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Uma Porta Entreaberta

Por Mariah Torres

Nos últimos dias, tentei me reconectar com o mundo com a vida além da dor.

Mariana e Milena, minhas irmãs, decidiram que era hora de me ajudar a reconstruir minha imagem de dentro para fora. Ao invés de simplesmente me levarem a uma loja ou brechó, como imaginei, elas me levaram ao bairro da moda, onde escolhemos juntas os tecidos para criar roupas feitas especialmente para mim.

— Você precisa de roupas que digam quem você é agora — disse Mariana, enquanto corria os dedos por uma fileira de tecidos brancos. — Leves, firmes, mas com movimento.

— E um toque ousado — completou Milena, pegando um tecido vermelho escarlate, vibrante e provocante. — Esse aqui vai virar um vestido de parar o trânsito.

Andamos entre rolos e mais rolos de tecidos. Toques suaves, cores neutras, tons florais e detalhes metálicos. Tudo foi escolhido com cuidado, com afeto e um tipo de intuição que só irmãs têm.

Elas compraram algodão, seda, viscose e renda leve. Falavam em saias soltas, vestidos de verão, cortes que valorizavam meu corpo com delicadeza não para chamar atenção, mas para me lembrar da mulher que ainda existia dentro de mim.

— Vamos fazer vestidos que façam você se sentir você — disse Milena.

De volta ao apartamento, a sala se transformou em um pequeno ateliê. A máquina de costura foi instalada na mesa de jantar, linhas e tesouras espalhadas por todo canto. Mariana tirava medidas enquanto Milena riscava moldes. Elas falavam baixo, costuravam rindo, e eu apenas observava entre surpresa e gratidão.

Fizeram quatro vestidos leves. Um branco, delicado, com babados discretos e mangas soltas. Um verde-musgo com cintura marcada e decote quadrado. Um azul claro de alças finas, que parecia dançar no corpo. E o vermelho, ah, o vermelho. Justo, com fenda lateral e alças cruzadas nas costas. Era intenso. Quase ousado demais para mim. Mas quando experimentei, Mariana sussurrou:

— Você não precisa ter medo de ser vista. Quem olha, respeita.

E pela primeira vez em muito tempo, não desviei os olhos do espelho.

Mais tarde naquela noite, me sentei no chão da sala enquanto Milena alinhava o último detalhe da barra de um dos vestidos. Mariana estava do outro lado, organizando as fitas e aviamentos por cor. A luz amarelada da luminária fazia tudo parecer mais íntimo, mais vivo. Era como se estivéssemos bordando, além de tecido, uma nova versão da minha história.

— Vocês fazem isso parecer fácil — murmurei.

Milena riu, sem desviar o olhar do ponto que costurava. — Fácil é amar você. O resto a gente inventa.

Mariana se aproximou, sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. — Cada ponto aqui é um pedaço da nossa confiança e amor por você, Mari. Não se esqueça disso.

Na manhã seguinte, Ícaro apareceu com croissant e café. Quando me viu com o vestido azul, recém-passado e com o cabelo preso em uma trança lateral, soltou um assovio baixo, teatral.

— Olha só pra você! — ele disse, colocando a bandeja sobre a mesa. — Está com cara de quem sobreviveu ao inferno  e voltou pra brilhar.

Sorri, sentindo um calor no peito que há tempos não visitava meu corpo. Ele se aproximou, ajeitou meu colar com delicadeza e sussurrou:

— Você ainda não percebeu, mas já virou a página. Agora é só escrever com a sua letra.

Também passamos em uma pequena loja de cosméticos, e Mariana me ajudou a escolher um corretivo que cobria bem as marcas no meu rosto. Milena escolheu um batom vinho profundo e disse:

— Isso aqui é pra quando você quiser lembrar que ainda é poderosa.

Fomos comprar algumas lingeries e roupas de dormir...

— Nada de pijama velho ou camiseta larga, viu? — disse Milena, me puxando — Uma nova vida também precisa de um pouco de ousadia noturna.

Entramos em uma loja charmosa, com luzes suaves e prateleiras forradas de peças delicadas.

