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Uma Porta Entreaberta

*Capítulo 4 — Por Mariah Torres*

Nos últimos dias, tentei me reconectar com o mundo. Com a vida além da dor.

Mariana e Milena decidiram que era hora de me reconstruir de dentro para fora. Ao invés de brechó, me levaram ao bairro da moda. Escolhemos juntas os tecidos para criar roupas feitas só para mim.

— Você precisa de roupas que digam quem você é agora — disse Mariana, deslizando os dedos por uma fileira de tecidos brancos. — Leves, firmes, mas com movimento.

— E um toque ousado — completou Milena, puxando um vermelho escarlate, vibrante e provocante. — Esse aqui vai virar um vestido de parar o trânsito.

Andamos entre rolos de algodão, seda, viscose e renda leve. Cores neutras, tons florais, detalhes metálicos. Tudo escolhido com cuidado, com afeto, com a intuição que só irmãs têm.

— Vamos fazer vestidos que façam você se sentir você — disse Milena.

De volta ao apartamento, a sala virou ateliê. Máquina de costura na mesa de jantar, linhas e tesouras por todo canto. Mariana tirava medidas. Milena desenhava moldes. Elas costuravam rindo baixo. Eu só observava, entre surpresa e gratidão.

Quatro vestidos leves. Um branco, delicado, babado discreto e mangas soltas. Um verde-musgo com cintura marcada e decote quadrado. Um azul claro de alças finas, que parecia dançar no corpo. E o vermelho. Justo, fenda lateral, alças cruzadas nas costas. Intenso. Quase ousado demais para mim. Quando experimentei, Mariana sussurrou:

— Você não precisa ter medo de ser vista. Quem olha, respeita.

Pela primeira vez em muito tempo, não desviei os olhos do espelho.

Mais tarde, sentei no chão enquanto Milena alinhava a barra do último vestido. Mariana organizava fitas por cor. A luz amarelada da luminária deixava tudo mais íntimo, mais vivo. Era como se estivéssemos bordando, além de tecido, uma nova versão da minha história.

— Vocês fazem isso parecer fácil — murmurei.

Milena riu, sem tirar o olho do ponto.

— Fácil é amar você. O resto a gente inventa.

Mariana sentou ao meu lado e segurou minha mão.

— Cada ponto aqui é um pedaço da nossa confiança em você, Mari. Não esquece.

Na manhã seguinte, Ícaro apareceu com croissant e café. Me viu com o vestido azul, cabelo numa trança lateral, e soltou um assovio teatral.

— Olha só pra você. Tá com cara de quem sobreviveu ao inferno e voltou pra brilhar.

Sorri. Um calor que eu não sentia há meses subiu pelo peito. Ele ajeitou meu colar e sussurrou:

— Você já virou a página. Agora escreve com a sua letra.

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Mariana escolheu um corretivo que cobria bem as marcas no meu rosto. Milena pegou um batom vinho profundo.

— Isso aqui é pra quando você quiser lembrar que ainda é poderosa.

Lingerie foi a próxima parada.

— Nada de pijama velho ou camiseta larga — Milena me puxou. — Uma nova vida também precisa de ousadia noturna.

A loja tinha luz baixa e peças delicadas. Mariana segurava algodão com renda. Milena, vinho, preto, rosa queimado.

— Esse aqui grita "confiança" — Milena ergueu uma camisola acetinada vermelha.

— Ou grita "socorro", se for inverno — Mariana brincou.

Escolhi um conjunto azul-marinho, confortável e bonito, e uma camisola de seda que me fez sentir elegante só de tocar. Saímos com sacolas leves e o peito mais aquecido.

####

Ícaro nos esperava com chocolate quente e pão de queijo.

— Quem vai fazer desfile íntimo na sala? — riu.

— Você não perde uma — respondi.

Por dentro, eu sabia: aqueles gestos eram declarações de amor. Uma forma silenciosa de dizer: você merece se sentir bem na própria pele.

####

O celular antigo da Mariana passou a ser meu. Mandei mensagem pra Clara. Ela ficou aliviada. Era só um aparelho simples. Para mim, era liberdade.

Naquela noite, após o jantar, ficamos às três na sala. Mariana fez chá de camomila. Milena espalhou papéis na mesa de centro. O clima estava tranquilo, mas conheço minha irmã. Milena só fica em silêncio assim quando ensaia as palavras.

— Hoje apareceu uma vaga — ela disse, sem tirar os olhos das folhas.

— É pra mim? — perguntei baixo.

— Pode ser. Agência de uma amiga minha. Trabalho interno, em casa de família. Mas não é qualquer família.

— Hum...

— É uma mansão, Mariah. Daquelas de série de TV. Segura, discreta, silenciosa. O perfil exigido: alguém sensível, confiável, que saiba lidar com criança. Quando li, pensei em você.

— Cuidar de uma criança?

— Sim. Uma menina de cinco anos. A mãe morreu há alguns anos. O pai vive nas sombras. Reservado. Extremamente poderoso. Nunca foi na agência, mas o nome dele circula em certos círculos.

— Quem é?

Milena hesitou. As palavras pesaram.

— Leon Helk.

O nome caiu como um sussurro que ecoa.

Mariana ergueu as sobrancelhas. Até eu conhecia o sobrenome Helk. Não precisava de detalhes para saber que não era um nome qualquer.

— Por que achou que seria ideal pra mim?

Milena enfim me olhou.

— Porque você sabe o que é dor. E sabe reconhecer nos outros. Essa menina não precisa só de uma babá. Precisa de alguém que enxergue além do silêncio. E você faz isso melhor do que ninguém.

Fiquei quieta, absorvendo.

— Qual é o risco?

— O mesmo de qualquer recomeço. Mas lá dentro você tem moradia, salário fixo, rotina estável. Seu próprio quarto. E as regras de segurança são rígidas. Não entra qualquer pessoa. Ninguém mexe com ninguém. Eles querem discrição. E você tem isso.

— E ele? O pai da menina?

— Quase não aparece. Passa semanas fora. Quem cuida da casa é uma governanta chamada Esther. Ela te entrevista amanhã cedo. Mas a vaga, Mariah... a vaga é praticamente sua. Ela só quer olhar nos seus olhos.

Respirei fundo, sentindo o peso daquele nome. Leon Helk. Mais que um patrão. Um enigma.

E alguma parte de mim, mesmo sem entender por quê, já queria decifrar.

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