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A Babá e o CEO
A Babá e o CEO
Por: Djennhy Kelly
Cativeiro Disfarçado de Amor

— Vai sair assim?

A pergunta cortou o ar como faca, mesmo dita em tom calmo.

Olhei para Daniel, encostado na porta do quarto com os braços cruzados e o olhar fixo na minha saia azul.

Não era curta. Não era justa. Era só uma saia.

Mas pra ele, qualquer coisa que me fizesse sentir bonita era ameaça.

— É a mesma de sempre — respondi, pegando meus livros. — Só quero chegar cedo. A professora vai revisar o conteúdo do estágio.

Ele se aproximou devagar, medindo o espaço entre o controle e o descontrole.

— Achei que a gente já tinha conversado sobre isso. Sobre como você se veste. Sobre o tipo de atenção que isso atrai.

— Daniel, ninguém olha pra mim. Sou só mais uma aluna entre dezenas.

— Justamente — ele sussurrou, a boca perto do meu ouvido. — Justamente por isso.

Doce demais. Falso demais.

Me afastei. Era sempre assim. Primeiro ele falava baixo. Depois vinha a explosão.

Nos conhecemos na universidade, logo depois que voltei da Colômbia. Eu tinha enterrado minha mãe e voltei com as mãos vazias e o peito oco. Ele cursava Direito, eu Pedagogia. Nos primeiros meses, foi encantador. Flores, “vou te proteger”, “comigo você tá segura”. Depois da morte da minha mãe, eu precisava desesperadamente de um porto seguro.

Mas Daniel não era abrigo. Era tempestade.

Me convenceu a reduzir as horas no projeto com crianças desabrigadas que eu amava. “Criança suja, cheia de piolho. Você é minha mulher, não babá”, ele disse. Depois, afastou minhas amigas. Criticou minhas roupas. Meus sonhos. “Pedagogia não dá dinheiro. Pensa no futuro. No nosso.”

E eu cedi.

Porque quando você está com as feridas abertas, aceita migalha achando que é amor.

— Quer saber? Eu troco — falei, mansa. Não por ele. Por medo.

Ele sorriu, satisfeito.

— Isso, Mari. Você sabe que eu te amo, né?

Amor. Aquela palavra já não significava nada na boca dele. Era um grilhão enfeitado.

####

No caminho até a faculdade, o mesmo discurso: eu não precisava de mais ninguém. Ele sabia quem andava pelos corredores. Se alguém se aproximasse, ele saberia.

No portão, me deu um beijo longo e molhado demais. Um beijo que mais parecia tatuagem territorial.

Minhas mãos estavam fechadas em punhos.

Quando o carro sumiu na esquina, soltei o ar e quase desabei.

Clara me alcançou na entrada.

— Demorou pra sair daquele carro, hein? — brincou, mas o olho dela dizia outra coisa.

— Ele só estava conversando — menti, olhando pro chão.

Ela não insistiu. Já sabia.

— Um dia você ainda sai disso, Mari. De verdade — sussurrou, antes de entrarmos.

####

No intervalo, sentei sozinha perto da fonte. O barulho da água não calava nada.

O celular vibrou. Daniel.

“Já almoçou?”

Ignorei.

Trinta segundos depois: “Vi que você não tá comendo direito. Vai me agradecer quando eu te ajudar a manter esse corpo lindo.”

Engoli seco. Levantei devagar, vasculhando o estacionamento com os olhos.

Nada.

Mas eu sentia. Eu sempre sentia quando ele estava por perto.

####

Na saída, a ligação da coordenadora.

— Mariah, tudo bem? É sobre o estágio. O projeto na escola de apoio comunitário precisa de gente. Sei que você reduziu as horas, mas se quiser voltar, a vaga é sua.

Por um segundo, meu coração aqueceu. Eu amava aquelas crianças. Era o único lugar onde eu existia.

A voz do Daniel ecoou na minha cabeça: “Você é minha mulher, não babá.”

— Posso te responder amanhã? — minha voz falhou.

— Claro, querida. Mas pensa com carinho.

Desliguei. A voz das crianças gritava dentro de mim.

E a voz do Daniel gritava mais alto.

Guardei o celular. Clara passou por mim e apertou meu braço de leve. “Tá viva?” murmurou. Só consegui assentir.

Caminhei pra casa com a certeza mastigando meu peito: cedo ou tarde, eu ia ter que escolher.

Me salvar...

Ou continuar sendo a mulher que Daniel moldou com medo.

Mas, naquele dia, ainda não era o momento de fugir.

Ainda não.

Porque fugir de Daniel não seria o fim.

Seria o começo de um novo tipo de prisão.

Mais silenciosa.

Mais perigosa.

Com nome.

Com olhos escuros.

E com um poder que faria meu corpo tremer por razões completamente diferentes.

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