte do jardim interno. — Você começará amanhã. Acordará cedo, tomará café com a equipe, e acompanhará Leonor em sua rotina. Seu principal dever é estar com ela. À noite, ela pode chamar por você. Seja atenta. Assenti, em silêncio. Esther me observou por um instante. — Quanto mais discreta for, mais tempo ficará. Aqui, menos é mais. As ordens vêm do senhor Helk. Quando ele aparece. Ela se virou para sair. Fiquei ali, sozinha, no quarto que agora seria meu. Pela primeira vez desde que fugi. Sentia que talvez pudesse construir algo novo. E ainda que o nome Leon Helk fosse apenas um sussurro distante. Algo me dizia que não seria assim por muito tempo. ### Antes do fim do dia, pedi que o motorista da mansão me deixasse de volta no apartamento das minhas irmãs. Esther autorizou com um leve aceno, e garantiu que eu poderia retornar na manhã seguinte para iniciar oficialmente. Milena, que havia ficado me esperando na entrada da propriedade, entrou no carro ao meu lado. — E então? — perguntou, assim que o carro tomou distância dos portões. — É outro mundo, Milena. Mas me senti segura. E tem uma garotinha lá dentro que precisa mais do que uma babá. Acho que ela precisa de alguém que escute com o coração. Milena sorriu, apertando minha mão. — E ninguém melhor que você pra isso, mana. Durante o trajeto de volta, conversamos pouco. A cidade parecia observar nossa jornada silenciosa, como se respeitasse aquele momento. Chegando no apartamento, Mariana e Ícaro nos aguardavam com cara de suspense. — E então? — disseram juntos. — Amanhã voltamos. — Milena respondeu por mim, orgulhosa. — Ela foi maravilhosa. Mais tarde, após um banho quente, vesti uma das camisolas novas feitas por elas e deitei na cama. Milena se juntou a mim, dizendo que não queria que eu dormisse sozinha naquela noite. Dormimos abraçadas, como quando éramos crianças, e o mundo lá fora parecia, por uma noite, não ameaçar nada. Amanhã seria o começo de algo que eu ainda não compreendia. Mas já estava pronta para sentir. Eles comemoraram como se eu tivesse ganhado uma medalha. E talvez eu tenha mesmo. Uma medalha invisível, por continuar tentando, mesmo com o coração costurado de dentro pra fora. Naquela noite, dormi com o vestido azul pendurado na porta, as malas semi-abertas e a esperança espreitando no batente da janela. Amanhã seria o começo de algo que eu ainda não compreendia. Mas já estava pronta para sentir.