Mariana segurava conjuntos de algodão com renda, enquanto Milena pegava opções mais ousadas, com tons de vinho, preto e até rosa queimado.

— Esse aqui grita "confiança", olha isso! — Milena disse, mostrando uma camisola acetinada vermelha.

— Ou grita "socorro", se você estiver tentando dormir no inverno com isso — brincou Mariana, arrancando risadas minhas.

Acabei escolhendo um conjunto em azul-marinho, confortável e bonito, e uma camisola de seda que me fez sentir elegante só de tocar. Saímos da loja com sacolas leves, mas corações mais aquecidos.

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Na volta, Ícaro nos esperava com chocolate quente e pão de queijo.

— Quem vai fazer desfile íntimo na sala? — ele perguntou, rindo.

— Você não perde uma — respondi.

Mas, por dentro, eu sabia: aqueles pequenos gestos, aquelas roupas escolhidas com tanto carinho, eram mais do que itens. Eram declarações de amor. Uma forma silenciosa de dizer: "você merece se sentir bem na própria pele."

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O celular antigo que Mariana guardava passou a ser meu, ao menos por enquanto. Com ele, consegui mandar mensagem para minha amiga Clara, que ficou aliviada ao saber que eu estava segura. Era só um aparelho simples, mas para mim, significava liberdade.

Naquela noite, após o jantar, ficamos as três na sala. Mariana preparou um chá de camomila, e Milena organizou alguns papéis sobre a mesa de centro. O clima estava tranquilo, mas eu sabia que quando minha irmã tinha algo a dizer, Milena ficava mais silenciosa que o normal, como se ensaiasse as palavras antes de soltar.

— Hoje apareceu uma vaga — ela disse de repente, sem levantar os olhos das folhas.

Eu a encarei com curiosidade, e Mariana se ajeitou ao meu lado no sofá.

— É pra mim? — perguntei, baixinho.

— Pode ser — Milena respondeu. — É em um dos cadastros da agência onde uma amiga minha está trabalhando. Trabalho interno, em uma casa de família, mas não é qualquer família.

— Hum...

— É uma mansão, Mariah. Aquelas que você só vê em série de TV. Segura, discreta e, segundo a funcionária anterior, bastante silenciosa. O que me chamou atenção foi o perfil exigido: alguém sensível, confiável, que saiba lidar com criança. Quando li isso, pensei em você.

— Cuidar de uma criança?

— Sim. Uma garotinha de cinco anos. A mãe faleceu há alguns anos. O pai é o tipo de homem que vive mais nas sombras. Reservado. Extremamente poderoso. Nunca apareceu na agência pessoalmente, mas o nome dele circula em certos círculos.

— Quem é?

Milena hesitou, depois falou, como se as palavras pesassem.

— Leon Helk.

O nome caiu como um sussurro que ecoa.

Mariana levantou as sobrancelhas, surpresa. Até eu já tinha ouvido falar do sobrenome Helk  mesmo sem saber detalhes, sabia que não era um nome qualquer.

— E por que achou que seria ideal pra mim?

Milena enfim ergueu o olhar.

— Porque você sabe o que é dor. E sabe reconhecer nos outros também. Essa menina não precisa só de uma babá. Precisa de alguém que enxergue além do silêncio. E você faz isso melhor do que ninguém.

Fiquei quieta por um momento, absorvendo a informação.

— Qual é o risco?

— O mesmo que qualquer recomeço traz. Mas lá dentro você terá moradia, salário fixo, rotina estável. Vai dormir na casa, terá seu próprio quarto. E, segundo quem nos passou o contato, há regras muito rígidas de segurança. Não entra qualquer pessoa. Ninguém mexe com ninguém. Eles não querem fofoca nem confusão. Querem discrição. E você tem isso.

— E ele? O pai da menina?

— Quase não aparece. Passa semanas fora. Quem cuida da casa é uma governanta chamada Esther. Ela vai te entrevistar amanhã cedo. Mas a vaga, Mariah a vaga é praticamente sua. Ela só quer olhar nos seus olhos.

Respirei fundo, sentindo o peso do nome. Leon Helk. Era mais do que um patrão. Era um enigma. E alguma parte de mim, mesmo sem entender por quê queria decifrar.

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